A dor no ombro é a terceira queixa musculoesquelética mais comum nos consultórios médicos, perdendo apenas para as dores lombares e cervicais. Diferente do joelho, que suporta o peso do corpo, o ombro é uma articulação de extrema mobilidade e amplitude, dependendo fundamentalmente de um equilíbrio delicado entre ossos, tendões e lubrificação para funcionar. Quando esse equilíbrio é rompido pela artrose (desgaste) ou por lesões de tendões (manguito rotador), a qualidade de vida do paciente despenca, afetando desde o sono até tarefas simples como pentear o cabelo.
Historicamente, o tratamento para essas condições limitava-se ao uso crônico de anti-inflamatórios orais, injeções agressivas de corticoides ou cirurgias complexas de prótese. No entanto, a Viscossuplementação do Ombro — a infiltração de ácido hialurônico — emergiu como uma ferramenta terapêutica padrão-ouro na medicina intervencionista da dor, preenchendo a lacuna entre o tratamento conservador básico e a mesa de cirurgia.
Este procedimento não visa apenas “mascarar” a dor. Ele atua na restauração da homeostase (equilíbrio) do ambiente intra-articular. Ao injetar ácido hialurônico exógeno, o médico fisiatra ou especialista em dor busca mimetizar o líquido sinovial de um ombro jovem, promovendo lubrificação mecânica, analgesia química e proteção biológica das estruturas remanescentes.
Viscoindução
Estimula as células do próprio paciente (sinoviócitos) a voltarem a produzir ácido hialurônico natural de melhor qualidade.
Analgesia
Bloqueia receptores de dor na membrana sinovial e reduz a concentração de mediadores inflamatórios (citocinas).
Lubrificação
Restaura o coeficiente de atrito ideal, permitindo que a cabeça do úmero deslize suavemente na glenoide.
Condroproteção
Forma uma barreira física e química que retarda a degradação da cartilagem hialina restante.
Anatomia do Desgaste: O Que Acontece no Ombro?
Para entender a eficácia da infiltração, é preciso compreender a anatomia. A articulação do ombro (glenoumeral) é composta pela “cabeça” do úmero (bola) e a glenoide (uma cavidade rasa na escápula). Ambas as superfícies são revestidas por cartilagem lisa e banhadas por líquido sinovial.
Com o envelhecimento ou após traumas, ocorrem duas alterações principais:
- Alteração Mecânica: A cartilagem afina e se torna rugosa. O espaço entre os ossos diminui.
- Alteração Bioquímica: O líquido sinovial, que deveria ser viscoso e elástico (como uma clara de ovo), torna-se aquoso e inflamatório. As moléculas de ácido hialurônico natural se quebram, perdendo a capacidade de absorver impacto.
Na ausência dessa proteção, o movimento gera atrito direto, microfragmentação da cartilagem e uma cascata inflamatória crônica (sinovite), resultando em dor constante, mesmo em repouso, e rigidez progressiva.
Indicações Clínicas Específicas
A viscossuplementação no ombro tem indicações precisas. Não é um tratamento para “qualquer dor”, mas sim para condições onde a biomecânica articular está comprometida. As evidências científicas atuais suportam seu uso principalmente em três cenários:
1. Omartrose (Artrose Glenoumeral)
A osteoartrite do ombro é a indicação clássica. Pacientes com desgaste da cartilagem articular, que apresentam dor ao movimentar o braço e limitações funcionais, são os principais beneficiados. A infiltração é particularmente útil para:
- Pacientes em estágios leves a moderados (preservação articular).
- Pacientes idosos ou com comorbidades (cardíacas, renais) que contraindicam cirurgias de prótese total de ombro.
- Pacientes que desejam adiar a cirurgia por motivos pessoais ou profissionais.
2. Lesão Massiva Irreparável do Manguito Rotador
Quando os tendões do ombro rompem e não podem ser costurados (lesões antigas ou extensas), a cabeça do úmero perde sua estabilidade e sobe, raspando no osso acromial. Isso gera a “Artropatia do Manguito”. Nestes casos, o ácido hialurônico ajuda a lubrificar essa nova interface de atrito, reduzindo a dor e melhorando a função residual, mesmo sem consertar o tendão.
