Hérnia de Disco Lombar L4-L5: Guia Completo de Sintomas e Tratamentos

novembro 25, 2025
escrito por: Dr. Marcus Yu Bin Pai

Médico Fisiatra e Especialista em Dor pela AMB. Doutorado em Ciências pela USP.

A coluna lombar é o pilar de sustentação do corpo humano, projetada para suportar cargas axiais e permitir a mobilidade do tronco. Dentro dessa estrutura, o segmento entre a quarta (L4) e a quinta (L5) vértebra lombar é, estatisticamente, um dos locais mais frequentes de lesões degenerativas e hérnias de disco.

Compreender a biomecânica desta região é fundamental: o segmento L4-L5 é responsável por grande parte da flexão e extensão das costas. Devido a essa alta demanda mecânica, o disco intervertebral localizado ali sofre um desgaste acelerado, tornando-se vulnerável a fissuras e extravasamentos do seu conteúdo interno.

Este artigo técnico, baseado em evidências atuais, detalha a fisiopatologia, os sintomas neurológicos específicos e as abordagens terapêuticas conservadoras mais eficazes para a recuperação da hérnia de disco L4-L5.

📊 Panorama Clínico L4-L5

Estudos epidemiológicos indicam que cerca de 90% das hérnias discais lombares ocorrem nos níveis L4-L5 ou L5-S1. A boa notícia é que a vasta maioria desses casos responde positivamente ao tratamento conservador (fisioterapia especializada) sem necessidade de intervenção cirúrgica, com reabsorção espontânea do material herniado em muitos pacientes.

Fisiopatologia: O Que Acontece no Segmento L4-L5?

Para entender a lesão, é preciso visualizar a anatomia. O disco intervertebral funciona como um amortecedor hidráulico. Ele possui um centro gelatinoso rico em água (núcleo pulposo) e uma capa externa resistente formada por anéis de colágeno (ânulo fibroso).

A hérnia de disco em L4-L5 ocorre quando a pressão intradiscal excessiva ou o desgaste natural provocam rupturas no ânulo fibroso. O material do núcleo, então, migra através dessas fissuras. Dependendo do grau de deslocamento, a hérnia pode apenas deformar o disco (protrusão) ou o material pode vazar completamente (extrusão), comprimindo as raízes nervosas que passam pelo canal vertebral.

Condições Associadas Comuns

  • Espondilolistese Degenerativa: Devido à instabilidade, a vértebra L4 pode escorregar para frente sobre a L5, estreitando o canal e pinçando nervos.
  • Estenose de Canal: O crescimento de osteófitos (bicos de papagaio) e o espessamento dos ligamentos reduzem o espaço disponível para a medula e nervos.
  • Síndrome Facetária: A sobrecarga no disco transfere peso para as articulações posteriores (facetas), causando inflamação e dor lombar localizada.

Sintomas Clínicos e Mapeamento da Dor

A sintomatologia da hérnia L4-L5 é clássica, mas varia dependendo de qual raiz nervosa está sendo comprimida. Geralmente, uma hérnia neste nível comprime a raiz nervosa de L5.

Compressão da Raiz L4

  • Dor: Parte anterior da coxa e desce pela parte interna da perna.
  • Sensibilidade: Dormência no lado interno da canela e tornozelo.
  • Fraqueza Motora: Dificuldade em esticar o joelho (quadríceps) ou levantar o pé.
  • Reflexo Afetado: Diminuição do reflexo patelar (joelho).

Compressão da Raiz L5 (Mais Comum)

  • Dor: Desce pela lateral da coxa, lateral da perna e dorso do pé.
  • Sensibilidade: Dormência no “peito do pé” e nos três primeiros dedos.
  • Fraqueza Motora: Dificuldade em levantar o dedão do pé (extensão do hálux) e caminhar sobre os calcanhares.
  • Reflexo Afetado: Geralmente não altera reflexos específicos.

