Lesão do Nervo Torácico Longo

novembro 28, 2025
escrito por: Dr. Marcus Yu Bin Pai

Médico Fisiatra e Especialista em Dor pela AMB. Doutorado em Ciências pela USP.

O Que é a Lesão do Nervo Torácico Longo?

A lesão do Nervo Torácico Longo é uma condição neuromuscular que resulta na paralisia ou fraqueza do músculo serrátil anterior. Este nervo, que se origina das raízes cervicais C5, C6 e C7, percorre um trajeto longo e superficial na parede lateral do tórax, o que o torna particularmente vulnerável a traumas diretos, estiramentos e compressões.

A consequência clínica mais visível e clássica desta lesão é a Escápula Alada (Scapula Alata). Nesta condição, a borda medial da omoplata (escápula) se projeta para trás e para fora do tórax, assemelhando-se a uma asa de anjo, especialmente quando o paciente tenta levantar o braço ou empurrar uma parede. Além da deformidade estética, a lesão compromete gravemente a biomecânica do ombro, dificultando movimentos simples como pentear o cabelo ou pegar objetos em prateleiras altas.

📍 Anatomia e Função

Entenda por que este nervo é vital para o ombro:

Origem: Raízes nervosas cervicais C5, C6 e C7.
🎯
Alvo (Inervação): Músculo Serrátil Anterior (fixa a escápula nas costelas).
⚙️
Ação Principal: Permite a rotação superior da escápula (necessária para levantar o braço acima de 90°) e protração (movimento de soco).

Causas e Fatores de Risco

Devido à sua localização superficial e trajeto longo, o nervo torácico longo pode ser lesionado por diversos mecanismos. As causas são geralmente divididas em traumáticas, iatrogênicas (causadas por procedimentos médicos) e neurológicas.

Trauma Mecânico e Esportivo

Golpes diretos na região lateral do tórax ou na base do pescoço são causas frequentes em esportes de contato (futebol, rugby). Além disso, a “Paralisia da Mochila” ocorre quando o uso prolongado de mochilas pesadas comprime o nervo na região dos ombros.

Causas Cirúrgicas (Iatrogênicas)

Infelizmente, cirurgias na região torácica e axilar representam uma parcela significativa dos casos. Procedimentos como mastectomia com esvaziamento axilar (remoção de linfonodos), cirurgias cardíacas, toracotomias e até ressecção da primeira costela podem inadvertidamente lesionar o nervo.

Neurite do Plexo Braquial

A Síndrome de Parsonage-Turner (neurite braquial aguda) é uma condição inflamatória autoimune ou viral que causa dor intensa no ombro seguida de paralisia rápida. O nervo torácico longo é frequentemente acometido nesta síndrome.

Nuvem de Fatores de Risco

Esportes de Contato Mochilas Pesadas Cirurgia de Mama Movimentos Repetitivos Infecções Virais Carregar Peso no Ombro Esvaziamento Axilar

Sintomas e Diagnóstico Clínico

O início dos sintomas pode ser agudo (dor súbita) ou insidioso (fraqueza progressiva). A dor geralmente se localiza no ombro, pescoço ou parede lateral do tórax. Com o tempo, a dor diminui e a fraqueza/deformidade torna-se a queixa principal.

Tabela 1: Estágios e Sintomas da Lesão
Sintoma Principal Descrição Clínica Impacto Funcional
Escápula Alada Borda medial da escápula se solta do tórax. Visível ao empurrar uma parede ou levantar o braço.
Dor no Ombro Dor vaga, queimação ou peso. Pode irradiar para o pescoço. Dificulta o sono sobre o lado afetado.
Limitação de Movimento Incapacidade de elevar o braço acima de 90-100 graus. Dificuldade em atividades acima da cabeça (pentear, trocar lâmpada).
Fadiga Muscular Cansaço rápido do braço em atividades rotineiras. Sensação de peso morto no braço.

Exames Complementares

O exame físico com a manobra de “empurrar a parede” é muito sugestivo, mas a confirmação requer tecnologia:

  • Eletroneuromiografia (ENMG): É o padrão-ouro. Avalia a condução elétrica do nervo e a resposta muscular. Ajuda a definir se a lesão é completa (neurotmese) ou parcial (neuropraxia/axonotmese) e estima o prognóstico de recuperação.
  • Ressonância Magnética (RM): Útil para descartar outras causas de dor no ombro (como lesão do manguito rotador) e visualizar se há cistos ou tumores comprimindo o nervo.

Tratamento Não Cirúrgico: O Caminho da Recuperação

A boa notícia é que a maioria das lesões do nervo torácico longo se recupera espontaneamente com tratamento conservador, embora seja um processo lento que pode levar de 6 a 24 meses. A regeneração nervosa ocorre a uma taxa aproximada de 1 mm por dia.

Fase 1: Proteção (0-3 meses)

Objetivo: Evitar estiramento adicional do nervo. Repouso relativo. Evitar movimentos do braço acima da cabeça e carregar pesos. Uso de analgésicos e AINEs para dor.

Fase 2: Ativação (3-6 meses)

Objetivo: Manter amplitude de movimento (ADM). Início de exercícios passivos e assistidos para evitar o “ombro congelado”. Fortalecimento de músculos compensatórios (trapézio, romboides).

