O Que é a Tendinopatia Calcária?
A Tendinopatia Calcária (ou Tendinite Calcária) é uma condição ortopédica caracterizada pelo depósito de cristais de hidroxiapatita de cálcio dentro dos tendões. Embora possa ocorrer em qualquer tendão do corpo, ela tem uma predileção significativa pelo Manguito Rotador do ombro, afetando principalmente o tendão do músculo supraespinhal.
Diferente da calcificação distrófica (que ocorre em tecidos degenerados ou necrosados), a calcificação na tendinopatia calcária acontece em tecidos viáveis e passa por um ciclo evolutivo distinto, mediado por células. Não se trata de uma simples “calcificação por velhice” ou “bico de papagaio”. É um processo ativo, celular e autolimitado, que afeta predominantemente adultos entre 30 e 60 anos, sendo mais comum em mulheres.
A condição é famosa por causar uma dor aguda e incapacitante durante sua fase de reabsorção, muitas vezes descrita pelos pacientes como uma das piores dores que já sentiram no ombro, impedindo o sono e movimentos básicos do braço.
🔄 O Ciclo de Vida da Calcificação
A doença não é estática; ela evolui em três fases distintas:
Causas e Fatores de Risco
A etiologia exata permanece desconhecida, mas a teoria mais aceita sugere que a hipóxia local (baixa oxigenação) no tendão desencadeia a transformação das células tendíneas em condrócitos (células produtoras de cartilagem), que subsequentemente mediam a calcificação.
Quem está em risco?
Diferentemente das tendinites comuns, a tendinopatia calcária não está fortemente ligada ao uso excessivo ou trauma (embora o trauma possa exacerbar os sintomas). Fatores metabólicos e genéticos parecem ter maior peso.
Nuvem de Risco
Nota: A ingestão de cálcio na dieta não influencia o aparecimento desta doença.
Sintomas e Diagnóstico
Os sintomas variam drasticamente dependendo da fase da doença. Na fase formativa, o paciente pode sentir apenas um desconforto leve ao elevar o braço (“síndrome do impacto”). No entanto, na fase de reabsorção, ocorre uma crise hiperálgica.
O Quadro Agudo (Crise)
- Dor Noturna Intensa: O paciente não consegue dormir sobre o ombro afetado e a dor é constante, pulsátil.
- Limitação de Movimento: O braço fica “travado” pela dor; levantar o braço lateralmente ou para frente é quase impossível.
- Calor e Vermelhidão: Em casos raros, pode haver sinais inflamatórios visíveis na pele, simulando uma infecção.
| Fase Clínica | Sintomas Típicos | Aparência no Raio-X |
|---|---|---|
| Fase Formativa | Dor leve a moderada, piora com esforço. Sensação de “pinçamento”. | Depósito denso, bem definido, homogêneo. |
| Fase de Repouso | Pode ser indolor ou causar desconforto mecânico se o depósito for grande. | Calcificação bem delimitada, aspecto de “giz”. |
| Fase de Reabsorção | Dor Aguda Incapacitante. Início súbito, sem trauma. | Depósito “nublado”, bordas mal definidas, aspecto de “nuvem”. |
Diagnóstico por Imagem
O diagnóstico é confirmado facilmente com exames simples:
- Radiografia (Raio-X): É o melhor exame para ver o cálcio. Permite classificar a fase da doença (Gärtner) baseada na densidade do depósito.
- Ultrassonografia: Útil para guiar procedimentos (barbotagem) e avaliar se há bursite associada. Mostra a calcificação como uma imagem hiperecogênica com sombra acústica.
- Ressonância Magnética: Mostra o edema ósseo e a inflamação ao redor do tendão, mas às vezes pode “superestimar” a gravidade, confundindo o cálcio com uma ruptura do tendão se não for bem interpretada.
Tratamento Não Cirúrgico Detalhado
A história natural da tendinopatia calcária é a resolução espontânea. O corpo eventualmente reabsorve o cálcio e o tendão se cura. Portanto, o tratamento cirúrgico (artroscopia) é exceção, reservado para casos que falham ao tratamento conservador por mais de 6 meses. O foco inicial é o controle da dor e aceleração da reabsorção.
Escada de Tratamento Conservador
AINEs orais, repouso relativo, tipoia por 2-3 dias, gelo.
Manutenção da ADM (evitar ombro congelado), fortalecimento escapular.
Quebra mecânica do depósito e estímulo à reabsorção.
Aspiração percutânea guiada por ultrassom (Padrão Ouro não cirúrgico).
Terapias Específicas
1. Medicamentos
Anti-inflamatórios não esteroides (AINEs) como Naproxeno ou Ibuprofeno são a primeira linha. Em crises muito intensas, corticoides orais por curto período ou infiltração subacromial de corticoide podem ser usados para alívio imediato, embora o corticoide não cure a calcificação em si.
2. Terapia por Ondas de Choque (Shockwave)
Esta não é a “fisioterapia com choquinho” (TENS). É uma terapia de ondas acústicas de alta energia. O mecanismo envolve a fragmentação mecânica do depósito de cálcio e, mais importante, o aumento da vascularização local, o que traz macrófagos para “limpar” o cálcio. Taxas de sucesso variam entre 50-70%.