A “Verdadeira” Dor Ciática

A dor ciática (lombociatalgia) decorrente da hérnia L4-L5 é tipicamente unilateral. O paciente relata uma dor aguda, tipo choque ou queimação, que “desenha” uma linha da nádega até o pé. Sintomas sensoriais como formigamento (parestesia) e sensação de pele anestesiada são comuns e indicam sofrimento neural.

Diagnóstico e Avaliação Funcional

O diagnóstico preciso não se baseia apenas na Ressonância Magnética. A imagem deve sempre ser correlacionada com o exame físico, pois muitas pessoas possuem hérnias visíveis no exame que não causam dor.

Testes Ortopédicos Comuns

  • Teste de Lasègue (Elevação da Perna Reta): O paciente deita-se de costas e o terapeuta eleva a perna estendida. Se houver dor irradiada entre 30° e 70°, é um forte indicativo de hérnia discal comprimindo o nervo.
  • Teste de Slump: Avalia a tensão neural e a mobilidade do sistema nervoso ao longo da coluna.
  • Avaliação de Força (Miotómos): Testar a força do extensor longo do hálux (dedão) é crucial para avaliar a integridade da raiz L5.

🚨 Sinais de Alerta (Bandeiras Vermelhas)

Embora a maioria das hérnias seja tratável conservadoramente, procure emergência médica se apresentar a Síndrome da Cauda Equina:

  • Perda súbita de controle da bexiga ou intestino (incontinência ou retenção).
  • Anestesia em sela (perda de sensibilidade na região genital/anal).
  • Fraqueza progressiva e severa nas duas pernas.
  • Disfunção sexual súbita.

Tratamento Não Cirúrgico: O Padrão-Ouro

A cirurgia é reservada para casos de falha do tratamento conservador após 6 a 12 semanas ou déficits neurológicos graves. Para todos os outros, a fisioterapia especializada é a primeira linha de defesa.

Tabela 1: Fases da Reabilitação da Hérnia L4-L5
Fase Objetivo Principal Condutas Terapêuticas
Fase Aguda (Inflamatória) Controle da dor e redução da inflamação nervosa. Repouso relativo, medicação (prescrita), TENS, posições de alívio, terapia manual suave.
Fase Subaguda (Reparo) Centralização da dor e ganho de mobilidade. Método McKenzie (movimentos repetidos), mobilização neural, descompressão vertebral.
Fase Crônica (Remodelagem) Fortalecimento e retorno à função. Estabilização segmentar (Core), treino funcional, correção biomecânica.

Técnicas Específicas de Tratamento

1. Método McKenzie (MDT)

Foca na “centralização” da dor. Frequentemente, pacientes com hérnias posteriores se beneficiam de movimentos de extensão (arquear as costas para trás), que ajudam a deslocar mecanicamente o material discal para longe da raiz nervosa.

2. Terapia de Descompressão e Tração

O uso de mesas de flexo-descompressão ou tração mecânica cria uma pressão negativa dentro do disco. Esse efeito de “vácuo” promove a entrada de nutrientes e água, facilitando a cicatrização e, em alguns casos, a retração da hérnia.

3. Estabilização Segmentar Vertebral

Não basta fortalecer o “abdômen”. É necessário ativar músculos profundos como o Multífido e o Transverso Abdominal, que agem como um espartilho natural, protegendo o segmento L4-L5 durante o movimento.

🧪 O Fenômeno da Reabsorção

Muitos pacientes perguntam: “A hérnia some?”

Estudos mostram que o corpo tem a capacidade de reabsorver o material herniado (especialmente nas extrusas). O sistema imunológico reconhece o núcleo do disco como um “corpo estranho” e envia macrófagos para digerir esse tecido. O tratamento conservador dá o tempo e as condições necessárias para que esse processo natural ocorra sem dor incapacitante.

Prevenção e Cuidados Diários

A prevenção da recidiva envolve mudanças estruturais no estilo de vida. A coluna L4-L5 sofre com a postura sentada prolongada e com o levantamento incorreto de peso.

