Tratamento por Ondas de Choque para Epicondilite Lateral – São Paulo

novembro 18, 2025
escrito por: Dr. Marcus Yu Bin Pai

Médico Fisiatra e Especialista em Dor pela AMB. Doutorado em Ciências pela USP.

A Epicondilite Lateral, popularmente conhecida como “Cotovelo de Tenista”, é uma das causas mais frequentes de dor no braço, afetando não apenas atletas, mas principalmente trabalhadores que realizam movimentos repetitivos de punho e dedos (como digitar, usar ferramentas ou carregar peso). O que começa como um desconforto leve ao segurar uma xícara pode evoluir para uma dor incapacitante, onde o simples ato de girar uma maçaneta se torna impossível.

Por anos, o tratamento padrão envolveu repouso, uso excessivo de anti-inflamatórios e injeções de corticoide que, embora aliviem a dor momentaneamente, apresentam altas taxas de recidiva. A medicina regenerativa moderna oferece uma alternativa superior e não invasiva: a Terapia por Ondas de Choque Extracorpórea (TOC). Este tratamento ataca a raiz do problema biológico — a degeneração do tendão — e não apenas o sintoma da dor.

O médico fisiatra utiliza esta tecnologia para transformar um tecido tendíneo “morto” e fibroso em um tecido vivo e funcional novamente, estimulando a própria capacidade do corpo de se curar através de impulsos acústicos de alta energia.

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Neovascularização

Criação de novos vasos sanguíneos em um tendão que sofre de falta de irrigação (hipovascularização).

Analgesia Neural

Hiperestimulação das fibras nervosas, bloqueando a transmissão da dor e reduzindo a sensibilidade local.

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Reparo Tecidual

Estímulo à produção de colágeno e remoção de calcificações microscópicas na inserção do tendão.

Entendendo a Lesão: Não é apenas uma “Inflamação”

Embora o sufixo “ite” sugira inflamação, a epicondilite lateral crônica é, na verdade, uma tendinose ou angiofibroplasia. Isso significa que as fibras do tendão extensor radial curto do carpo (o músculo que levanta a mão) sofreram micro-rupturas repetitivas e cicatrizaram de forma desorganizada.

Em vez de fibras paralelas e fortes como um cabo de aço, o tendão doente se parece com uma corda velha e esgarçada. Anti-inflamatórios não funcionam bem nessa fase porque não há inflamação ativa para combater, mas sim um tecido degenerado que precisa ser “reiniciado”. As ondas de choque provocam um microtrauma controlado que “acorda” o sistema imunológico para reparar essa área específica.

Quem deve fazer este tratamento?

A Terapia por Ondas de Choque não é a primeira opção para uma dor que começou ontem. Ela é um tratamento de segunda linha, indicado quando o tratamento conservador básico falhou. O candidato ideal apresenta:

  • Dor na parte lateral (externa) do cotovelo por mais de 3 meses.
  • Dificuldade em realizar força de preensão (aperto de mão fraco).
  • Histórico de falha com fisioterapia convencional (apenas ultrassom e alongamentos).
  • Recidiva da dor após injeção de corticoide.
  • Desejo de evitar a cirurgia aberta de liberação do tendão.

Árvore de Decisão Terapêutica

Dor < 4 semanas: Repouso + Gelo + Órtese (Faixa)
Dor 1-3 meses: Fisioterapia Motora + Ajuste Ergonômico
Dor > 3 meses: Ondas de Choque (Padrão Ouro)
Dor > 12 meses: Avaliação para Cirurgia (Se falha de Choque)

Comparativo: Ondas de Choque vs. Infiltração de Corticoide

Uma dúvida comum no consultório é sobre qual procedimento escolher. A evidência científica atual favorece fortemente as ondas de choque para resultados a longo prazo.

Tabela 1: Comparação de Eficácia e Segurança
Característica Infiltração de Corticoide Ondas de Choque (TOC)
Efeito Imediato Excelente (alívio rápido da dor). Bom (efeito analgésico moderado).
Efeito a Longo Prazo (>6 meses) Ruim (alto risco da dor voltar pior). Excelente (regeneração do tecido).
Saúde do Tendão Degenerativo (enfraquece o colágeno). Regenerativo (fortalece o colágeno).
Invasividade Minimamente invasivo (agulha). Não invasivo (externo).

Como é a Sessão de Tratamento?

O tratamento é realizado no consultório médico, sem necessidade de preparos especiais. O médico utiliza um aparelho que gera ondas pneumáticas ou eletromagnéticas.

1. Localização (Biofeedback)

O médico palpa o epicôndilo lateral e usa o próprio aparelho para encontrar o “ponto de dor máxima”. É o paciente quem diz onde dói mais.

2. Aplicação do Gel

Um gel condutor é aplicado na pele para garantir que as ondas acústicas penetrem no tecido sem perda de energia.

3. Disparos Terapêuticos

São aplicados cerca de 2.000 impulsos. A sensação é de pressão profunda ou “pancadas”. O desconforto é necessário para eficácia.