3. Barbotagem (Punção-Lavagem)
Considerado o tratamento minimamente invasivo mais eficaz. Sob anestesia local e guiado por ultrassom, o médico insere duas agulhas no depósito de cálcio e realiza uma lavagem com soro fisiológico, aspirando o material pastoso e reduzindo a pressão interna. O alívio da dor costuma ser rápido e duradouro.
Durante a fase aguda de reabsorção (dor intensa), a fisioterapia agressiva com exercícios de fortalecimento deve ser evitada, pois pode piorar a dor. O foco nesta fase é apenas alívio da dor e movimentos pendulares suaves para não “congelar” o ombro.
Prognóstico e Prevenção
A tendinopatia calcária é uma doença autolimitada. Em um estudo de longo prazo, mais de 90% dos pacientes ficaram assintomáticos eventualmente, mesmo sem cirurgia. Após a reabsorção do cálcio, o tendão geralmente se remodela e recupera sua integridade estrutural.
A prevenção é difícil, pois a causa primária (metaplasia celular) não é totalmente controlável. No entanto, manter uma boa biomecânica do ombro, evitar o tabagismo e controlar doenças metabólicas (diabetes, tireoide) são medidas recomendadas para a saúde geral dos tendões.
| Sinal / Sintoma | Possível Significado | Ação |
|---|---|---|
| Febre alta (>38°C) + Vermelhidão intensa no ombro. | Artrite Séptica (Infecção). | Emergência Médica. |
| Perda súbita de força (braço cai). | Ruptura aguda do manguito rotador. | Consulta com ortopedista breve. |
| Dor que não melhora com analgésicos fortes à noite. | Fase aguda de reabsorção (hipertensão intra-tendínea). | Pode necessitar de punção (barbotagem) para alívio. |
✅ Checklist Diário na Fase de Dor
- ✔ Gelo: 20 minutos a cada 4 horas na lateral do ombro.
- ✔ Travesseiros: Durma semi-sentado ou com um travesseiro debaixo da axila para evitar compressão.
- ✔ Movimento Pendular: Deixe o braço “morto” e balance suavemente para frente e trás (veja mini-app abaixo).
- ✔ Evitar: Não tente pentear o cabelo ou alcançar objetos no banco de trás do carro.
Perguntas Frequentes (FAQ)
O cálcio do ombro vem da alimentação?
Não. Não existe relação comprovada entre comer alimentos ricos em cálcio (ou tomar suplementos de cálcio para osteoporose) e o desenvolvimento de tendinopatia calcária. Cortar o cálcio da dieta não vai curar a doença e pode prejudicar seus ossos.
A calcificação some sozinha?
Sim, na grande maioria dos casos. O sistema imunológico reconhece o depósito como um corpo estranho e o reabsorve. Esse processo pode levar meses ou anos, e a fase final de reabsorção é justamente a mais dolorosa.
Posso fazer musculação com essa dor?
Na fase aguda de dor, não deve. Exercícios acima da cabeça (desenvolvimento, elevação lateral) comprimem o tendão e pioram a dor. O retorno deve ser gradual e focado em manguito rotador, apenas quando a dor estiver controlada.
Qual a diferença entre bursite e tendinite calcária?
A tendinite calcária é a presença do depósito de cálcio dentro do tendão. A bursite é a inflamação da bolsa que fica acima do tendão. Frequentemente, o depósito de cálcio é grande e irrita a bursa, causando uma “bursite secundária”.
O que é barbotagem?
É um procedimento médico onde agulhas são inseridas no depósito de cálcio para lavá-lo e aspirá-lo. É menos invasivo que a cirurgia, tem recuperação rápida e oferece alívio imediato da pressão dolorosa.
Gelo ou calor?
Gelo é preferível. Como há um processo inflamatório intenso e muitas vezes agudo, o gelo ajuda a reduzir o edema e a dor (efeito analgésico). O calor pode aumentar a inflamação local na fase aguda.
Se eu operar, o cálcio volta?
A recorrência no mesmo ombro após a remoção cirúrgica ou reabsorção completa é rara. No entanto, é possível desenvolver a condição no outro ombro, já que há uma predisposição sistêmica em alguns indivíduos.
🔍 Em qual fase estou?
Responda para entender se você está na fase de repouso ou na crise de reabsorção.
⏱️ Exercício Pendular (Codman)
Apoie o braço bom numa mesa, deixe o braço dolorido solto (“morto”) apontando pro chão. Balance com o corpo.
Faça movimentos circulares suaves. O braço não deve fazer força.
💡 Guia de Decisão Terapêutica
O que perguntar ao seu médico baseado no seu tempo de dor?
Médico especialista em Dor e Fisiatria pela USP. Área de Atuação em Dor pela Associação Médica Brasileira. Doutorado em Ciências pela Universidade de São Paulo. Professor e Colaborador do Grupo de Dor do Hospital das Clínicas da USP.