Dor Embaixo das Costelas na Corrida: Entenda as Causas e Tratamentos

fevereiro 17, 2026
escrito por: Dr. Marcus Yu Bin Pai

Médico Fisiatra e Especialista em Dor pela AMB. Doutorado em Ciências pela USP.

A dor lateral abaixo das costelas durante a corrida, popularmente conhecida como “dor de facão” ou “pontada lateral”, é uma das queixas mais frequentes entre corredores de todos os níveis. Tecnicamente denominada Dor Abdominal Transitória Relacionada ao Exercício (ETAP, na sigla em inglês), essa condição afeta aproximadamente 69% dos corredores em algum momento de seu treinamento .

Apesar de ser benigna e autolimitada na maioria dos casos, a dor pode ser intensa o suficiente para interromper o exercício e comprometer o desempenho atlético. Compreender os mecanismos fisiológicos, fatores de risco e opções de tratamento não cirúrgico é fundamental para prevenir e manejar adequadamente esse problema comum.

Neste artigo, exploraremos de forma detalhada e baseada em evidências científicas as causas, diagnósticos diferenciais e abordagens terapêuticas disponíveis, com foco em tratamentos conservadores e não invasivos.

O Que É a Dor Abdominal Transitória Relacionada ao Exercício (ETAP)

A ETAP caracteriza-se por uma dor aguda, localizada e transitória que ocorre durante atividades físicas, especialmente aquelas que envolvem impacto repetitivo e movimento do tronco, como corrida, natação e equitação . A dor tipicamente se manifesta na região lateral do abdômen, abaixo das costelas, podendo ocorrer em qualquer um dos lados, embora seja mais frequente no lado direito.

A intensidade varia de um desconforto leve a uma dor incapacitante que obriga o atleta a reduzir o ritmo ou interromper completamente o exercício. A duração é geralmente curta, resolvendo-se minutos após a cessação da atividade, embora em alguns casos possa persistir por períodos mais prolongados .

📊 Estatísticas Importantes sobre ETAP

69%
Corredores experientes afetados
2x
Mais comum em jovens atletas
90%
Resolve com tratamento conservador
5-10min
Tempo médio de resolução

Causas e Mecanismos Fisiopatológicos

Teorias Principais sobre a Origem da Dor

A fisiopatologia exata da ETAP ainda não foi completamente elucidada, porém várias teorias têm sido propostas na literatura médica. A teoria mais aceita envolve o estresse mecânico nos ligamentos subdiafragmáticos, particularmente o ligamento falciforme que conecta o fígado ao diafragma e à parede abdominal anterior .

Durante a corrida, o impacto repetitivo dos pés no solo combinado com os movimentos respiratórios profundos cria tensão nesses ligamentos, gerando a sensação dolorosa característica. Outra hipótese sugere isquemia diafragmática temporária devido à competição por fluxo sanguíneo entre os músculos respiratórios e os músculos dos membros inferiores durante o exercício intenso.

Estudos mais recentes também apontam para irritação parietal peritoneal e envolvimento dos nervos intercostais como possíveis mecanismos contribuintes. A combinação de múltiplos fatores parece explicar melhor a variabilidade clínica observada entre diferentes atletas .

Fatores de Risco Identificados

Diversos fatores aumentam a probabilidade de desenvolver ETAP durante a prática esportiva. A ingestão de alimentos ou bebidas em grande volume pouco antes do exercício é um dos principais gatilhos identificados, especialmente líquidos hipertônicos como sucos concentrados e bebidas esportivas com alta concentração de carboidratos.

Aquecimento inadequado, aumento súbito na intensidade do treino e baixa condição física também contribuem significativamente. Atletas mais jovens apresentam maior incidência, possivelmente devido a diferenças na biomecânica e menor experiência no controle do padrão respiratório durante o exercício .

Tabela 1: Fatores de Risco e Medidas Preventivas
Fator de Risco Mecanismo Prevenção
Alimentação pré-treino Distensão gástrica e tração ligamentar Evitar refeições 2-3h antes do exercício
Hidratação inadequada Bebidas hipertônicas aumentam osmolaridade Preferir água ou bebidas isotônicas em pequenos volumes
Aquecimento insuficiente Músculos não preparados para impacto Realizar 10-15min de aquecimento progressivo
Padrão respiratório irregular Tensão diafragmática aumentada Treinar respiração rítmica (ex: 3:2 passos/respiração)
Fraqueza do core Estabilidade trunkal comprometida Fortalecimento abdominal e lombar 2-3x/semana

Diagnóstico e Condições Similares

Avaliação Clínica

O diagnóstico da ETAP é essencialmente clínico, baseado na história característica de dor que surge durante o exercício e se resolve com o repouso. O médico especialista em dor ou ortopedista realizará perguntas detalhadas sobre o padrão da dor, timing em relação ao exercício, localização exata e fatores que agravam ou aliviam os sintomas.

