Sintomas de Convulsão – Causas, Sintomas e Tratamentos

dezembro 1, 2025
escrito por: Dr. Marcus Yu Bin Pai

Médico Fisiatra e Especialista em Dor pela AMB. Doutorado em Ciências pela USP.

O Que é uma Convulsão? Entendendo a Tempestade Elétrica Cerebral

Uma convulsão é uma manifestação clínica que ocorre devido a uma atividade elétrica anormal, súbita e excessiva no cérebro. Imagine os neurônios (células cerebrais) se comunicando de forma desorganizada e hiper-sincronizada, como uma “tempestade elétrica” dentro do crânio. Essa descarga descontrolada pode provocar alterações temporárias no comportamento, nos movimentos, na sensibilidade ou no nível de consciência de uma pessoa.

É fundamental diferenciar: convulsão é o evento agudo, o episódio em si. Já a epilepsia é a condição neurológica crônica caracterizada pela predisposição a ter convulsões recorrentes, não provocadas por causas transitórias. Uma única convulsão na vida não configura epilepsia. Este artigo tem como objetivo explicar os sinais, o que fazer diante de uma crise e, principalmente, os diversos tratamentos não cirúrgicos disponíveis para o controle das convulsões.

📌 O Mecanismo da Convulsão em Etapas

1. Desequilíbrio na Excitabilidade Neuronal
Por diversos motivos (genética, lesão, química), um grupo de neurônios fica hiperexcitável, prontos para descarregar com facilidade.
2. Ignição e Propagação
Um “gatilho” ou a própria instabilidade inicia a descarga elétrica anormal. Essa atividade se espalha para neurônios vizinhos, sincronizando-os.
3. Manifestação Clínica (A Convulsão)
A área do cérebro afetada pela descarga define os sintomas: se for na área motora, há abalos; se for na de consciência, há desligamento.

Não é Só Epilepsia: Diversas Causas de Convulsões

Uma convulsão é um sintoma, não um diagnóstico final. Diversas condições podem desencadear a atividade elétrica anormal no cérebro. A investigação da causa é fundamental para o tratamento correto. O neurologista é o especialista responsável por essa investigação.

As causas podem ser divididas entre agudas/provocadas (quando há um fator desencadeante identificável e reversível) e crônicas/não provocadas (como a epilepsia).

Possíveis Causas e Fatores Desencadeantes de Convulsão

Febre Alta (em crianças) Desidratação Severa Distúrbios Eletrolíticos Abuso/Abstinência de Álcool/Drogas Trauma Craniano Acidente Vascular Cerebral (AVC) Tumores Cerebrais Infecções (Meningite, Encefalite) Privação Severa de Sono Epilepsia (Causa Crônica)

Reconhecendo os Sintomas: A Convulsão Não é Só “Cair e Bater”

O imaginário popular retrata a convulsão como uma queda seguida de abalos generalizados e perda de consciência (crise tônico-clônica generalizada). Porém, as manifestações são extremamente variadas e dependem da região do cérebro onde a descarga elétrica se inicia e para onde se espalha.

Algumas crises são sutis, podendo passar despercebidas. É crucial estar atento a sinais como episódios breves de “desligamento” (ausência), movimentos automáticos involuntários (como mastigar ou esfregar as mãos), ou sensações subjetivas estranhas que precedem a crise (a aura).

Tabela 1: Tipos de Sintomas e Suas Características
Tipo de Sintoma / Crise Como se Manifesta
Crise Tônico-Clônica Generalizada (“Grande Mal”) Perda súbita de consciência e queda. Corpo fica rígido (fase tônica), seguido de abalos rítmicos (fase clônica). Pode haver mordida na língua, salivação e perda do controle da bexiga.
Crise de Ausência (“Pequeno Mal”) Breve interrupção da consciência (5-10 segundos). A pessoa para o que está fazendo, fica com o olhar fixo e vazio, e depois retoma a atividade como se nada tivesse acontecido. Comum em crianças.
Crise Focal com Consciência Preservada A pessoa permanece consciente, mas experimenta sensações involuntárias: formigamento em um membro, cheiros ou sabores estranhos, déjà vu, ou movimentos leves e repetitivos de uma parte do corpo.
Crise Focal com Alteração da Consciência A pessoa fica confusa, “alheada”, e pode realizar movimentos automáticos sem propósito, como caminhar, esfregar as mãos ou mastigar. Não responde adequadamente aos outros.
Aura (Sinal de Alerta) Sintoma inicial que antecede a crise, na verdade é uma crise focal inicial. Pode ser medo súbito, náusea, sensação de estômago embrulhado, ver luzes piscando ou ouvir zumbidos.