3. Capsulite Adesiva (Ombro Congelado)
Na fase de rigidez do ombro congelado, a articulação está fibrosada e seca. A injeção de volume (distensão) com ácido hialurônico, muitas vezes associada a corticoides na fase inicial, ajuda a expandir a cápsula articular e facilitar o trabalho de ganho de amplitude de movimento na reabilitação.
| Diagnóstico Clínico | Objetivo da Infiltração | Perfil do Paciente Ideal |
|---|---|---|
| Omartrose Leve/Moderada | Condroproteção e analgesia duradoura. | Ativos, com dor mecânica, sem indicação cirúrgica imediata. |
| Omartrose Severa (Osso com Osso) | Alívio sintomático temporário (“Paliativo”). | Idosos, alto risco cirúrgico ou recusa de prótese. |
| Lesão de Manguito (Sem artrose) | Melhora do deslizamento tendíneo e redução da inflamação. | Dor noturna, falha de tratamento conservador com fisioterapia. |
| Pós-Operatório (Artroscopia) | Restaurar homeostase após “lavagem” cirúrgica. | Atletas ou pacientes que desejam retorno rápido ao esporte. |
A Revolução da Guiagem por Ultrassom
O ombro é uma articulação profunda, recoberta pelo músculo deltoide e camadas de gordura. Realizar uma infiltração “às cegas” (baseando-se apenas em marcos anatômicos externos e toque) apresenta uma taxa de erro significativa. Estudos anatômicos demonstram que, sem imagem, até 40% das injeções que deveriam ser intra-articulares acabam sendo aplicadas no músculo ou na gordura, onde o ácido hialurônico não tem efeito algum.
Na medicina moderna da dor, o uso do ultrassom no local de atendimento (POCUS) é mandatório para a viscossuplementação do ombro. Ele permite:
- Visualização em Tempo Real: O médico vê a agulha penetrando a cápsula articular.
- Diagnóstico Dinâmico: Antes de injetar, o médico pode aspirar qualquer derrame articular (líquido inflamatório) existente.
- Segurança: Evita-se a punção acidental de vasos sanguíneos (como a artéria circunflexa) e nervos (como o nervo axilar).
A via de acesso mais comum e segura é a via posterior, onde a agulha entra pelas costas do ombro, permitindo um acesso direto à “junta” longe dos grandes nervos e vasos que passam na frente.
Precisão é Eficácia
Dados clínicos comparativos mostram que a infiltração guiada por ultrassom oferece resultados de alívio da dor 45% superiores e maior duração do efeito terapêutico quando comparada à técnica “cega”. Certifique-se de que seu médico utiliza ultrassonografia durante o procedimento.
A Ciência dos Produtos: Qual Ácido Hialurônico Usar?
Não existe um único “ácido hialurônico”. Existem diversas formulações médicas com propriedades reológicas (físicas) distintas. A escolha do produto correto é uma decisão técnica do médico fisiatra, baseada no volume da articulação do ombro e no objetivo do tratamento.
Alto Peso vs. Baixo Peso Molecular
O peso molecular é medido em Daltons. O líquido sinovial saudável tem alto peso molecular (é denso e elástico).
- Baixo/Médio Peso Molecular: Tende a ter um efeito biológico e anti-inflamatório mais rápido, interagindo melhor com os receptores celulares da dor.
- Alto Peso Molecular e Reticulados (Cross-linked): São géis mais densos. Permanecem mais tempo dentro da articulação antes de serem reabsorvidos (maior “tempo de residência”). Oferecem melhor efeito mecânico de amortecimento e lubrificação a longo prazo.
Para o ombro, frequentemente opta-se por regimes de dose única com produtos de alta concentração e tecnologia de reticulação, ou regimes de 3 aplicações semanais com produtos de peso molecular médio, dependendo da resposta inflamatória do paciente.
A Lógica da Reposição
Fino, aquoso, cheio de enzimas que destroem a cartilagem. Baixa proteção.
Gel denso, viscoelástico, rico em ácido hialurônico. Restaura o amortecimento.