Fase 3: Fortalecimento (6-24 meses)

Objetivo: Reabilitação do serrátil anterior. Exercícios específicos (Serratus Punch, Wall Slides) conforme o nervo reinerva o músculo.

Fisioterapia Especializada

A fisioterapia é a pedra angular do tratamento. O foco inicial não é fortalecer o serrátil (pois o nervo não está funcionando), mas sim evitar a atrofia e manter a articulação móvel. Técnicas incluem:

  • Alongamento do Peitoral Menor: Músculos encurtados na frente do ombro podem piorar a escápula alada.
  • Eletroestimulação (FES): Pode ser usada para manter a contratilidade muscular e prevenir atrofia severa enquanto o nervo se recupera.
  • Biofeedback: Ajuda o paciente a entender quais músculos estão sendo ativados.
Dica de Especialista

Não tente “forçar” o fortalecimento do serrátil anterior na fase aguda. Tentar fazer flexões ou levantar pesos com o nervo paralisado pode causar lesões compensatórias no manguito rotador e atrasar a recuperação.

Prognóstico e Sinais de Alerta

A recuperação completa pode demorar até dois anos. Se após 12 a 24 meses de tratamento conservador bem executado não houver sinais de reinervação na eletroneuromiografia ou melhora clínica, a cirurgia (transferência tendinosa, geralmente usando o peitoral maior) pode ser considerada.

Tabela 2: Monitorando a Evolução
Sinais Positivos (Recuperação) Sinais de Alerta (Estagnação)
Diminuição da “asa” ao repouso. Dor noturna intensa e persistente após 3 meses.
Capacidade de elevar o braço um pouco mais alto a cada mês. Atrofia visível severa (músculo “sumindo”) no tórax.
Formigamento que se transforma em sensibilidade normal. Desenvolvimento de ombro congelado (rigidez total).

✅ Checklist de Proteção Diária

  • Evite esticar: Não leve o braço para trás do corpo (extensão excessiva).
  • Modifique o sono: Durma de barriga para cima ou sobre o lado não afetado com um travesseiro apoiando o braço lesionado.
  • Ergonomia: Mantenha o teclado e mouse próximos ao corpo para evitar alcançar longe.
  • Sem peso: Use carrinhos de compras em vez de cestas ou sacolas.

Perguntas Frequentes (FAQ)

Quanto tempo demora para a escápula alada sumir?

A recuperação é lenta. A maioria dos pacientes vê melhorias significativas entre 6 e 9 meses, mas a recuperação completa da força e estabilidade da escápula pode levar até 2 anos. A paciência é essencial.

Posso fazer musculação com lesão no nervo torácico longo?

Na fase inicial, não. Exercícios de carga podem sobrecarregar outros músculos do ombro e piorar a instabilidade. O retorno à musculação deve ser gradual, supervisionado por fisioterapeuta, focando primeiro em estabilidade escapular.

O uso de órtese (colete) ajuda?

Órteses escapulares podem ajudar a manter a escápula no lugar, reduzindo a dor e melhorando a função do braço temporariamente. Elas são úteis para prevenir o estiramento crônico dos músculos romboides e trapézio, mas não curam o nervo.

Qual a melhor posição para dormir?

Evite dormir sobre o ombro lesionado. A melhor posição é de barriga para cima (decúbito dorsal) ou sobre o lado saudável, abraçando um travesseiro para manter o ombro afetado em posição neutra.

Vitaminas do complexo B ajudam na recuperação?

Embora as vitaminas B (B1, B6, B12) sejam essenciais para a saúde nervosa, não há evidência robusta de que a suplementação acelere drasticamente a regeneração em pessoas sem deficiência vitamínica. Consulte seu médico antes de suplementar.

A massagem ajuda na escápula alada?

A massagem não repara o nervo, mas é excelente para aliviar a dor muscular compensatória no pescoço (trapézio) e nos romboides, que ficam sobrecarregados tentando estabilizar a escápula.

Sinto dor no pescoço, isso é normal?

Sim. Como o músculo serrátil anterior não está funcionando, outros músculos (como o elevador da escápula e trapézio superior) trabalham em dobro, gerando tensão e dor cervical secundária.

Quando a cirurgia é indicada?

A cirurgia (transferência do peitoral maior) é reservada para casos onde não houve recuperação após 18-24 meses de tratamento conservador, ou para pacientes com dor intratável e perda funcional severa que afeta a qualidade de vida.


🧪 Auto-Teste: Manobra de Empurrar a Parede

Este é o teste clínico padrão. Peça para alguém observar suas costas.

Passo 1: Fique de pé a cerca de 60cm de uma parede.
Passo 2: Coloque as palmas das mãos na parede na altura dos ombros.
Passo 3: Empurre a parede como se quisesse afastá-la (movimento de flexão de braço).

📅 Estimativa de Recuperação Nervosa

Nervos periféricos regeneram a aprox. 1mm por dia. O nervo torácico longo é… longo!

Estimativa baseada na distância da lesão (pescoço) até o músculo.

Tempo Médio Esperado:
6 a 12 Meses

Para retorno funcional significativo.

*Nota: Esta é uma estimativa biológica média. Fatores como idade, diabetes e tabagismo podem retardar o processo.

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Médico especialista em Dor e Fisiatria pela USP. Área de Atuação em Dor pela Associação Médica Brasileira. Doutorado em Ciências pela Universidade de São Paulo. Professor e Colaborador do Grupo de Dor do Hospital das Clínicas da USP.