Uma convulsão é uma descarga elétrica anormal no cérebro. Ela dura de poucos segundos a alguns minutos e muda o controle dos movimentos ou da consciência durante esse período. O que se vê varia bastante: vai de um olhar parado, sem resposta, até uma queda com o corpo rígido e tremor forte. Os médicos chamam todas essas formas de crise epiléptica, e convulsão, a rigor, é a crise com abalos musculares. Quem tem o primeiro episódio precisa de atendimento de emergência no mesmo dia para identificar a causa.
Perder o controle do corpo assusta quem observa e quem passa pela crise. Nem toda convulsão é uma emergência, e a maior parte das pessoas com crises consegue viver de forma segura com acompanhamento neurológico. Saber reconhecer o que aconteceu e prestar os primeiros cuidados corretos evita ferimentos e ajuda muito o médico que vai investigar.
O que uma convulsão costuma significar
Uma descarga elétrica anormal no cérebro que altera movimentos e consciência por segundos ou minutos. A pessoa pode ter uma convulsão só na vida ou várias.
- Até 10 em cada 100 pessoas têm ao menos uma convulsão na vida
- O primeiro episódio pede atendimento de emergência
- Ter uma convulsão não significa ter epilepsia, mas é preciso investigar
Convulsão em palavras simples
O cérebro funciona com sinais elétricos que passam de um neurônio a outro. Na convulsão, um grupo de neurônios passa a disparar junto e fora de ritmo, e a descarga atrapalha o trabalho daquela região. O que aparece por fora depende da área atingida e de quanto a descarga se espalha.
Como a crise começa no cérebro
Um grupo de neurônios dispara em conjunto e sobrecarrega a região em volta.
Um grupo de células passa a emitir sinais elétricos sem controle
A descarga se espalha para áreas próximas do cérebro
A parte do corpo controlada por aquela área começa a se comportar de forma estranha
Algumas crises começam em uma área só de um lado do cérebro, as chamadas focais. Outras envolvem os dois hemisférios desde o início, as generalizadas. Essa divisão importa porque muda os sintomas, os exames e as escolhas de tratamento. Até 10 em cada 100 pessoas têm ao menos uma convulsão ao longo da vida, segundo a Cleveland Clinic.
Tipos de convulsão
As crises generalizadas atingem os dois lados do cérebro ao mesmo tempo. A forma mais conhecida é a tônico-clônica: o corpo endurece, a pessoa perde a consciência e depois vêm os tremores rítmicos. Há outras formas menos óbvias, como a crise de ausência, em que a pessoa para o que está fazendo e fica com o olhar fixo por alguns segundos, e a atônica, em que a musculatura relaxa de repente e a pessoa cai, como descreve a WebMD.
As crises focais começam em uma parte só do cérebro. Na focal com consciência preservada, a pessoa acompanha o que está acontecendo, sente formigamento ou nota uma alteração visual. Na focal com consciência alterada, ela fica confusa, pode mastigar, estalar os lábios ou mexer as mãos sem lembrar depois. Uma crise focal pode se espalhar e virar uma generalizada, o que explica por que alguns pacientes relatam um aviso antes do quadro mais intenso, segundo a Healthline.
Como distinguir o que se vê
| Cena observada | Pista principal | O que costuma ser |
|---|---|---|
| Corpo rígido seguido de tremores e perda de consciência | Fase tônica e depois clônica, dura um a três minutos | Crise tônico-clônica generalizada |
| Olhar parado por poucos segundos, sem queda | A pessoa volta como se nada tivesse acontecido | Crise de ausência |
| Movimentos de mastigar, estalar os lábios, olhar perdido | A pessoa não lembra do episódio | Crise focal com consciência alterada |
| Formigamento ou sensação estranha em um lado, por segundos ou poucos minutos | Repete-se igual antes das crises em quem já tem o diagnóstico | Aura de crise focal. Na primeira vez, ou com fraqueza ou fala enrolada, ligue 192 pelo risco de acidente vascular cerebral |
Avisos antes da crise
Algumas pessoas percebem sinais horas ou até dias antes de uma crise. Muitas crises, porém, começam de repente, sem aviso nenhum. O sono ruim e a irritabilidade aparecem com frequência nessa fase inicial, chamada de pródromo. Mais perto do episódio, surge a aura, um aviso do próprio cérebro: gosto metálico na boca, cheiro estranho, visão embaralhada, formigamento em uma parte do corpo, uma sensação forte de medo ou aquela impressão de já ter vivido determinada cena.
A aura nem sempre termina em uma crise maior. Ela pode acontecer sozinha. Anotar o que se sente, quando e por quanto tempo ajuda o neurologista a identificar em qual região do cérebro a descarga começa, como lembra a Medical News Today.
