Se você tem dor que desce pela perna, formigamento no pé e um laudo de hérnia de disco, a dúvida prática é com quem marcar primeiro. Em quadros sem perda de força, o fisiatra pode confirmar o diagnóstico, afastar outras causas de dor parecida e decidir se existe um sinal neurológico que muda o ritmo do tratamento. O fisioterapeuta conduz a reabilitação, em geral depois da avaliação inicial. Na maioria dos casos o caminho é conservador desde o começo, e a maior parte das pessoas melhora sem cirurgia.
Quando o disco se desgasta, o anel fibroso que envolve o centro gelatinoso começa a rachar e parte desse conteúdo escapa. Se o material encosta na raiz do nervo que sai da coluna, surge dor que segue o trajeto do nervo, pela perna quando o problema está na lombar ou pelo braço quando está no pescoço. Disco herniado que não encosta em nenhum nervo pode não causar sintoma algum, e isso ajuda a explicar por que tanta gente tem hérnia na ressonância sem sentir nada (HSS).
Anatomia do disco em três partes
O disco funciona como um amortecedor entre duas vértebras e pode causar sintoma quando o conteúdo escapa e irrita ou comprime a raiz nervosa. O próprio disco também pode doer.
camada externa resistente que racha com o desgaste
centro gelatinoso que escapa pelo rasgo
nervo que sai entre as vértebras e pode ser comprimido
Quem procurar primeiro
O fisiatra é médico, e isso muda o que ele pode fazer: prescrever remédio, pedir e interpretar exames, indicar infiltração quando houver motivo e, quando for o caso, encaminhar para o cirurgião de coluna. O fisioterapeuta avalia o movimento e a função, planeja e conduz a reabilitação, ensina os exercícios, ajusta a carga e trabalha postura e movimento. Os dois papéis se completam, e existe uma página aqui no site sobre as diferenças entre fisiatra e fisioterapeuta.
Em três situações a escolha fica simples. Dor apenas nas costas, sem irradiação e sem perda de força, costuma começar pelo clínico geral. Dor que desce pela perna ou pelo braço, com queimação, choque ou formigamento, merece avaliação médica; o fisiatra é um dos profissionais indicados para investigar a causa e tratar a dor. Perda de força, dormência na região entre as pernas ou dificuldade para urinar exige atendimento de urgência, sem esperar consulta marcada (HSS).
Qual profissional marcar primeiro
clínico geral
fisiatra
atendimento de urgência
A consulta com o fisiatra
Na consulta, examino a força dos principais grupos musculares dos dois lados, comparo os reflexos, testo a sensibilidade em faixas e observo como você anda. Faço também o teste da perna reta: deitado de barriga para cima, levanto sua perna esticada e observo se a dor dispara pelo trajeto do nervo. Esse teste sugere irritação de uma raiz nervosa lombar, e é o resto do exame, com força, reflexos e sensibilidade, que aponta qual raiz está envolvida (Cleveland Clinic).
Reflexo mais fraco, sensibilidade reduzida em uma faixa definida da perna e queda de força em um músculo específico apontam o nível comprometido. É esse conjunto que decide se o caso é de fisioterapia e acompanhamento ou se precisa de algo mais rápido.
O papel do fisioterapeuta
O programa de reabilitação mistura alongamento, fortalecimento dos músculos que sustentam a coluna, como os do abdome e das costas, e exercícios aeróbicos leves, como caminhada ou bicicleta ergométrica. O objetivo é aliviar a pressão sobre os nervos, soltar a musculatura tensa e devolver resistência ao movimento (WebMD, Cleveland Clinic).
Nas primeiras semanas, muita gente melhora com orientação, atividade leve e remédio simples, e por isso um programa formal de fisioterapia nem sempre é indicado logo no início (Medical News Today). Quando a dor persiste, limita o movimento ou volta, a reabilitação conduzida pelo fisioterapeuta ganha papel central. Em quadros do pescoço, exercícios de retração do queixo e correção da postura ajudam a manter a cabeça alinhada sobre os ombros e reduzem a carga sobre os discos cervicais (Spine-health).
Um sinal ajuda a saber se o exercício está no caminho certo: a dor migra para as costas e diminui na perna. Se a dor aumentar na perna ou piorar muito, pare e avise quem acompanha você (WebMD).