O exame físico geralmente é normal entre os episódios de dor, embora possa haver sensibilidade à palpação na região afetada imediatamente após o exercício. A ausência de sinais de alarme como febre, perda de peso, dor noturna ou sintomas gastrointestinais persistentes ajuda a confirmar o diagnóstico benigno.

Condições que Devem Ser Diferenciadas

É crucial distinguir a ETAP de outras condições que podem apresentar sintomas semelhantes. Costocondrite, caracterizada por inflamação das cartilagens costais, pode causar dor na região torácica que piora com movimento e respiração profunda .

Distensões musculares dos oblíquos abdominais, hérnias da parede abdominal, cálculos renais e condições gastrointestinais como refluxo ou doença da vesícula biliar também devem ser consideradas no diagnóstico diferencial, especialmente quando os sintomas persistem fora do contexto do exercício .

⚠️ Sinais de Alerta

  • Dor que persiste em repouso por mais de 24h
  • Febre associada à dor abdominal
  • Náuseas ou vômitos persistentes
  • Dor que irradia para ombro ou pescoço
  • História de trauma abdominal recente

✓ Características Típicas da ETAP

  • Início durante o exercício
  • Localização lateral abaixo das costelas
  • Resolução rápida com repouso
  • Sem sintomas sistêmicos associados
  • Recorrência em padrões semelhantes

Tratamentos Não Cirúrgicos Disponíveis

Manejo Agudo Durante o Exercício

Quando a dor surge durante a corrida, várias estratégias podem ser empregadas para alívio imediato. A redução do ritmo ou interrupção temporária do exercício frequentemente proporciona alívio significativo. Técnicas de respiração profunda e controlada ajudam a reduzir a tensão diafragmática e podem acelerar a resolução dos sintomas .

A aplicação de pressão manual firme na área dolorosa enquanto se expira profundamente é uma técnica simples e eficaz relatada por muitos atletas. Alongar o lado afetado elevando o braço correspondente acima da cabeça e inclinando o tronco para o lado oposto também pode proporcionar alívio imediato.

Tratamentos Médicos e Terapêuticos

Para casos recorrentes ou mais severos, intervenções terapêuticas específicas podem ser necessárias. Anti-inflamatórios não esteroides (AINEs) como ibuprofeno ou naproxeno podem ser utilizados pontualmente, embora seu uso preventivo não seja recomendado devido aos potenciais efeitos adversos gastrointestinais .

A fisioterapia especializada em dor e reabilitação esportiva desempenha papel fundamental no tratamento de longo prazo. Técnicas de terapia manual, liberação miofascial e exercícios específicos de estabilização do core demonstraram eficácia na redução da frequência e intensidade dos episódios.

🎯 Protocolo de Tratamento em 4 Etapas

Etapa 1
Modificação do treino e ajustes na alimentação pré-exercício
Etapa 2
Fortalecimento do core e exercícios respiratórios
Etapa 3
Terapia manual e técnicas de liberação miofascial
Etapa 4
Intervenções como dry needling ou acupuntura médica

Terapias Avançadas Não Cirúrgicas

Clínicas especializadas em dor oferecem diversas opções terapêuticas avançadas para casos refratários. A acupuntura médica tem demonstrado eficácia na modulação da percepção dolorosa e redução da tensão muscular regional. O dry needling, técnica de agulhamento seco em pontos-gatilho musculares, pode proporcionar alívio significativo em casos de componente miofascial predominante .

Ondas de choque extracorpóreas, laser de alta intensidade e eletroestimulação são modalidades fisioterapêuticas que podem ser incorporadas ao plano de tratamento. A mesoterapia com agentes anti-inflamatórios ou anestésicos locais representa outra opção para casos selecionados que não respondem às medidas convencionais.