Checklist de Proteção Lombar

  • Controle de Peso: Cada quilo extra no abdômen exerce uma força de alavanca multiplicada sobre L4-L5.
  • Higiene Postural: Ao levantar objetos, use a força das pernas (agachamento), mantendo a coluna neutra e o objeto próximo ao corpo.
  • Pausas Ativas: Se trabalha sentado, levante-se a cada 45 minutos para aliviar a carga estática nos discos.
  • Cessação do Tabagismo: Fumar reduz drasticamente a oxigenação dos discos, acelerando a degeneração.
Tabela 2: Guia de Ação para o Paciente
Sintoma Atual Ação Recomendada
Dor lombar leve/moderada após esforço. Repouso relativo (1-2 dias), calor local, analgésicos simples.
Dor irradiada para a perna (ciática) persistente. Consultar especialista em coluna para iniciar Fisioterapia.
Dificuldade súbita de levantar o pé (Pé caído). Urgência Médica: Avaliação neurológica imediata.
Perda de controle da urina/fezes. Emergência (Pronto-Socorro): Risco de Cauda Equina.

Perguntas Frequentes (FAQ)

A hérnia de disco L4-L5 tem cura?

O termo “cura” é relativo. Clinicamente, a maioria dos pacientes (cerca de 90%) torna-se assintomática com tratamento conservador, retomando todas as atividades normais. A hérnia pode secar e diminuir de tamanho (reabsorção), deixando de comprimir o nervo.

Posso fazer caminhada com hérnia de disco?

Na fase aguda de dor intensa, o repouso é indicado. Na fase subaguda, a caminhada leve é encorajada, pois o movimento ajuda na lubrificação articular e evita a atrofia muscular. Respeite sempre o limite da dor.

Quanto tempo demora para desinflamar o nervo ciático?

Varia de acordo com a gravidade da compressão. Com tratamento fisioterapêutico adequado, o alívio significativo geralmente ocorre entre 4 a 6 semanas. A recuperação total da força e sensibilidade pode levar meses.

Qual a melhor posição para dormir com hérnia lombar?

Dormir de lado com um travesseiro entre os joelhos é geralmente a posição mais confortável, pois alinha a bacia e reduz a tensão na lombar. Dormir de barriga para cima com um travesseiro sob os joelhos também é uma boa opção.

Quando a cirurgia é realmente necessária?

A cirurgia é indicada em casos de Síndrome da Cauda Equina (emergência), perda progressiva de força motora (paralisia) ou dor intratável que não responde a meses de tratamento conservador intensivo.

Posso fazer musculação tendo hérnia de disco?

Sim, e deve. Porém, na fase de reabilitação, exercícios que geram carga axial (como agachamento com barra nas costas ou desenvolvimento militar) devem ser evitados ou adaptados. O fortalecimento guiado é essencial para proteção a longo prazo.

O que é protrusão discal L4-L5?

A protrusão é um estágio inicial da hérnia, onde o disco se deforma e “estufa” sem que haja rompimento completo do anel fibroso. Já pode causar dor se tocar no nervo, mas geralmente tem prognóstico melhor que a extrusão.

Compressas quentes ou frias?

Para dor lombar crônica e tensão muscular (travamento), o calor ajuda a relaxar. Se houver dor ciática aguda muito intensa, alguns pacientes sentem alívio com gelo na região lombar para reduzir a inflamação local, mas o calor é geralmente mais tolerado nas costas.

A hérnia L4-L5 causa impotência sexual?

É raro em hérnias comuns. No entanto, uma hérnia central massiva que cause Síndrome da Cauda Equina pode afetar os nervos responsáveis pela função sexual e esfincteriana. Isso é uma emergência médica.

O que é parestesia?

Parestesia é a sensação anormal na pele, descrita como formigamento, dormência ou agulhadas. Na hérnia L5, é comum sentir isso no peito do pé e no dedão.

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Médico especialista em Dor e Fisiatria pela USP. Área de Atuação em Dor pela Associação Médica Brasileira. Doutorado em Ciências pela Universidade de São Paulo. Professor e Colaborador do Grupo de Dor do Hospital das Clínicas da USP.