Causas frequentes
As causas se dividem em dois grandes grupos. Nas crises provocadas, existe um fator temporário por trás: açúcar baixo no sangue, sódio ou cálcio fora do normal, infecção no cérebro, uso ou retirada de álcool e drogas, febre alta em crianças pequenas. Quando esse fator é corrigido, a crise costuma não voltar. Nas crises não provocadas, o episódio aparece sem gatilho claro, e duas ou mais delas podem levar ao diagnóstico de epilepsia, conforme a WebMD.
Entre as causas de epilepsia estão o acidente vascular cerebral, as infecções do sistema nervoso, os traumatismos cranianos, as malformações de vasos sanguíneos e algumas doenças degenerativas do cérebro, como detalha o MedlinePlus. Luzes piscando rápido, noites mal dormidas e esquecer a medicação aparecem como gatilhos em quem já tem o diagnóstico. Vale a pena registrar o que antecedeu o episódio para levar à consulta.
Primeiros socorros
Presenciar uma convulsão tônico-clônica assusta, e o instinto costuma levar a atitudes erradas. A regra é simples: manter a pessoa segura, não interferir no movimento e marcar o tempo. Coloque algo macio debaixo da cabeça, afaste móveis e objetos duros e não tente segurar os braços ou pernas. A crise segue seu curso e costuma parar sozinha.
Assim que for possível, vire a pessoa de lado com cuidado, sem forçar, com a boca voltada para o chão, e mantenha assim até ela acordar. Essa posição protege as vias aéreas caso ela vomite ou produza saliva. Não coloque nada na boca, nem os dedos, nem colher, nem pano: o risco de morder é grande e o objeto pode obstruir a passagem de ar. Ninguém engole a língua durante a crise, então não tente puxá-la. Também não ofereça água nem remédio até que ela esteja acordada e respondendo normalmente, como orienta a WebMD.
Sequência que ajuda durante a crise
Quando buscar ajuda urgente
Em quem já tem diagnóstico de epilepsia, uma crise tônico-clônica que dura de um a três minutos e termina sozinha em geral não exige resgate. Se você não conhece a pessoa ou não sabe se ela já teve crises, ligue 192. Existem situações, porém, em que o socorro precisa ser chamado. Uma crise que passa de cinco minutos, ou várias crises seguidas sem a pessoa recuperar a consciência entre elas, configura um quadro grave chamado estado de mal epiléptico, que ameaça a vida e precisa de atendimento hospitalar rápido, segundo a Cleveland Clinic.
Quando chamar o socorro de imediato
- Convulsão que dura cinco minutos ou mais
- Outra crise que começa logo depois da primeira
- A pessoa não acorda ou não volta a respirar bem depois que os tremores param
- Primeira convulsão da vida, ou você não sabe se a pessoa já teve crises
- Crise mais longa ou diferente do habitual em quem já tem epilepsia
- Crise dentro da água
- Grávida, diabético ou cardiopata que convulsiona
- Ferimento na crise, principalmente batida forte na cabeça
- Fraqueza em um lado do corpo, fala enrolada, febre com rigidez na nuca ou dor de cabeça muito forte
Diante de qualquer um desses itens, acione o serviço de emergência pelo 192 e acompanhe a pessoa até a chegada da equipe. Se a crise durar menos de cinco minutos, a pessoa acordar bem e já tiver diagnóstico conhecido, basta avisar depois o neurologista que a acompanha. Em um primeiro episódio, ainda que breve, a orientação é buscar atendimento de emergência para exames.
Exames após a primeira crise
O objetivo dos exames é encontrar a causa e definir se o episódio foi provocado ou não. O eletroencefalograma, conhecido como EEG, registra a atividade elétrica do cérebro por meio de eletrodos colados ao couro cabeludo. Ele pode mostrar sinais de descarga mesmo entre as crises e ajuda a identificar o tipo de epilepsia. Em alguns casos, a atividade aparece normal, o que não descarta o diagnóstico.
Exames de imagem, como a tomografia ou a ressonância magnética do crânio, procuram lesões, cicatrizes, tumores ou alterações nos vasos que possam explicar as crises. Análises de sangue checam sódio, cálcio, glicose e sinais de infecção, e a suspeita de infecção no cérebro pode pedir a punção lombar, como aponta o MedlinePlus. Quando a origem não fica clara, o neurologista pode pedir uma gravação de vídeo junto com o EEG para assistir ao episódio em tempo real.