O Procedimento na Prática
Para o paciente, o procedimento é simples e rápido, realizado em ambiente ambulatorial (consultório preparado). Não é necessário jejum nem interrupção de medicações de uso contínuo (exceto anticoagulantes em casos específicos, sob orientação).
1. Preparo e Posicionamento
O paciente senta-se confortavelmente. A pele do ombro é limpa com solução estéril (clorexidina ou iodo) para criar um campo cirúrgico local.
2. Anestesia Local
Utiliza-se uma agulha fina (tipo insulina) para anestesiar a pele e o trajeto até a articulação. Isso torna a entrada da agulha de infiltração praticamente indolor.
3. Punção Guiada
O médico posiciona o ultrassom, identifica o espaço articular entre a cabeça do úmero e a glenoide, e introduz a agulha. O paciente pode sentir uma leve pressão.
4. Injeção do Viscossuplemento
Se houver líquido inflamatório, ele é retirado primeiro. Em seguida, o ácido hialurônico é injetado lentamente. O médico observa na tela o líquido preenchendo a articulação.
5. Finalização
A agulha é retirada e coloca-se um pequeno curativo (band-aid). O paciente é orientado a realizar movimentos passivos suaves para distribuir o gel.
Diferenças Cruciais: Corticoide vs. Ácido Hialurônico
É vital distinguir estas duas opções. O corticoide (infiltração tradicional) é um anti-inflamatório hormonal potente. Ele “seca” a inflamação rapidamente, mas é catabólico: seu uso repetido pode enfraquecer os tendões do manguito rotador (aumentando risco de ruptura) e danificar a cartilagem a longo prazo. É excelente para crises agudas insuportáveis, mas péssimo para manutenção.
O ácido hialurônico é anabólico e fisiológico. Ele não enfraquece tendões; pelo contrário, melhora o ambiente para que os tecidos sofram menos estresse. Por isso, é a escolha preferencial para tratamento de longo prazo e preservação articular.
| Parâmetro | Corticosteróide (Triancinolona/Betametasona) | Ácido Hialurônico (Viscossuplementação) |
|---|---|---|
| Risco para Tendões | Alto (risco de atrofia e ruptura se repetido). | Nulo/Protetor (melhora o deslizamento). |
| Efeito na Cartilagem | Pode acelerar a degradação (efeito condrotóxico). | Condroprotetor (retarda o desgaste). |
| Pacientes Diabéticos | Pode descontrolar a glicemia significativamente. | Seguro (não altera a glicemia). |
| Duração do Alívio | Curta (4 a 8 semanas média). | Longa (6 a 12 meses média). |
O Pós-Procedimento e a Reabilitação
A viscossuplementação não é mágica; ela é uma facilitadora da reabilitação. Ao reduzir a dor e melhorar a lubrificação, ela abre uma “janela de oportunidade” para que o paciente consiga realizar a fisioterapia de forma eficiente. Sem dor, é possível fortalecer os músculos do manguito rotador e escapulares, que são os verdadeiros estabilizadores do ombro.
Evite carregar peso, dirigir por longas distâncias ou dormir sobre o ombro infiltrado. Gelo local pode ser usado se houver desconforto.
Retorno às atividades cotidianas leves. Início de exercícios de mobilidade passiva (pendulares) para espalhar o produto.
Início ou intensificação da reabilitação motora. É o momento ideal para ganho de força e amplitude, aproveitando a lubrificação.
O pico de ação do ácido hialurônico no ombro ocorre geralmente entre a 3ª e a 5ª semana. Pacientes que esperam sair do consultório sem dor alguma podem se frustrar; é preciso explicar que o efeito biológico leva tempo para modular a inflamação crônica.
Segurança e Efeitos Adversos
O ácido hialurônico é uma molécula biocompatível, idêntica à produzida pelo corpo humano, o que torna as reações alérgicas extremamente raras (especialmente com os produtos modernos de origem biofermentada, que não usam crista de galo). Os riscos mais comuns são relacionados ao ato da injeção:
- Sinovite Reacional (Flare-up): Em cerca de 2% a 5% dos casos, o ombro pode ficar mais dolorido e inchado nas primeiras 24h-48h após a injeção. Isso é uma reação transitória do sistema imune ao gel. Trata-se com gelo e analgésicos simples.
