Osteófitos Marginais (Bico de Papagaio): Fisiopatologia, Sintomas e Abordagens Terapêuticas

novembro 24, 2025
escrito por: Dr. Marcus Yu Bin Pai

Médico Fisiatra e Especialista em Dor pela AMB. Doutorado em Ciências pela USP.

Os osteófitos marginais, popularmente conhecidos como “bicos de papagaio”, representam uma das manifestações radiológicas e clínicas mais prevalentes em adultos acima de 60 anos. Embora o termo possa gerar apreensão, trata-se, na maioria dos casos, de uma resposta biológica natural do esqueleto humano à instabilidade articular e ao envelhecimento.

Do ponto de vista médico, a osteofitose não é uma doença isolada, mas sim um sinal clínico de condições subjacentes, predominantemente a osteoartrite (artrose) e a espondilose. Compreender a biologia por trás dessas formações ósseas é o primeiro passo para o manejo eficaz da dor e a manutenção da funcionalidade.

Resumo Clínico: Osteófitos

  • ➤ Definição: Crescimentos ósseos reparativos nas margens das articulações.
  • ➤ Localização: Coluna vertebral (cervical e lombar), joelhos, quadris, mãos e ombros.
  • ➤ Mecanismo: Tentativa do corpo de aumentar a superfície de contato para estabilizar uma articulação desgastada.
  • ➤ Prognóstico: Geralmente benigno; o tratamento é focado apenas se houver compressão nervosa ou dor inflamatória.

Fisiopatologia: O Que São e Como se Formam

Tecnicamente, um osteófito é uma excrescência óssea fibrocartilaginosa que sofre ossificação endocondral. Eles se desenvolvem nas margens das articulações sinoviais ou nos locais de inserção de ligamentos e tendões (entesófitos). Ao contrário do que o senso comum sugere, o osteófito não cresce para “machucar” o paciente, mas sim como uma tentativa de estabilização biomecânica.

Quando a cartilagem articular se desgasta (processo de artrose) ou quando há degeneração do disco intervertebral, a articulação torna-se instável e hipermóvel. O corpo interpreta essa instabilidade como uma ameaça e ativa células construtoras de osso (osteoblastos) para criar osso novo nas bordas, ampliando a base de sustentação e limitando o movimento excessivo.

A Cascata de Formação do “Bico de Papagaio”

1
Estresse Inicial: Desgaste da cartilagem ou desidratação do disco intervertebral reduz o amortecimento.
2
Instabilidade Mecânica: Os ossos aproximam-se excessivamente, gerando micro-movimentos anormais e fricção.
3
Resposta Biológica: O periósteo (membrana do osso) é estimulado a produzir novo tecido ósseo nas bordas.
4
Consolidação: O osteófito se calcifica, formando a projeção visível no Raio-X (“bico”).

Diferenciação Anatômica

Na coluna vertebral, os osteófitos podem se apresentar de formas distintas. Os osteófitos de tração surgem horizontalmente devido à instabilidade, enquanto os osteófitos em garra podem acabar se fundindo com a vértebra adjacente, criando uma ponte óssea que, paradoxalmente, pode reduzir a dor ao eliminar o movimento de um segmento doloroso, embora cause rigidez permanente.

Etiologia: Causas e Fatores de Risco

A gênese dos osteófitos é multifatorial. Embora o envelhecimento seja o preditor mais forte — estima-se que mais de 80% dos homens e 70% das mulheres acima de 40 anos tenham algum grau de osteofitose radiológica — outros fatores aceleram esse processo degenerativo.

  • Osteoartrite (Artrose): A principal causa. A degradação da cartilagem altera a distribuição de carga na articulação.
  • Sobrecarga Mecânica Crônica: Atividades laborais que envolvem vibração, levantamento de peso repetitivo ou posturas estáticas prolongadas.
  • Trauma Prévio: Fraturas articulares ou lesões ligamentares antigas alteram a biomecânica, levando à formação tardia de osso (artrose pós-traumática).
  • Fatores Metabólicos: Obesidade não apenas sobrecarrega as articulações de carga (joelho, coluna lombar) mas o tecido adiposo secreta citocinas inflamatórias que agridem a cartilagem.
  • Genética: A predisposição à qualidade da cartilagem e ao formato ósseo é hereditária.
  • Doença Difusa Hiperostosante Idiopática Esquelética (DISH): Uma condição metabólica que causa calcificação excessiva de ligamentos e tendões, formando grandes pontes ósseas na coluna.