O que cada exame esclarece
| Exame | O que mostra | Limite |
|---|---|---|
| Eletroencefalograma | Atividade elétrica do cérebro e sinais de descarga | Pode vir normal entre as crises |
| Ressonância magnética do crânio | Lesões, cicatrizes ou alterações estruturais | Nem todo achado se liga à crise |
| Exames de sangue | Sódio, cálcio, glicose, sinais de infecção | Resultado normal não afasta epilepsia |
| Vídeo-EEG | Registro da crise em tempo real | Pode exigir internação para o registro |
O papel do Fisiatra
Convulsão é um problema do sistema nervoso central, e o neurologista é o especialista que conduz a investigação e o tratamento de longo prazo. O Fisiatra entra em outro momento: na reabilitação. Ele ajuda quem ficou com sequelas da doença que causou as crises, como um acidente vascular cerebral ou um traumatismo craniano. Fraqueza em um lado do corpo ou dificuldade para falar que aparece depois de uma crise é sinal de alerta: ligue 192, não espere consulta marcada.
Na consulta, examino força, marcha, equilíbrio e coordenação, e avalio as limitações que a doença de base deixou para caminhar e para as tarefas do dia a dia. A prescrição de anticonvulsivantes e a investigação neurológica ficam com o neurologista. Quando o quadro ainda não tem diagnóstico, encaminho ao especialista. Do meu lado, cuido da reabilitação das sequelas da doença que causou as crises, quando elas existem, sempre em conjunto com o neurologista.
Quem quer entender melhor essa divisão de papéis pode ler sobre o que faz um médico fisiatra e sobre as diferenças entre Fisiatra e fisioterapeuta.
Cuidados e segurança em casa
Alguns hábitos reduzem a chance de novas crises em quem já tem o diagnóstico. Dormir bem, alimentar-se em horários regulares, evitar álcool e outras drogas e não pular a medicação são os pontos centrais. Quem tem epilepsia deve evitar atividades em que uma perda de consciência colocaria a vida em risco: nadar sozinho, subir em lugares altos, trabalhar com máquinas. Quem não está com as crises controladas não deve dirigir.
Uma pulseira de identificação médica com o diagnóstico ajuda quem presta socorro a agir rápido. Dor muscular depois de uma crise forte é comum e costuma passar em poucos dias. Dor intensa ou que não melhora, principalmente no ombro ou nas costas, precisa de avaliação médica, porque a contração e a queda podem causar luxação ou fratura. Nem toda epilepsia pode ser evitada, mas usar capacete em atividades de risco reduz a chance de traumatismo craniano, uma das causas de crises.
Perguntas frequentes
Toda convulsão é epilepsia? Não. Uma crise isolada pode acontecer por febre, açúcar baixo no sangue, álcool ou infecção, e costuma não voltar depois que a causa é corrigida. O diagnóstico de epilepsia aparece quando há duas ou mais crises sem causa clara.
Convulsão mata? Na maioria dos casos, a convulsão não é fatal. O risco aumenta quando a crise passa de cinco minutos, acontece dentro da água ou quando a pessoa se machuca com a queda. Com diagnóstico e tratamento adequados, a maior parte dos pacientes vive de forma segura.
Qual médico procurar depois de uma crise? O neurologista é o especialista central para investigar a causa e prescrever a medicação. O Fisiatra pode ajudar na reabilitação quando a doença que causou as crises, como um acidente vascular cerebral, deixa sequelas de movimento. Em um primeiro episódio, o pronto-socorro faz a avaliação inicial.
Posso dirigir se tive uma convulsão? Depois de uma convulsão, não dirija nem opere máquinas até o médico liberar, mesmo que tenha sido uma só. A volta depende da causa, do tratamento e do tempo sem crises. No Brasil a regra é nacional, definida pelo Contran: o exame de aptidão do Detran pede um período sem crises e um relatório do médico que acompanha o caso.
Que remédios tratam convulsão? Na epilepsia, o tratamento de base são os anticonvulsivantes, também chamados de antiepilépticos, prescritos pelo neurologista. Depois de uma crise única com causa corrigida, muitas vezes não é preciso remédio contínuo. A escolha depende do tipo de crise e das características de cada pessoa. O ajuste é feito nas consultas, e pode ser preciso fazer exames de sangue periódicos para vigiar efeitos colaterais. Nunca se deve interromper o uso sem orientação, porque a retirada brusca pode desencadear uma crise. Esquecer doses também pode. Mulheres que usam esses remédios e planejam engravidar devem conversar com o neurologista antes, sem parar por conta própria, porque alguns deles podem afetar o bebê.
O que fazer se eu sentir uma aura? Se perceber os sinais de aviso, pare o que estiver fazendo, afaste-se de escadas, fogão e água, sente-se ou deite-se de lado e avise alguém por perto. Se estiver dirigindo, pare o carro em local seguro. Anotar o que sentiu ajuda o neurologista a ajustar o tratamento. A aura é uma oportunidade de se proteger antes da crise mais intensa.