Disestesia é uma sensação anormal e desagradável. Pode surgir sem contato ou ser provocada por roupa, lençol, água, temperatura ou toque leve. Queimação, ardor, choque, frio doloroso, aperto e sensação de pele ferida são as descrições mais comuns. O nome descreve o que você sente, e a causa aparece quando o local do sintoma é somado ao exame neurológico.
O mapa do corpo é a primeira pista. Uma área pequena costuma acompanhar um nervo cutâneo ou uma raiz. Sintomas simétricos nos dois pés sugerem polineuropatia. Uma faixa no tronco aponta para raiz torácica ou medula. A pele também entra no exame, porque inflamação, infecção e doença dermatológica podem produzir ardor sem lesão neurológica. Procure atendimento imediato se a alteração começou de repente em um lado do corpo, porque pode ser um acidente vascular cerebral (AVC), ou se vier com fraqueza que avança ou alteração urinária ou intestinal.
Definição e termos sensitivos
Disestesia é uma sensação anormal desagradável, espontânea ou provocada; parestesia é uma sensação anormal que não precisa ser desagradável.
Formigamento leve depois de apoiar o braço é uma parestesia passageira. Se o mesmo contato vira ardor intenso ou choque desagradável, a descrição passa a ser de disestesia. A sensação pode aparecer sozinha, sem estímulo, ou como resposta anormal ao toque.
Alodinia é dor provocada por estímulo que normalmente não dói, como o roçar da roupa. Hiperalgesia é uma resposta dolorosa aumentada a um estímulo que já seria doloroso. Hipoestesia é a redução da sensibilidade. Essas alterações podem coexistir: a mesma região pode estar dormente ao toque e doer muito com o frio.
O que pesa na gravidade é o déficit que acompanha a sensação. Ardor intenso pode ocorrer em neuropatia de fibras finas com força normal. Uma sensação discreta acompanhada de fraqueza progressiva, alteração da marcha ou disfunção urinária pode indicar comprometimento neurológico mais importante.
Chamo a dor de neuropática quando a história é compatível, a área dos sintomas respeita a anatomia dos nervos e o exame encontra alteração de sensibilidade no mesmo território. Um exame que mostre a lesão ou a doença confirma o diagnóstico, mas não preciso dele em todo caso para começar o tratamento dirigido.
Mapa corporal da disestesia
A distribuição da disestesia ajuda a localizar a investigação em nervo periférico, múltiplos nervos, raiz, medula ou cérebro.
Um nervo periférico produz sintomas no território que fica depois do ponto de lesão ou compressão. A sensação pode piorar com a posição do punho, do cotovelo ou do membro, e fraqueza nos músculos do mesmo nervo reforça a localização. Uma raiz costuma juntar sintomas na coluna e no membro, com alteração de reflexo e de força num padrão que atravessa mais de um nervo periférico.
Polineuropatia distal geralmente começa nos pés e sobe de modo relativamente simétrico. Quando alcança boa parte das pernas, as mãos também podem ser afetadas. Diabetes, uso nocivo de álcool, deficiência nutricional, doença renal, medicamentos tóxicos para nervos, proteínas anormais e causas hereditárias entram na investigação conforme a história e o exame.
Mononeuropatia múltipla produz áreas assimétricas e separadas entre si, e faz pensar em causas metabólicas, inflamatórias, infecciosas ou vasculíticas. Plexopatia atravessa os territórios de várias raízes e nervos de um membro. Trauma, cirurgia, radioterapia, massa e inflamação são os contextos que fazem pensar nela.
Medula e cérebro podem produzir disestesia com alteração da marcha, rigidez, falta de coordenação, nível sensitivo no tronco, sintomas em metade do corpo, alterações visuais ou disfunção urinária. O nível sensitivo é uma linha no tronco a partir da qual a sensibilidade muda, e ele aponta para a medula.
Localização pelo território sensitivo
O sistema somatossensitivo detecta e transmite toque, temperatura, dor e posição do corpo. O local do sintoma e os déficits associados indicam qual parte desse sistema deve ser investigada.
