A fisgada que aparece embaixo das costelas durante a corrida tem nome: pontada lateral, também chamada de dor abdominal transitória relacionada ao exercício. É comum, costuma passar em poucos minutos quando você reduz o ritmo e, na maior parte das vezes, não aponta doença. O que define se há algo a investigar é o tipo de dor e o contexto. Fisgada localizada na lateral, que surge no esforço e some em minutos, segue um padrão benigno. Aperto ou peso no peito ou na boca do estômago que volta a cada esforço precisa de avaliação médica antes do próximo treino, mesmo que passe ao parar, porque esse é o padrão da angina. Dor com você parado, que dura horas ou vem com febre, pede atendimento no mesmo dia. Com falta de ar, suor frio ou desmaio, ligue 192.
A pontada lateral
Você sente um aperto, uma pontada fina ou uma fisgada na borda inferior da caixa torácica, no ponto onde as costelas terminam. O lado direito aparece mais vezes que o esquerdo. Às vezes a dor é acompanhada por um incômodo no topo do ombro, um ponto que parece distante do problema.
Não é preciso estar em má forma física para sentir. Cerca de 70% dos corredores relatam pelo menos um episódio em um ano (Healthline). A pontada também surge na natação, no ciclismo, no basquete, na equitação e até ao subir uma escada longa. Entre atletas, a queixa é mais frequente na natação (75%), na corrida (69%) e na equitação (62%) (Cleveland Clinic).
Causas e mecanismos
A causa exata continua em aberto, e nenhuma explicação isolada cobre todos os casos. A região reúne estruturas sensíveis: o diafragma, o músculo largo que separa o tórax do abdome e participa da respiração, a membrana que reveste a cavidade abdominal e as costelas, que se movem a cada passada.
Teorias sobre a fisgada
São hipóteses, e nenhuma foi comprovada nem explica todos os casos
Quando o esforço excede a capacidade de trabalho do diafragma naquele condicionamento, surgem contrações dolorosas
Durante a digestão, parte do fluxo sanguíneo é desviada para o abdome, e o sangue que chega ao diafragma diminui no exercício, o que favorece a cãibra
As forças de impacto das passadas tracionam as ligações entre órgãos e diafragma
O atrito da membrana que reveste o abdome irrita o nervo frênico, o que poderia explicar a dor no ombro
Alguns fatores parecem aumentar a chance de a fisgada surgir, embora a maior parte venha de relatos e não de estudos controlados. Comer menos de 2 horas antes do treino é um deles. Refeições grandes e bebidas muito açucaradas pouco antes do exercício aumentam a chance (WebMD). Respiração curta e alta, musculatura abdominal fraca e aumento rápido de distância ou velocidade também favorecem a fisgada (Healthline).
Duração do episódio
Reduzir o ritmo costuma resolver em poucos minutos. Uma fisgada forte pode deixar a região sensível por alguns dias, sensação parecida com a de fadiga muscular local (WebMD). Dor que segue forte com você parado não é resto de pontada e pede avaliação. Ajustar o treino e o aquecimento pode reduzir a frequência dos episódios, embora faltem estudos que comprovem.
Evolução da fisgada
Fisgada localizada na lateral, que faz você diminuir o passo
Ao reduzir o ritmo e respirar fundo, a dor diminui e você retoma
Pode restar sensibilidade local que melhora sozinha
Surge em treinos parecidos enquanto alimentação, aquecimento e ritmo seguem iguais
Outras origens da dor
A pontada típica é uma fisgada localizada na lateral, que surge com o esforço, melhora ao desacelerar e desaparece em minutos. Só esse comportamento não afasta o coração, porque a angina também surge no esforço e alivia ao parar. Nela a dor é aperto, peso ou queimação no centro do peito ou na boca do estômago. Quando a dor tem outro tipo ou outro comportamento, outras estruturas entram na lista. A parede do tórax, a pleura, o estômago, a vesícula e o coração podem gerar dor na mesma região. A dor embaixo da costela direita e a dor que irradia para a frente têm causas próprias e pedem avaliação específica.
Condições parecidas com a pontada
| Condição | Pistas | Como se confirma |
|---|---|---|
| Dor da parede costal | Piora ao apertar o ponto e ao respirar fundo | Exame físico e teste de pressão local |
| Refluxo e hérnia de hiato | Queimação que sobe, pior deitado e após comer | Avaliação clínica e endoscopia quando indicada |
| Pedra na vesícula | Dor forte no lado direito após refeição gordurosa | Ultrassom de abdome |
| Endometriose diafragmática | Dor no alto do abdome ligada ao ciclo menstrual | Avaliação ginecológica e imagem |
| Dor do coração | Aperto ou peso no centro do peito ou na boca do estômago, que pode surgir no esforço e aliviar ao parar, às vezes com falta de ar e suor frio | Eletrocardiograma e avaliação médica, de urgência se a dor não passa |
| Pulmão e pleura | Dor ao respirar fundo com falta de ar de início súbito | Avaliação de urgência com imagem do tórax |
| Lesão do baço | Dor embaixo da costela esquerda após queda ou pancada, ou depois de mononucleose recente | Avaliação de urgência com exame de imagem |
Cuidados no treino e no repouso
O que fazer durante e depois do treino
Para quem tem episódios repetidos, vale testar medidas de prevenção, que vêm mais da experiência prática do que de estudos. Deixar pelo menos 2 horas entre a última refeição e o treino, evitar bebidas com muito açúcar antes e durante, aquecer de 5 a 10 minutos com movimentos que giram o tronco e alongam as laterais, beber água ao longo do dia e aumentar a carga aos poucos são medidas simples (Cleveland Clinic, WebMD).