Tabela 2: Opções Terapêuticas Não Cirúrgicas e Evidência
Tratamento Mecanismo de Ação Nível de Evidência Tempo para Efeito
Fisioterapia motora Fortalecimento core, correção biomecânica Alto 4-8 semanas
Acupuntura médica Modulação dolorosa, relaxamento muscular Moderado-Alto 2-4 sessões
Dry needling Liberação pontos-gatilho miofasciais Moderado 1-3 sessões
Ondas de choque Estimulação regenerativa tecidual Moderado 3-5 sessões
Laser de alta intensidade Redução inflamação, analgesia Moderado 2-4 sessões
PENS (estimulação nervosa) Bloqueio transmissão dolorosa Moderado Imediato a 1 semana

Estratégias de Prevenção a Longo Prazo

Ajustes no Treinamento

A prevenção da ETAP requer abordagem multifatorial focada em modificações do treinamento e condicionamento físico. Progressão gradual da intensidade e volume de treino permite adaptação adequada do sistema musculoesquelético. Incorporar períodos de aquecimento adequados de 10-15 minutos antes de cada sessão de corrida reduz significativamente a incidência de episódios.

O treinamento do padrão respiratório é particularmente importante. Estudos sugerem que sincronizar a respiração com os passos em ritmos irregulares (como 5:1 em vez de 4:1) pode reduzir a tensão nos ligamentos subdiafragmáticos . Praticar respiração diafragmática profunda durante exercícios de baixa intensidade ajuda a desenvolver controle respiratório adequado.

Fortalecimento do Core

Um programa estruturado de fortalecimento da musculatura do core é fundamental para prevenção. Exercícios como prancha, ponte, dead bug e bird dog desenvolvem estabilidade trunkal que reduz o estresse nos ligamentos abdominais durante a corrida. A frequência ideal é de 2-3 sessões semanais de 15-20 minutos cada.

O Pilates clínico e o RPG (Reeducação Postural Global) em salas individuais oferecem abordagens complementares que trabalham consciência corporal, controle postural e equilíbrio muscular. Essas modalidades são particularmente benéficas para corredores com desequilíbrios musculares ou alterações posturais que contribuem para a ETAP.

💡 Dicas do Especialista

Antes da Corrida:

Evite refeições pesadas 2-3h antes. Hidrate-se com pequenos volumes de água.

Durante a Corrida:

Mantenha respiração rítmica. Se sentir dor, reduza o ritmo e respire profundamente.

Após a Corrida:

Realize alongamentos suaves. Aplique calor se houver tensão muscular residual.

Treino Semanal:

Inclua 2-3 sessões de fortalecimento do core. Varie intensidade dos treinos de corrida.

Quando Procurar Atendimento Especializado

Embora a ETAP seja geralmente benigna, existem situações que warrant avaliação médica especializada. Dor que persiste por mais de 24 horas após o exercício, sintomas que ocorrem em repouso ou durante atividades cotidianas, e dor associada a outros sintomas sistêmicos requerem investigação mais detalhada.

Corredores com episódios frequentes que comprometem significativamente o treinamento podem se beneficiar de avaliação em clínica especializada em dor. A equipe multidisciplinar pode identificar fatores contribuintes específicos e desenvolver plano de tratamento individualizado.

Tabela 3: Sinais de Alerta vs. Quando Procurar Atendimento
Sintoma Gravidade Ação Recomendada
Dor apenas durante exercício Baixa Auto-cuidado e prevenção
Dor persiste >24h após exercício Moderada Consulta médica em 1-2 semanas
Dor em repouso ou noturna Moderada-Alta Consulta médica em 48-72h
Febre, náuseas ou vômitos Alta Atendimento urgente
Dor após trauma abdominal Alta Atendimento urgente
Episódios frequentes (>3x/semana) Moderada Avaliação especializada em dor

Perguntas Frequentes sobre Dor Lateral na Corrida

1. Quanto tempo dura a dor de facão na corrida? +

A dor tipicamente resolve em 5-10 minutos após interromper ou reduzir a intensidade do exercício. Em alguns casos, pode persistir por até 30 minutos. Se a dor durar mais de 24 horas, procure avaliação médica para descartar outras condições.

2. Posso continuar correndo com dor lateral? +

Não é recomendado continuar com a mesma intensidade. Reduza o ritmo ou caminhe até a dor diminuir. Técnicas de respiração profunda e pressão manual na área podem ajudar. Ignorar a dor pode piorar o quadro e prolongar a recuperação.

3. Comer antes de correr causa dor lateral? +

Sim, refeições grandes ou líquidos em excesso 1-2 horas antes do exercício são gatilhos comuns. O estômago distendido puxa os ligamentos conectados ao diafragma. Espere 2-3 horas após refeições principais antes de correr intensamente.