Exames e o que significam
A ressonância é o exame que mostra o disco, o nível e o contato com a raiz nervosa, e é ela que confirma a hérnia quando o exame físico e a história combinam. O laudo descreve ainda se a hérnia é uma protrusão, uma extrusão ou um fragmento separado do disco. O ponto que mais importa é o casamento entre o laudo e o seu exame: uma hérnia na imagem que não combina com os seus sintomas e com o exame físico pode não ser a causa da dor (HSS).
O raio X não mostra o disco, e serve para avaliar alinhamento e desgaste das vértebras. A eletroneuromiografia entra quando há dúvida entre a hérnia e outra neuropatia, como o túnel do carpo, porque ela mostra como o nervo e o músculo estão funcionando (HSS). Sem perda de força e sem outros sinais de alerta, nas primeiras semanas de dor, muitos casos podem ser acompanhados sem exame de imagem: a maioria melhora em quatro a seis semanas (Cleveland Clinic).
Para que serve cada exame
| Exame | O que mostra | Limite |
|---|---|---|
| Raio X | alinhamento das vértebras e desgaste das articulações | não mostra o disco herniado |
| Ressonância | disco, nível e contato com a raiz nervosa | hérnia pode aparecer sem causar sintoma |
| Eletroneuromiografia | funcionamento do nervo e do músculo | usada quando há dúvida com outra neuropatia |
Tratamentos pelo nome
O primeiro degrau são analgésicos e anti-inflamatórios comuns. Paracetamol alivia a dor, e o cuidado principal é a dose: em excesso ele agride o fígado. Ibuprofeno e naproxeno podem aliviar a dor e a inflamação, mas devem ser usados pelo menor tempo possível e nunca por mais de dez dias sem orientação, pelo risco cardiovascular e de sangramento no estômago. Quem tem doença renal, úlcera ou gastrite, pressão alta, doença do coração, idade mais avançada, está grávida ou usa anticoagulante deve falar com o médico antes de tomar (WebMD).
Remédios por classe e o cuidado principal
| Classe | Exemplo | Cuidado |
|---|---|---|
| Analgésico simples | paracetamol | paracetamol em excesso agride o fígado |
| Anti-inflamatório | ibuprofeno ou naproxeno | uso curto e cautela com úlcera, rim, pressão alta, coração, gestação e anticoagulante |
| Relaxante muscular | ciclobenzaprina | só com receita, dá sonolência, não dirigir nem beber álcool |
| Dor neuropática | gabapentina | só com receita, dá tontura e sonolência |
Relaxantes musculares, como a ciclobenzaprina, dependem de receita e podem ser prescritos por poucos dias quando há espasmo. O benefício costuma ser limitado e eles causam sonolência, então não dirija nem beba álcool depois de tomar. Quando a dor em queimação ou choque persiste, o médico pode prescrever medicamentos para dor neuropática, como a gabapentina, que têm tontura e sonolência como efeitos comuns. Opioides ficam reservados a situações excepcionais e por pouco tempo, pela dependência e pelos efeitos adversos (WebMD, Medical News Today).
A infiltração epidural de corticoide pode ser considerada quando a dor no trajeto do nervo não cede com remédio e fisioterapia bem feitos (HSS). Ela é feita por médico treinado, em serviço que dispõe de imagem para guiar a agulha, e o procedimento costuma levar de 15 a 30 minutos. Quando funciona, o alívio é temporário e pode durar de algumas semanas a alguns meses, e parte das pessoas melhora pouco ou não sente diferença (Cleveland Clinic). Os riscos incluem dor nova ou piora passageira da dor, sangramento, dor de cabeça, reação ao medicamento e, mais raramente, infecção ou lesão de nervo (HSS). Quem usa anticoagulante deve avisar o médico antes, e é ele quem decide se o remédio será ajustado; não suspenda por conta própria. A gravidez deve ser informada por causa do raio X usado no procedimento.
A cirurgia fica para quando o tratamento conservador não resolve ou quando existe um sinal neurológico que preocupa. Nove em cada dez pessoas com hérnia melhoram sem operar (Cleveland Clinic). A técnica mais usada é a microdiscectomia, com incisão pequena e retirada apenas da parte que está comprimindo o nervo. Perda de força progressiva na perna é o cenário em que a cirurgia pode ser indicada mais cedo, para evitar fraqueza permanente (HSS). Quando a hérnia comprime os nervos que controlam a bexiga e o intestino, a cirurgia é de emergência (Cleveland Clinic).
Cuidados em casa
Nos dias de dor mais forte, repouso curto de um a três dias ajuda, mas ficar deitado por mais tempo deixa a coluna rígida e atrasa a recuperação (Cleveland Clinic). Gelo ou calor por 15 a 20 minutos de cada vez pode aliviar. Proteja a pele com um pano e espere duas horas entre as aplicações para não machucá-la (Spine-health).