Área definida de mão, braço, perna ou tronco
Procurar compressão, trauma e perda motora correspondentePés simétricos ou áreas assimétricas separadas
Investigar causas metabólicas, tóxicas, inflamatórias e hereditáriasColuna associada a faixa no membro ou tronco
Comparar força, reflexos e sensibilidadeMetade do corpo, nível no tronco, marcha ou coordenação alterada
Avaliar medula e cérebroExame sensitivo e neurológico
Na consulta, examino a sensibilidade comparando a área que incomoda com regiões normais. Toque leve, estímulo pontual, vibração, posição articular e temperatura testam vias diferentes. O objetivo é encontrar perdas, respostas exageradas e os limites anatômicos da área, sem provocar dor repetidamente.
Força, reflexos, tônus, coordenação e marcha completam o mapa. Disestesia localizada com força normal tem prioridade diferente de uma sensação leve com queda do pé, mão fraca ou rigidez nas pernas. Pulsos, cor, temperatura e inchaço mostram se a circulação contribui. Pele, unhas e mucosas podem revelar infecção, herpes-zóster, dermatite ou outra origem fora do sistema nervoso.
Exame sensitivo dirigido e testes confirmatórios são escolhidos pela localização: condução nervosa avalia fibras maiores, biópsia de pele pode documentar neuropatia de fibras finas e ressonância responde a uma suspeita central ou estrutural.
A eletroneuromiografia é mais útil quando o exame aponta para nervo periférico, raiz, plexo ou polineuropatia de fibras maiores. A ressonância entra quando o exame sugere cérebro, medula, raiz ou lesão estrutural específica. Não peço ressonância de coluna para sintomas exclusivos de polineuropatia periférica sem sinais centrais, porque ela tende a acrescentar achados incidentais.
Exames guiados pela localização da disestesia
Cada exame alcança uma parte diferente do sistema sensitivo.
| Exame | O que avalia | Limite |
|---|---|---|
| Exame neurológico | Distribuição, perda sensitiva, força, reflexos e marcha | Precisa ser repetido quando o quadro muda |
| Eletroneuromiografia | Nervo periférico, plexo, raiz e fibras maiores | Pode ser normal em lesão só sensitiva ou de fibras finas |
| Exames de sangue | Causas metabólicas, nutricionais, tóxicas e hematológicas | Escolhidos pelo padrão e pela história |
| Ressonância | Lesão estrutural de cérebro, medula ou raiz | Achado incidental precisa combinar com o exame |
| Exame da pele | Inflamação, infecção e doença dermatológica | Déficit associado pede também exame neurológico |
Investigação da causa
Na polineuropatia distal simétrica, glicose, vitamina B doze com metabólitos e imunofixação de proteínas estão entre os exames laboratoriais de maior rendimento.
Os demais exames seguem o quadro: hemograma e função renal, hepática e tireoidiana, somados à história de exposições, consumo de álcool, alimentação, cirurgia gastrointestinal, medicamentos, quimioterapia, infecções e doenças na família. Não peço um painel amplo sem critério, porque ele acumula resultados limítrofes que confundem a busca pela causa.
Tempo e velocidade também contam. Sintomas simétricos que avançam devagar têm diferencial diferente de uma disestesia que se espalha em dias, aparece depois de uma infecção ou vem com fraqueza que vai subindo. Dor após herpes-zóster fica no território que teve as lesões. Ardor focal sem lesão de pele pode vir de um nervo cutâneo, e coceira, descamação ou ferida levam a avaliação para a pele.
Dados que direcionam a causa da disestesia
O padrão do sintoma escolhe os exames.
Focal, simétrica distal, radicular, em faixa ou em metade do corpo
Súbita, progressiva, flutuante ou estável
Perda sensitiva, fraqueza, reflexos, marcha e funções autonômicas
Diabetes, álcool, deficiência nutricional, infecção, trauma, cirurgia, câncer e medicamentos
Tratamento conforme a causa
No quadro estável, a localização define o próximo passo do diagnóstico, e medicamento, técnica ou procedimento são escolhidos pela causa provável ou confirmada. A localização vem da história, do mapa dos sintomas e do exame; peço teste complementar quando o resultado pode confirmar a causa ou mudar o tratamento. Na primeira consulta, registro a área afetada, as atividades que a sensação limita e os déficits do exame, que servem de referência para as consultas seguintes.