- Hematoma: Pequeno roxo no local da picada.
- Infecção (Artrite Séptica): Risco raríssimo (1 em cada 10.000 a 50.000 procedimentos) quando seguidos os protocolos rigorosos de assepsia médica.
O Papel do Médico Fisiatra
A decisão pela viscossuplementação deve fazer parte de um plano terapêutico global. O médico fisiatra não apenas realiza a infiltração, mas diagnostica a causa biomecânica da dor (ex: escápula alada, discinese, fraqueza de manguito) e prescreve a reabilitação correta. O ácido hialurônico é a “peça chave” que viabiliza esse processo, permitindo que o paciente saia do ciclo vicioso de dor-imobilidade-atrofia.
Perguntas Frequentes: Viscossuplementação de Ombro
A infiltração de ácido hialurônico cura a artrose do ombro?
Não existe cura definitiva para a artrose (desgaste) além da troca da articulação por prótese. O ácido hialurônico gerencia a doença. Ele alivia a dor, melhora a função e pode retardar a progressão do desgaste, permitindo que o paciente viva bem por anos sem cirurgia.
Quantas injeções são necessárias?
Depende do produto e da gravidade. Existem protocolos de dose única (1 injeção de alta viscosidade) e protocolos fracionados de 3 injeções (uma por semana). Estudos mostram eficácia semelhante, sendo a dose única mais conveniente para o paciente.
O procedimento evita a cirurgia de manguito rotador?
Em lesões parciais ou pequenas, sim. Ao tirar a dor e melhorar a mecânica, o paciente consegue fazer fisioterapia e compensar a lesão sem operar. Em lesões completas e traumáticas em jovens, a cirurgia ainda pode ser a primeira opção. A avaliação individual é essencial.
Dói muito fazer a infiltração no ombro?
Com a técnica correta (via posterior), anestesia local e guiagem por ultrassom, o desconforto é mínimo. A maioria dos pacientes relata que é menos doloroso do que uma coleta de sangue ou vacina intramuscular, pois a agulha não entra no músculo, mas no espaço articular vazio.
Quanto tempo dura o efeito no ombro?
A duração média é de 6 a 12 meses. Alguns pacientes respondem muito bem e ficam mais de um ano sem dor; outros, com casos mais graves, podem precisar de reaplicação em 6 meses. Fatores como obesidade, uso excessivo do braço e gravidade da artrose influenciam a duração.
Pode aplicar nos dois ombros no mesmo dia?
Sim. A viscossuplementação tem ação local e não causa efeitos sistêmicos como sonolência ou alteração de pressão. Tratar ambos os ombros simultaneamente é comum para pacientes com artrose bilateral.
O plano de saúde cobre?
A cobertura é variável. A maioria dos planos cobre o procedimento de infiltração (honorários médicos e materiais básicos), mas a cobertura do medicamento (ampola de ácido hialurônico) varia conforme o contrato e o rol de procedimentos da ANS vigente. Verifique com sua operadora.
Posso fazer musculação depois?
Após o período inicial de repouso (3 a 7 dias), a musculação é não só permitida como encorajada, desde que adaptada. Fortalecer a musculatura protege a articulação. O médico orientará quais exercícios evitar (geralmente desenvolvimentos acima da cabeça e supinos pesados).
Existe contraindicação?
Sim. Não deve ser feito se houver infecção ativa na pele do ombro, infecção sistêmica (febre), ou alergia conhecida a componentes do produto (muito rara). O uso de anticoagulantes exige cautela e técnica compressiva pós-procedimento.
Serve para bursite?
Para bursites isoladas, o tratamento costuma ser fisioterapia ou infiltração de corticoide na bursa (espaço subacromial). O ácido hialurônico é focado principalmente na articulação glenoumeral (desgaste/artrose), embora estudos recentes mostrem benefícios também na bursa para melhorar o deslizamento.
Médico especialista em Dor e Fisiatria pela USP. Área de Atuação em Dor pela Associação Médica Brasileira. Doutorado em Ciências pela Universidade de São Paulo. Professor e Colaborador do Grupo de Dor do Hospital das Clínicas da USP.