🚨 Sinais de Alerta de uma Emergência Convulsiva (Status Epilepticus)

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Convulsão com duração superior a 5 minutos sem recuperação da consciência entre crises.
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Segunda convulsão ocorrendo imediatamente após a primeira, sem que a pessoa volte ao normal.
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Convulsão ocorrendo dentro da água (piscina, mar, banheira).
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Pessoa grávida, diabética ou que sofreu um trauma físico durante a crise.

Diante de qualquer um desses cenários, acione imediatamente o serviço de emergência (SAMU 192).

Abordagens de Tratamento Não Cirúrgico

O pilar do tratamento para controle de convulsões recorrentes (epilepsia) é farmacológico (com medicamentos). O objetivo é suprimir as descargas elétricas anormais, permitindo que o paciente leve uma vida normal, sem crises e com o mínimo de efeitos colaterais. O tratamento é sempre individualizado pelo neurologista.

Para convulsões agudas e provocadas (por febre, desidratação), o foco é tratar a causa de base. Após uma primeira crise não provocada, o médico pode optar por não iniciar medicação imediatamente, dependendo dos resultados da investigação e do risco de recorrência.

Medicamentos Antiepilépticos (MAE)

Existem diversas classes de MAEs, que atuam em diferentes mecanismos para estabilizar a membrana dos neurônios e reduzir sua excitabilidade. A escolha do medicamento de primeira linha depende do tipo de crise epiléptica, do perfil do paciente (idade, sexo, comorbidades) e do perfil de efeitos adversos.

⚖️ Balança Terapêutica: Eficácia vs. Efeitos Adversos

Meta: Controle Total
Viver sem crises. Reduzir riscos de lesões, impacto psicossocial e mortalidade relacionada.
🔄
Desafio: Tolerabilidade
Minimizar efeitos como sonolência, tontura, ganho de peso, impacto na memória ou no humor.

O papel do neurologista é encontrar o ponto ideal nesta balança para cada paciente, através do ajuste fino da dose e, se necessário, da troca ou associação de medicamentos.

Tabela 2: Medicamentos Antiepilépticos Comuns e Seus Perfis
Medicamento (Genérico) Tipos de Crise Mais Indicados Considerações e Efeitos Adversos Comuns
Ácido Valproico (Valproato) Crises generalizadas (tônico-clônicas, ausência). Também usado em crises focais. Pode causar ganho de peso, tremor, queda de cabelo. Requer monitoramento de função hepática e hemograma. Contraindicado em gestantes devido a alto risco de malformações.
Carbamazepina / Oxcarbazepina Crises focais. Muito eficaz para epilepsia do lobo temporal. Pode causar tontura, sonolência, visão dupla. Risco de reação alérgica na pele (ex.: Síndrome de Stevens-Johnson). A oxcarbazepina geralmente é melhor tolerada.
Lamotrigina Crises focais e generalizadas. Perfil favorável para mulheres em idade fértil. Titulação (aumento de dose) muito lenta é necessária para evitar risco de rash cutâneo severo. Pode causar insônia em alguns pacientes.
Levetiracetam Crises focais e generalizadas. Início de ação rápido. Pode causar irritabilidade, agressividade, alterações de humor ou apatia. Geralmente bem tolerado do ponto de vista físico.
Topiramato Crises focais e generalizadas. Também usado para enxaqueca. Pode causar formigamentos (parestesias), perda de peso, dificuldade de concentração e alteração no paladar (refrigerante sem gás).
Clobazam Usado como terapia adjuvante (adicional) para crises focais e generalizadas refratárias. Benzodiazepínico. Pode causar sedação e fadiga significativas. Desenvolve tolerância (perda de efeito) com o tempo em alguns casos.

Terapias Não Farmacológicas Complementares

Em casos selecionados, principalmente de epilepsia de difícil controle (refratária), outras abordagens podem ser consideradas, sempre em conjunto com o tratamento medicamentoso.

  • Dieta Cetogênica e suas Variantes: Dieta rigorosa, rica em gorduras e muito pobre em carboidratos, que induz um estado de cetose. Esse estado metabólico alterado parece ter um efeito anticonvulsivante. É mais utilizada em crianças, mas existem adaptações para adultos. Requer acompanhamento rigoroso de neurologista e nutricionista especializado.
  • Estimulação do Nervo Vago (ENV): Um dispositivo (marcapasso) é implantado cirurgicamente no peito, com um eletrodo que envolve o nervo vago no pescoço. Ele emite impulsos elétricos regulares que modulam a atividade cerebral, reduzindo a frequência e a intensidade das crises. É um tratamento adjuvante para crises focais refratárias.
  • Manejo de Fatores de Estilo de Vida: Regularidade no sono (evitar privação), manejo do estresse, evitar o consumo excessivo de álcool e identificar e evitar possíveis gatilhos individuais (como luzes piscantes em alguns casos de epilepsia fotossensível).
💡

Dica do Especialista: A Importância da Adesão ao Tratamento

O sucesso do controle das convulsões depende fundamentalmente da regularidade na tomada da medicação. Esquecer doses, tomar em horários variados ou suspender por conta própria são as principais causas de crises de breakthrough (“crises de ruptura”) e de status epilepticus.