4. Qual o melhor tipo de respiração para evitar dor? +

Respiração diafragmática profunda é mais eficaz que respiração superficial torácica. Sincronize a respiração com os passos em padrões irregulares (ex: inspire em 3 passos, expire em 2). Isso reduz tensão nos ligamentos subdiafragmáticos.

5. Fortalecer abdômen ajuda a prevenir a dor? +

Sim, core fortalecido proporciona melhor estabilidade trunkal durante a corrida. Exercícios como prancha, ponte e dead bug são particularmente eficazes. Treine 2-3 vezes por semana por pelo menos 4 semanas para ver resultados significativos.

6. Dor no lado direito é mais comum que no esquerdo? +

Sim, aproximadamente 60-70% dos casos ocorrem no lado direito. Isso pode estar relacionado à posição do fígado e ao ligamento falciforme que o conecta ao diafragma. O lado esquerdo também pode ser afetado, especialmente em casos de distensão gástrica.

7. Bebidas esportivas podem causar dor lateral? +

Bebidas com alta concentração de carboidratos (hipertônicas) podem aumentar o risco. Prefira bebidas isotônicas ou água em pequenos volumes durante o exercício. Evite consumir grandes quantidades de líquido imediatamente antes ou durante a corrida.

8. Aquecimento ajuda a prevenir a dor de facão? +

Sim, aquecimento adequado de 10-15 minutos reduz significativamente a incidência. Comece com caminhada leve, progressivamente aumentando para trote antes da corrida principal. Inclua alongamentos dinâmicos do tronco e exercícios respiratórios.

9. Acupuntura funciona para tratar dor na corrida? +

A acupuntura médica tem evidência moderada-alta para modulação da dor e relaxamento muscular. Pode ser particularmente útil em casos recorrentes. Geralmente são necessárias 2-4 sessões para observar melhora significativa nos sintomas.

10. Quando devo procurar um médico especialista? +

Procure especialista se a dor persistir mais de 24h, ocorrer em repouso, ou se os episódios forem frequentes (>3x/semana). Também busque avaliação se houver sintomas associados como febre, náuseas ou se a dor comprometer significativamente seu treinamento.

11. Pilates ajuda na prevenção da dor lateral? +

Sim, o Pilates clínico trabalha fortalecimento do core, controle respiratório e consciência corporal. Sessões individuais permitem abordagem personalizada para corredores. Combine com treinamento de corrida para melhores resultados na prevenção.

12. Existe tratamento cirúrgico para ETAP? +

Não, a ETAP não requer tratamento cirúrgico. É uma condição benigna que responde bem a medidas conservadoras. Cirurgia só é considerada se houver diagnóstico alternativo como hérnia ou outra patologia estrutural que necessite correção cirúrgica.

13. Corredores iniciantes sentem mais dor lateral? +

Sim, atletas mais jovens e iniciantes têm maior incidência. Isso pode estar relacionado à menor experiência no controle respiratório e condicionamento físico. A frequência diminui com treino consistente e adaptação ao longo do tempo.

14. Anti-inflamatórios ajudam a prevenir a dor? +

O uso preventivo não é recomendado devido a efeitos adversos gastrointestinais. AINEs podem ser usados pontualmente para alívio sintomático, mas não tratam a causa subjacente. Foque em prevenção através de ajustes no treino e fortalecimento.

15. Quanto tempo leva para melhorar com tratamento? +

Com medidas preventivas adequadas, muitos atletas veem melhora em 2-4 semanas. Tratamentos como fisioterapia e acupuntura podem mostrar resultados em 2-4 sessões. Casos mais persistentes podem requerer 4-8 semanas de tratamento estruturado.

Sobre a Clínica Dr. Hong Jin Pai

Somos uma clínica premium localizada na região central de São Paulo, com equipe de médicos e fisioterapeutas especialistas em Dor, formados pelo Grupo de Dor da Neurologia e Ortopedia do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP.

Realizamos tratamentos não cirúrgicos como acupuntura médica, dry needling, fisioterapia motora, Pilates e RPG em salas individuais com atendimento totalmente individualizado. Oferecemos também ondas de choque, laser de alta intensidade, mesoterapia, eletroestimulação, PENS e botox para dor crônica e aguda.

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Médico especialista em Dor e Fisiatria pela USP. Área de Atuação em Dor pela Associação Médica Brasileira. Doutorado em Ciências pela Universidade de São Paulo. Professor e Colaborador do Grupo de Dor do Hospital das Clínicas da USP.