Um ciclo completo geralmente consiste em 3 a 5 sessões, com intervalos semanais (7 dias). A consistência é fundamental, pois cada sessão constrói sobre o estímulo biológico da anterior.

O Que Esperar Pós-Procedimento?

É comum que a dor diminua imediatamente após a sessão devido ao efeito analgésico sobre os nervos (efeito de “atordoamento”). No entanto, algumas horas depois, pode haver um leve dolorimento local, sinal de que o processo inflamatório de cura foi ativado.

Checklist Pós-Sessão

✅ PERMITIDO
  • • Uso do braço para comer e higiene leve.
  • • Alongamentos suaves (se indolor).
  • • Digitação leve (com pausas).
  • • Compressas mornas (após 48h).
⛔ PROIBIDO
  • • Gelo (vasoconstrição atrapalha a cura).
  • • Anti-inflamatórios (cortam o efeito).
  • • Carregar peso ou torcer panos.
  • • Jogar tênis ou beach tennis por 3-4 semanas.

Sintomas e Conduta Médica

Tabela 2: Avaliação de Gravidade
Sintoma Clínico O Que Significa? Conduta Sugerida
Dor apenas após esforço intenso Fase Inicial (Inflamatória) Fisioterapia e Repouso Relativo.
Dor ao segurar objetos leves (xícara) Fase Intermediária (Micro-rupturas) Avaliação para Ondas de Choque.
Dor em repouso e à noite Fase Avançada (Degeneração Severa) Ondas de Choque Imediatas + Repouso.
Perda de força e formigamento Possível Compressão Nervosa Investigar cervical e nervo radial.

Atenção: O Pescoço Pode Ser o Culpado

“Muitos casos de dor no cotovelo que não melhoram com tratamento local têm origem na coluna cervical (pescoço). Uma irritação nas raízes nervosas C5-C6 pode irradiar dor exatamente para o local da epicondilite. O médico fisiatra sempre avaliará seu pescoço antes de iniciar o tratamento do cotovelo para garantir o diagnóstico correto.”

Perguntas Frequentes: Ondas de Choque no Cotovelo

O tratamento dói muito?

A região do epicôndilo é sensível, pois o tendão está logo acima do osso. A aplicação gera um desconforto moderado, mas suportável. O médico ajusta a intensidade para que seja forte o suficiente para funcionar, mas tolerável para o paciente.

Quanto tempo demora para sarar?

Geralmente, os pacientes relatam alívio significativo da dor após a 3ª sessão. A cura completa do tecido (remodelação do colágeno) continua acontecendo por até 3 meses após o fim do tratamento. É um processo gradual.

Preciso parar de trabalhar?

Não é necessário afastamento total, mas adaptação. Se você trabalha digitando, precisará de pausas e ergonomia. Se trabalha com força bruta (martelo, chave de fenda), pode ser necessário um afastamento temporário ou troca de função durante as semanas de tratamento.

Posso fazer academia?

Treinos de membros inferiores (pernas) e abdômen estão liberados. Exercícios de braço que exigem “pegar” halteres ou barras devem ser suspensos ou adaptados nas primeiras semanas para não estressar a inserção do tendão.

Funciona para “cotovelo de golfista”?

Sim. A epicondilite medial (cotovelo de golfista) é a mesma patologia, mas no lado interno do cotovelo. A Terapia por Ondas de Choque é igualmente eficaz, exigindo apenas cuidado extra com o nervo ulnar que passa nessa região.

Qual a taxa de sucesso?

Estudos mostram taxas de sucesso entre 70% e 80% em casos crônicos que não responderam a outros tratamentos. Isso evita a cirurgia na grande maioria dos pacientes.

Existem contraindicações?

Sim. Gestantes, pessoas com distúrbios de coagulação graves, tumores ósseos no local ou infecções ativas na pele não devem realizar o procedimento.

Posso tomar remédio para dor?

Analgésicos simples (como Dipirona ou Paracetamol) são permitidos. Anti-inflamatórios (como Ibuprofeno, Diclofenaco) devem ser evitados, pois inibem a resposta inflamatória curativa que a onda de choque tenta criar.

Convênios cobrem o procedimento?

A Terapia por Ondas de Choque consta no rol da ANS (Agência Nacional de Saúde Suplementar) para algumas patologias musculoesqueléticas, mas as diretrizes de cobertura (DUT) variam. Consulte sua operadora e seu médico para verificar a elegibilidade.

O tratamento substitui a fisioterapia?

Eles são complementares. A onda de choque trata o tecido doente. A fisioterapia corrige o movimento errado, fortalece o músculo e previne que a dor volte. A combinação dos dois (especialmente com exercícios excêntricos) oferece o melhor resultado possível.

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Médico especialista em Dor e Fisiatria pela USP. Área de Atuação em Dor pela Associação Médica Brasileira. Doutorado em Ciências pela Universidade de São Paulo. Professor e Colaborador do Grupo de Dor do Hospital das Clínicas da USP.