Não existe remédio que previna a fisgada. Analgésicos simples podem aliviar a sensibilidade que sobra nos dias seguintes, mas devem ser usados com orientação, sobretudo por quem tem doença no fígado ou nos rins. Anti-inflamatórios não devem ser usados por conta própria para treinar com dor. O uso aumenta o risco de lesão no estômago e nos rins, risco maior com desidratação em treinos longos, e amplia a chance de sangramento em quem usa anticoagulante.
Exames conforme a suspeita
Na pontada típica, nenhum exame é necessário. O diagnóstico sai da conversa e do exame físico, e a própria pontada isolada não pede atendimento médico (Medical News Today). Exames entram quando a dor não obedece ao padrão, quando há febre, perda de peso, dor noturna ou sinais em outros órgãos.
Exames conforme a pergunta clínica
| Exame | O que mostra | Limite |
|---|---|---|
| Radiografia de tórax | Fraturas de costela e alterações do pulmão | Não mostra lesão muscular e pode não ver fraturas pequenas ou por estresse |
| Ultrassom de abdome | Pedras na vesícula, cistos e alterações do fígado | Depende do jejum e do examinador |
| Eletrocardiograma | Alterações do ritmo e sinais de sofrimento do coração | Feito em repouso pode vir normal, e a dor ligada ao esforço pode exigir teste ergométrico |
| Ressonância ou tomografia | Alterações ósseas, do diafragma e de órgãos do tórax | Reservadas para casos selecionados |
Tratamento por etapas
Na consulta, examino o abdome, o tórax, a respiração e a postura, para confirmar que se trata da pontada e afastar outras causas.
Para quem tem pontadas frequentes, um fisioterapeuta pode avaliar postura, respiração e técnica de corrida, e fortalecer a musculatura do abdome pode ajudar. As pesquisas sobre essas medidas ainda são poucas, e não existe um programa com resultado comprovado.
Quando a dor se origina na parede do tórax, com um ponto sensível que dói ao apertar, o tratamento depende do diagnóstico feito em consulta e costuma começar por ajuste de carga e reabilitação.
Em quadros de dor muscular persistente, o tratamento da dor miofascial tem foco parecido em carga e função.
Sinais de alerta
Dor embaixo da costela com sinais de alarme
- Dor que continua com você parado e não melhora no repouso
- Dor que dura várias horas depois de encerrar o exercício
- Dor que começou depois de queda ou pancada no tronco, sobretudo do lado esquerdo ou com dor no ombro
- Barriga muito dolorida ao toque
- Dor forte com febre ou inchaço na lateral da barriga
- Aperto ou peso no peito ou na boca do estômago, dor que se espalha para o braço, o pescoço ou a mandíbula, falta de ar ou suor frio, pare e ligue 192
- Dor forte ao respirar fundo com falta de ar que apareceu de repente
- Palidez, desmaio, tontura forte ou coração disparado ou irregular, fora de proporção com o esforço
Diante de qualquer um desses sinais, procure um pronto-socorro. Fora dessas situações, a fisgada lateral que só aparece na corrida pode ser avaliada em consulta, com ajuste de treino. Aperto ou peso no peito ou na boca do estômago que se repete a cada esforço pede avaliação médica antes do próximo treino, mesmo que passe ao parar.
Perguntas frequentes
A pontada lateral faz mal ao coração? Não. A pontada não vem do coração nem faz mal a ele. As hipóteses mais aceitas envolvem o diafragma e a membrana que reveste o abdome. O cuidado é não chamar de pontada uma dor do coração: aperto ou peso no peito ou na boca do estômago que surge a cada esforço e alivia ao parar precisa de avaliação médica antes do próximo treino, sobretudo em pessoas de meia-idade ou mais velhas e em quem tem pressão alta, diabetes, colesterol alto, tabagismo ou doença do coração na família.
Devo parar o treino quando a fisgada aparece? Você pode reduzir o ritmo e respirar fundo, o que costuma resolver em poucos minutos. Se a dor insistir ou voltar assim que você acelera, encerre a sessão. Se ela não passar em alguns minutos com você parado, procure atendimento.
Beber água ajuda a evitar a pontada? Manter-se hidratado ao longo do dia ajuda, mas beber grande volume pouco antes do treino aumenta a chance de a fisgada surgir. O ajuste é beber ao longo das horas e diminuir o volume perto da corrida.
Quem tem a pontada com frequência deve fazer algum exame? Na maioria das vezes, não. Levar o padrão para a consulta é o passo mais útil, e exames ficam reservados para quando há sinais fora do comum.
Musculação e corrida pioram a dor? Musculação não piora a pontada. Fortalecer o abdômen pode reduzir os episódios, embora os estudos sejam pequenos. O que pesa é aumentar distância ou velocidade de uma vez, sem dar tempo de adaptação ao organismo.
Preciso de remédio para a pontada? Não existem remédios que impeçam a fisgada. Analgésicos simples podem aliviar a sensibilidade dos dias seguintes, com orientação de um profissional de saúde, sobretudo para quem tem doença no fígado ou nos rins. Se você precisa de remédio por vários dias, passe em consulta.