Quadro Clínico e Sintomatologia

É crucial enfatizar: ter um osteófito não significa ter dor. Muitos pacientes descobrem a condição incidentalmente em exames de rotina. A dor surge quando o crescimento ósseo interfere em estruturas sensíveis, gera inflamação local ou comprime tecidos nervosos.

Tabela 1: Correlação entre Localização e Sintomas Clínicos
Localização Sintomas Comuns Complicação Neurológica Possível
Coluna Cervical (Pescoço) Rigidez matinal, dor que irradia para ombros, cefaleia tensional. Radiculopatia (formigamento/choque nos braços) ou Mielopatia (compressão da medula).
Coluna Lombar Dor lombar mecânica (piora ao movimento), redução da flexibilidade. Estenose de canal (dor nas pernas ao caminhar – claudicação neurogênica).
Joelhos Crepitação (estalos), dor ao subir escadas, inchaço esporádico. Bloqueio articular (se um fragmento se soltar).
Quadris Dor na virilha, limitação para abrir as pernas ou calçar sapatos. Alteração significativa da marcha (mancar).

Sinais de Alerta (Red Flags)

Embora raros, alguns sintomas exigem avaliação médica imediata, pois indicam que os osteófitos podem estar causando compressão severa de estruturas nervosas vitais.

Procure atendimento médico urgente se apresentar:
  • Perda de força súbita nos braços ou pernas.
  • Incontinência urinária ou fecal (perda de controle).
  • Anestesia em sela (perda de sensibilidade na região genital/perineal).
  • Descoordenação motora para caminhar ou segurar objetos.

Diagnóstico e Avaliação Médica

O diagnóstico da osteofitose é eminentemente clínico e radiológico. Durante a consulta, o médico avaliará a amplitude de movimento, reflexos e força muscular.

Em termos de imagem, a Radiografia (Raio-X) simples é geralmente suficiente para visualizar os osteófitos. No entanto, para planejar o tratamento, especialmente se houver sintomas neurológicos, exames mais detalhados são solicitados:

  • Ressonância Magnética (RM): O padrão-ouro para visualizar tecidos moles. Permite ver se o osteófito está comprimindo a medula espinhal ou raízes nervosas e avaliar a hidratação dos discos.
  • Tomografia Computadorizada (TC): Útil para visualizar a arquitetura óssea com precisão, especialmente antes de procedimentos intervencionistas.
  • Eletroneuromiografia: Um exame funcional que testa a condução elétrica dos nervos para confirmar se a dor é realmente originada pela compressão causada pelo osteófito.

Tratamento Conservador e Manejo da Dor

A grande maioria dos pacientes com osteófitos marginais responde bem ao tratamento conservador (não cirúrgico). O objetivo médico não é “remover” o osteófito — o que exigiria cirurgia — mas sim controlar a inflamação, aliviar a dor e restaurar a função.

1. Abordagem Farmacológica

O uso de medicamentos deve ser sempre prescrito e monitorado por um médico para evitar efeitos colaterais renais ou gástricos. As classes mais utilizadas incluem:

Analgesia Simples

Paracetamol e Dipirona. Indicados para dor leve a moderada, com perfil de segurança alto para uso esporádico.

Anti-inflamatórios (AINEs)

Ibuprofeno, Naproxeno, Celecoxibe. Reduzem a inflamação aguda ao redor do osteófito. Uso restrito em idosos e hipertensos.

Relaxantes Musculares

Ciclobenzaprina, Tizanidina. Úteis quando o corpo gera contraturas musculares (espasmos) para proteger a área dolorida.

Moduladores de Dor

Gabapentina, Pregabalina, Duloxetina. Específicos para dor neuropática (formigamento/queimação) causada por compressão nervosa.

2. Procedimentos Minimamente Invasivos

Quando a medicação oral é insuficiente ou causa muitos efeitos colaterais, procedimentos de infiltração podem ser indicados:

  • Infiltrações com Corticosteroides: Injeção potente anti-inflamatória diretamente na articulação facetária ou no espaço epidural para reduzir o edema nervoso rapidamente.
  • Bloqueios de Ramos Mediais: Injeção diagnóstica e terapêutica para “desligar” a sensibilidade da articulação afetada pelo osteófito.
  • Radiofrequência (Rizotomia): Se o bloqueio for positivo, utiliza-se uma agulha especial que emite ondas de calor para cauterizar os pequenos nervos sensitivos da coluna, proporcionando alívio duradouro da dor (6 meses a 1 ano) sem cirurgia aberta.