Evite curvar e torcer o tronco e não levante peso dobrando a cintura: agache com os joelhos, mantenha as costas retas e use a força das pernas (Cleveland Clinic). Para a lombar, um exercício suave de extensão, deitado de barriga para baixo apoiado nos antebraços, pode ajudar algumas pessoas, de preferência com orientação do fisioterapeuta, desde que a dor não desça para a perna; se isso acontecer, pare (WebMD). Perder peso reduz a carga sobre a lombar, e parar de fumar ajuda a proteger os discos, que o cigarro enfraquece. Se a hérnia já existe há algum tempo, veja se a hérnia pode piorar com as atividades do dia a dia.
Como a recuperação costuma correr
dor mais intensa, repouso curto de um a três dias
a dor cede aos poucos e o movimento volta
sem melhora, nova avaliação médica para rever o tratamento e discutir infiltração ou cirurgia
perda de força ou alteração para urinar pede atendimento imediato, sem esperar esses prazos
Evolução em semanas
A maioria das pessoas melhora em quatro a seis semanas, sem qualquer procedimento (Cleveland Clinic). Mais de 85% recuperam sem cirurgia, e essa recuperação pode levar até 12 semanas (Medical News Today). O próprio corpo reabsorve parte do fragmento que escapou do disco, e é por isso que o sintoma costuma ceder com o tempo (HSS).
Sobre cura: o disco não volta ao formato original, mas o fragmento reabsorvido e a raiz nervosa descomprimida fazem a dor ir embora na maior parte dos casos. O quadro pode voltar, principalmente se o trabalho ou o dia a dia continuam exigindo curvar e levantar peso do jeito antigo. Se você quer entender melhor o nível mais comum, há uma leitura específica sobre hérnia de disco lombar L4-L5 e outra sobre hérnia e dor ciática.
Sinais de alerta
Quando a hérnia pede atendimento imediato
- perda de força nova ou que vem piorando na perna ou no braço, como pé que arrasta ou mão que deixa cair objetos
- dormência na região entre as pernas, nas nádegas ou nos genitais, como se estivesse anestesiada
- dificuldade para urinar, perda de urina ou de fezes sem perceber
- dor ou formigamento nas duas pernas ao mesmo tempo
- perda de força nas duas pernas
- desequilíbrio para andar ou mãos desajeitadas quando a hérnia é no pescoço
- dor que piora rápido e impede ficar de pé
- febre junto com dor forte na coluna
- dor que começou depois de queda ou acidente
Diante de qualquer um desses sinais, vá a um pronto-socorro no mesmo dia, sem esperar consulta marcada. Se não conseguir se deslocar, ligue 192.
Perguntas frequentes
Preciso operar a hérnia? Na grande maioria dos casos, não. Nove em cada dez pessoas melhoram com tratamento conservador, e a cirurgia entra quando a dor não cede ou quando existe perda de força que progride.
Posso começar pela fisioterapia sem passar por médico? Se a dor está só nas costas, sem perda de força e sem nenhum dos sinais de alerta desta página, sim. O fisioterapeuta avalia o quadro e encaminha ao médico quando encontra algo que precisa de investigação. Quando a dor desce pela perna com formigamento ou quando há fraqueza, a avaliação médica vem antes, porque ela define se o caso é de reabilitação ou de algo mais rápido.
A hérnia some da ressonância? Muitas vezes ela diminui e, em parte dos casos, some. O fragmento que escapou pode ser reabsorvido com o tempo. Mesmo quando a imagem continua alterada, o que conta é a dor e o exame físico terem melhorado.
Posso continuar trabalhando? Depende da exigência do trabalho. Atividade leve e caminhada ajudam. Trabalho com carga pesada, torção repetida do tronco ou muitas horas sentado na mesma posição precisa de ajuste até a dor ceder.
Caminhar faz bem ou piora? Caminhar em terreno plano costuma ajudar, porque mantém o movimento e a circulação sem exigir impacto. Se a caminhada faz a dor descer pela perna, reduza a distância e comente com quem acompanha você.
A infiltração de corticoide resolve para sempre? Não. Quando funciona, o alívio é temporário, de semanas a alguns meses, e serve para você conseguir fazer a fisioterapia e voltar a se movimentar. Parte das pessoas não sente diferença. Se a dor retorna, o médico reavalia se vale repetir a aplicação ou seguir por outro caminho.