Use lembretes no celular, organizadores de comprimidos (dosette) e sempre comunique ao seu médico qualquer dificuldade com o regime prescrito ou efeitos colaterais. Ajustes podem ser feitos com segurança pelo neurologista.

🛡️ Checklist de Segurança para Pacientes com Convulsões

🛁 No Banho
Prefira chuveiro a banheira. Mantenha a porta destrancada. Use tapetes antiderrapantes.
🍳 Na Cozinha
Use as bocas traseiras do fogão. Prefira utensílios de plástico ou silicone. Tenha cuidado extra com líquidos quentes.
🚗 Na Locomoção
Siga rigorosamente a orientação médica sobre dirigir. O período de restrição após uma crise varia conforme a legislação e o caso clínico.
🏊‍♂️ No Lazer
Evite nadar sozinho. Informe um supervisor sobre sua condição. Evite esportes em alturas ou com risco de trauma craniano.

Perguntas Frequentes sobre Convulsões

Reunimos abaixo as dúvidas mais comuns que pacientes e seus familiares têm sobre convulsões e epilepsia.

O que devo fazer se alguém tiver uma convulsão na minha frente?

Mantenha a calma. Afaste objetos perigosos ao redor da pessoa. Proteja a cabeça dela com algo macio. NÃO tente imobilizar os braços ou pernas, NÃO coloque nada na boca (risco de lesão e asfixia). Deite a pessoa de lado (posição lateral de segurança) após os abalos cessarem. Cronometre a duração da crise e fique com a pessoa até que ela se recupere completamente.

Uma convulsão pode matar?

A maioria das convulsões isoladas e breves não é fatal. O maior risco está no status epilepticus (crise prolongada) e em acidentes secundários à crise (trauma, afogamento). A SUDEP (Morte Súbita Inesperada na Epilepsia) é um evento raro, mas real, cujo risco é maior em casos de crises generalizadas não controladas. O tratamento adequado reduz drasticamente todos esses riscos.

Convulsão febril em criança deixa sequelas?

As convulsões febris simples (breves, generalizadas, que ocorrem uma vez no mesmo episódio febril) são geralmente benignas e não causam dano cerebral, epilepsia ou déficit intelectual. Crianças com convulsões febris complexas (duração maior, focais ou recorrentes no mesmo dia) têm um risco ligeiramente aumentado de desenvolver epilepsia no futuro, mas ainda assim, a maioria não desenvolve.

Posso tomar cerveja ou vinho se tenho epilepsia controlada?

O consumo de álcool é geralmente desencorajado. Ele pode interagir com os medicamentos (potencializando efeitos sedativos), alterar o metabolismo da droga, perturbar o sono e, principalmente, o estado de abstinência após a ingestão excessiva é um potente gatilho para crises. Se houver consumo, deve ser extremamente moderado e sempre discutido com o neurologista.

Quanto tempo leva para fazer efeito um remédio para epilepsia?

Os medicamentos antiepilépticos não fazem efeito imediato. É necessário que atinjam um nível sanguíneo estável. Isso geralmente leva de 5 a 7 dias após o início ou após cada ajuste de dose. A dose inicial é normalmente baixa e aumentada gradualmente (“titulação”) para melhorar a tolerabilidade e minimizar efeitos colaterais.

A epilepsia tem cura?

Para a maioria dos casos de epilepsia, o objetivo é o controle completo das crises com medicação. Em alguns tipos específicos (principalmente em crianças) a epilepsia pode entrar em “remissão” e a medicação pode ser retirada após anos sem crises. Outros casos podem ser refratários, exigindo múltiplas medicações ou terapias alternativas. A “cura” espontânea é possível, mas não é a regra.

Mulheres com epilepsia podem engravidar?

Sim, a maioria das mulheres com epilepsia pode ter uma gravidez saudável. É fundamental um planejamento pré-concepcional com o neurologista para ajustar a medicação para drogas mais seguras (como a lamotrigina ou levetiracetam), otimizar a dose mínima eficaz e iniciar suplementação de ácido fólico em alta dose. O controle das crises durante a gravidez é a prioridade.

Esquecer uma dose do remédio pode causar crise?