Pele. Inflamação, infecção ou outra lesão visível na pele direciona primeiro ao diagnóstico cutâneo. Extensão, descamação, bolhas, ferida, secreção, febre e relação com produtos ou medicamentos orientam esse diagnóstico. Perda sensitiva, fraqueza ou um território neural maior que a lesão levam ao exame neurológico em paralelo.
Nervo ou raiz. Um território focal direciona o exame para nervo ou raiz. O mapa sensitivo, a força, os reflexos, a posição que desencadeia o sintoma e a relação com pescoço, coluna ou membro separam nervo periférico, plexo e raiz.
Polineuropatia. Um padrão distal e simétrico direciona a investigação para polineuropatia e causas sistêmicas. A cada consulta, reexamino até onde os sintomas sobem nas pernas, a força, o equilíbrio e a marcha, e pergunto por quedas.
Na neuropatia diabética com perda de sensibilidade protetora nos pés, é preciso inspecionar toda a superfície dos pés diariamente, não andar descalço, verificar o interior do calçado, usar água abaixo de 37 graus e não aquecer os pés com bolsa de água quente ou aquecedor. Esses cuidados valem para o pé diabético em risco, que já não sente bem calor, atrito e pequenas feridas.
Cérebro ou medula. Sintomas em metade do corpo, nível sensitivo no tronco, alteração de marcha ou perda de coordenação direcionam a investigação para cérebro ou medula, e a primeira decisão é a urgência. A reabilitação é planejada depois que a lesão e sua estabilidade estão definidas.
Sinais de alerta
- Alteração súbita em um lado do corpo. Formigamento, dormência ou outra alteração sensitiva de início súbito em um lado ou metade do corpo pode representar AVC ou ataque isquêmico transitório, mesmo sem fraqueza, assimetria facial ou alteração da fala. Dormência súbita de um lado que já passou também deve ser avaliada como possível ataque isquêmico transitório. A suspeita de AVC ou ataque isquêmico transitório pede atendimento hospitalar imediato, com ambulância pelo 192 quando necessário.
- Fraqueza ou marcha em piora. Fraqueza simétrica que progride em até quatro semanas exige avaliação neurológica imediata e avaliação da função bulbar, que inclui deglutição, voz e proteção das vias aéreas, além da respiração. Falta de ar em repouso ou ao deitar pede o mesmo atendimento imediato. Fraqueza focal de um membro ou hemiparesia, que é fraqueza de um lado do corpo, em progressão rápida exige investigação urgente, incluindo neuroimagem. Instabilidade da marcha em piora rápida exige avaliação neurológica urgente. Fraqueza ou marcha gradualmente progressiva exige avaliação neurológica programada; dificuldade para engolir torna a avaliação urgente.
- Medula e cauda equina. Nível sensitivo, a linha no tronco a partir da qual a sensação muda, acompanhado de fraqueza ou perda de destreza, marcha instável ou alteração urinária ou intestinal exige avaliação de emergência imediata por possível comprometimento medular. Uma faixa sensitiva isolada, sem esses sinais, é localizada no exame clínico. Dor lombar intensa irradiada para a perna com nova alteração urinária, intestinal ou sexual, ou nova dormência perineal, exige avaliação de emergência imediata para síndrome da cauda equina.
- Dor na coluna em quem teve câncer. Em pessoa com câncer atual ou prévio, dor vertebral intensa, progressiva, mecânica, noturna, agravada por esforço ou com sensibilidade local exige orientação da equipe de oncologia em até 24 horas por suspeita de metástase vertebral. Sem acesso à equipe, uma unidade de pronto atendimento 24 horas pode fazer a avaliação inicial e encaminhar ao hospital. Fraqueza, dificuldade para andar, alteração urinária ou intestinal, dormência, perda sensitiva ou dor radicular no mesmo contexto exige contato imediato com a oncologia e avaliação de emergência por possível compressão medular metastática.
Em qualquer emergência neurológica ou oncológica, vá a um pronto-socorro hospitalar e ligue 192 se precisar de ambulância.
Evolução da disestesia
A sensação pode oscilar sem que a doença mude: com exame estável, mantenho o diagnóstico. Se a área cresce, aparece nova assimetria ou surge um déficit, refaço o mapa da lesão. No retorno, comparo os dados da primeira consulta com os atuais e com o resultado da investigação da causa.
O que comparo a cada retorno na disestesia
O registro combina sintoma, função e segurança.