3. Reabilitação Física e Medidas Não-Farmacológicas

A base do tratamento a longo prazo é a modificação mecânica. Terapias manuais, exercícios de fortalecimento do core (musculatura estabilizadora) e correção postural são essenciais para tirar a sobrecarga da coluna. A perda de peso é crítica; cada quilo perdido reduz significativamente a carga sobre os joelhos e a coluna lombar.

Tabela 2: Comparativo de Opções Terapêuticas
Modalidade Objetivo Principal Tempo de Resposta
Medicamentos Orais Alívio sintomático agudo e controle inflamatório. Rápido (horas a dias).
Reabilitação / Exercícios Estabilização biomecânica e prevenção de recidivas. Médio/Longo prazo (semanas a meses).
Infiltrações/Bloqueios Potente ação local para dores refratárias. Imediato (dias), com duração variável.
Cirurgia Descompressão neurológica em casos graves. Definitivo (mas com riscos associados).

Plano de Ação para o Paciente

Passos práticos para conviver bem com o diagnóstico:

  • Mantenha-se ativo: O repouso absoluto piora a rigidez. Movimento é lubrificação.
  • Ajuste a ergonomia: Verifique a altura do monitor e cadeira no trabalho.
  • Controle o peso: Reduza a carga mecânica sobre os osteófitos lombares e de joelho.
  • Evite automedicação: O uso crônico de anti-inflamatórios pode ser perigoso.

Perguntas Frequentes (FAQ)

O osteófito pode desaparecer sozinho?

Não. Uma vez formado e calcificado, o osteófito é osso permanente e não desaparece espontaneamente nem com medicamentos. O tratamento foca em eliminar a inflamação e a dor que ele causa, não o osso em si.

Osteófito marginal é a mesma coisa que hérnia de disco?

Não. A hérnia de disco envolve o extravasamento do material gelatinoso (núcleo pulposo) de dentro do disco, enquanto o osteófito é um crescimento de osso nas bordas da vértebra. Contudo, as duas condições frequentemente aparecem juntas devido ao desgaste da coluna.

A massagem ajuda a tratar o bico de papagaio?

A massagem não remove o bico de papagaio, mas é excelente para aliviar a tensão muscular secundária (contraturas) que se forma ao redor da área dolorida. Ela ajuda no alívio sintomático e na melhora da circulação local.

Qual o melhor exercício para quem tem osteófitos?

Exercícios de baixo impacto são ideais, como hidroginástica, natação, pilates e caminhadas em terreno plano. O fortalecimento da musculatura abdominal e paravertebral (Core) é fundamental para estabilizar a coluna e reduzir a dor.

Quando é indicado operar o bico de papagaio?

A cirurgia é reservada para a minoria dos casos, geralmente quando há compressão neurológica progressiva (perda de força, alteração de sensibilidade grave) ou falha completa do tratamento conservador após 3 a 6 meses.

O uso de colágeno ajuda?

A evidência científica sobre o colágeno hidrolisado ou tipo II é mista. Alguns estudos sugerem benefícios modestos na dor articular da osteoartrite, mas ele não tem capacidade de reverter a formação óssea do osteófito já existente.

Posso fazer quiropraxia se tiver osteófitos?

Depende da gravidade e localização. Manipulações de alta velocidade na coluna devem ser feitas com extrema cautela e apenas após avaliação de exames de imagem, pois osteófitos grandes podem fraturar ou lesionar artérias e nervos próximos durante a manobra.

O clima frio piora a dor dos osteófitos?

Sim, muitos pacientes relatam piora. Acredita-se que mudanças na pressão barométrica e a contração muscular involuntária causada pelo frio aumentem a rigidez articular e a percepção de dor.

O que é osteófito de tração?

É um tipo específico de osteófito que se forma a 2-3mm da borda do disco, crescendo horizontalmente. Ele indica uma instabilidade maior da coluna vertebral, sugerindo movimentos anormais de “balanço” entre as vértebras.

Existe alguma dieta para evitar osteófitos?

Nenhum alimento elimina osteófitos, mas uma dieta anti-inflamatória (rica em ômega-3, frutas, vegetais, cúrcuma) e a manutenção de um peso saudável ajudam a controlar a inflamação sistêmica e reduzem a progressão da artrose.

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Médico especialista em Dor e Fisiatria pela USP. Área de Atuação em Dor pela Associação Médica Brasileira. Doutorado em Ciências pela Universidade de São Paulo. Professor e Colaborador do Grupo de Dor do Hospital das Clínicas da USP.