Sim, especialmente se for uma dose única diária de um medicamento de vida curta. O nível sanguíneo da droga cai rapidamente, criando uma janela de vulnerabilidade. Se você esquecer, tome assim que lembrar, a menos que esteja muito próximo do horário da próxima dose (não tome dose dupla). Converse com seu médico sobre estratégias para melhorar a adesão.

Exercícios físicos podem piorar as convulsões?

Pelo contrário. A atividade física regular é geralmente benéfica, pois ajuda a regular o sono, reduzir o estresse e melhorar o bem-estar geral, fatores que contribuem para o controle. O risco de uma crise *durante* o exercício é baixo para a maioria. É importante manter uma boa hidratação, evitar overtraining (fadiga extrema) e escolher atividades seguras (evitar escalada livre, por exemplo).

É normal sentir muito cansaço depois de uma convulsão?

Sim, é extremamente comum. Esse período é chamado de fase pós-ictal. O cérebro acaba de passar por uma intensa atividade e precisa se recuperar. A pessoa pode ficar confusa, sonolenta, com dor de cabeça e fadiga profunda por minutos ou mesmo horas. É um período que requer repouso e observação.

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Na Clínica Dr. Hong Jin Pai, nossa equipe de neurologistas especialistas está à disposição para oferecer uma avaliação detalhada e um plano de tratamento personalizado e moderno, focando no controle das crises e na sua qualidade de vida.

Localização: Al. Jau 687 – São Paulo – SP
Tratamentos não cirúrgicos que oferecemos: Acompanhamento e ajuste medicamentoso especializado, orientação sobre dieta e estilo de vida, e suporte multidisciplinar para o manejo integral da condição.

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📓 Diário de Crises e Possíveis Gatilhos

Registrar detalhes após um episódio é uma das ferramentas mais valiosas para você e seu neurologista. Os dados são salvos apenas no seu navegador.

Data/Hora Tipo (descrição) Duração Gatilho Suspeito Medicação? Ações

💡 Dica para o médico: Padrões de horário, associação com privação de sono, estresse, ciclo menstrual ou esquecimento de medicação são informações cruciais para otimizar seu tratamento.

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Responda rapidamente às situações para ver a conduta correta. Este guia não substitui treinamento formal.

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Veja como esquecimentos frequentes podem impactar o nível do medicamento no seu corpo ao longo dos dias. Simulação educacional baseada em conceitos farmacológicos.

Nível do Medicamento no Organismo (Simulado)

Nível Alvo (Zona Terapêutica)
Com aderência perfeita, o nível se mantém estável dentro da zona terapêutica.

📈 Conclusão: A aderência consistente mantém um nível sanguíneo estável, essencial para prevenir crises. Esquecimentos criam “vales” onde o nível cai abaixo do eficaz, abrindo janelas para crises de ruptura (breakthrough). Use alarmes e organizadores de comprimidos.

Mito vs Realidade

Nem toda convulsão é igual.

Quando pensamos em convulsão, imaginamos alguém caindo e se debatendo. Mas os sintomas variam drasticamente dependendo de onde a descarga elétrica ocorre no cérebro. Pode ser um evento dramático ou apenas um “apagão” de segundos.

Crise Generalizada (Tônico-Clônica)

O tipo mais conhecido

Envolve perda total de consciência e atividade motora intensa.

  • 🔴 Perda de Consciência: Queda súbita.
  • 🪵 Fase Tônica: Rigidez extrema dos músculos.
  • 〰️ Fase Clônica: Abalos e espasmos rítmicos.
  • 🦷 Sinais Físicos: Trincar os dentes, salivação excessiva.
  • 🚽 Perda de Controle: Relaxamento de esfíncter (urina).
😶‍🌫️ Sintomas Sutis

Crise de Ausência e Focal

Muitas vezes confundidas com distração. O paciente pode apenas ficar com o “olhar vago” (fixo no nada) por alguns segundos, ou realizar movimentos repetitivos automáticos (estalar lábios, mexer nas roupas) sem responder ao chamado.

🔮 O Aviso Prévio

Aura Epiléptica

Alguns pacientes sentem a crise chegando segundos antes. Os sintomas incluem: cheiros estranhos inexistentes, medo súbito sem motivo, sensação de déjà vu intenso ou um “frio na barriga” que sobe para o peito.

O Pós-Crise

Estado Pós-Ictal

Após a convulsão, o cérebro está exausto. É normal o paciente apresentar confusão mental, sonolência profunda, dor de cabeça e dores musculares. A recuperação total da consciência pode levar de minutos a horas.

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Médico especialista em Dor e Fisiatria pela USP. Área de Atuação em Dor pela Associação Médica Brasileira. Doutorado em Ciências pela Universidade de São Paulo. Professor e Colaborador do Grupo de Dor do Hospital das Clínicas da USP.