Agulhamento Seco na Tendinopatia Glútea: Uma Abordagem para Dor

novembro 29, 2025
escrito por: Dr. Marcus Yu Bin Pai

Médico Fisiatra e Especialista em Dor pela AMB. Doutorado em Ciências pela USP.

A tendinopatia glútea, principal componente da Síndrome Dolorosa do Grande Trocânter (SDGT), é uma condição degenerativa e inflamatória que afeta os tendões dos músculos glúteo médio e mínimo. Historicamente diagnosticada erroneamente como “bursite trocantérica”, sabe-se hoje que a patologia primária reside no tendão, caracterizada por desorganização das fibras de colágeno e dor lateral no quadril que pode ser incapacitante.

O Agulhamento Seco (Dry Needling) emerge como uma intervenção minimamente invasiva potente no arsenal médico para o manejo dessa condição. Diferentemente da acupuntura tradicional, que se baseia em meridianos energéticos, o agulhamento seco médico fundamenta-se em princípios neurofisiológicos e anatômicos ocidentais. O objetivo é tratar a dor miofascial, desativar pontos-gatilho (trigger points) e estimular a regeneração tecidual sem a injeção de substâncias químicas (daí o termo “seco”).

📍 O Que é o Agulhamento Médico?

Uma técnica de precisão que utiliza agulhas filiformes para:

1. Mecânico: Romper mecanicamente a fibrose e bandas tensas musculares.
2. Bioquímico: “Lavar” substâncias inflamatórias e ácidas do local da dor.
3. Neural: Modular a transmissão da dor na medula espinhal (Portão da Dor).

Mecanismos de Ação: Por Que Funciona?

A eficácia do agulhamento seco na tendinopatia glútea não é placebo; ela é mediada por respostas fisiológicas mensuráveis. Quando a agulha penetra o tecido lesionado ou o ponto-gatilho no músculo glúteo, ocorrem três fenômenos principais:

1. Resposta de Contração Local (Local Twitch Response)

Ao atingir um ponto-gatilho, a agulha provoca um reflexo espinhal involuntário que faz as fibras musculares se contraírem subitamente e depois relaxarem. Esse “reset” neuromuscular reduz o encurtamento do músculo glúteo, diminuindo a tração mecânica sobre o tendão doente.

2. Hiperemia e Oxigenação

Tendões são tecidos pouco vascularizados (brancos), o que dificulta sua cura. O microtrauma causado pela agulha estimula uma resposta inflamatória aguda controlada, aumentando o fluxo sanguíneo local e trazendo oxigênio, plaquetas e fatores de crescimento essenciais para o reparo do colágeno.

3. Liberação de Opioides Endógenos

A estimulação das fibras nervosas A-delta ativa sistemas inibitórios descendentes no cérebro, liberando encefalinas e endorfinas, proporcionando alívio potente da dor sem os efeitos colaterais de medicamentos sistêmicos.

Cascata de Recuperação

Passo 1: Inserção da Agulha
Estimulação mecânica do tendão/músculo.
Passo 2: Microlesão Controlada
Liberação de fatores de crescimento (PDGF, TGF-b).
Passo 3: Remodelação
Síntese de colágeno e relaxamento muscular.

Agulhamento Seco vs. Outras Terapias

A escolha do tratamento para tendinopatia glútea deve ser personalizada. Abaixo, comparamos o agulhamento seco com as intervenções mais comuns na prática médica ortopédica e fisiátrica.

Tabela 1: Comparativo de Intervenções para Tendinopatia Glútea
Tratamento Mecanismo Principal Vantagens Desvantagens
Agulhamento Seco Neuromodulação e estímulo regenerativo. Sem fármacos, trata a dor muscular associada, baixo risco. Pode causar dor pós-procedimento (24-48h).
Infiltração de Corticoide Anti-inflamatório potente. Alívio rápido da dor aguda. Risco de atrofia tendínea, efeito temporário, catabólico.
Ondas de Choque Mecânico de alta energia (cesta básica de regeneração). Alta taxa de regeneração, não invasivo. Custo mais elevado, desconforto durante aplicação.
Exercício Terapêutico Carga mecânica progressiva. Aumenta a capacidade do tendão a longo prazo. Resposta lenta (meses), requer alta adesão do paciente.
Corticoide vs. Agulhamento

O corticoide “apaga o incêndio” (dor) rápido, mas pode enfraquecer a estrutura do prédio (tendão). O agulhamento não enfraquece o tendão e pode ser repetido com segurança.

A Combinação Ideal

Estudos sugerem que combinar Agulhamento Seco + Exercícios Excêntricos oferece resultados superiores a qualquer terapia isolada.

Indicações, Segurança e Procedimento

O agulhamento seco é indicado para pacientes com dor lateral no quadril refratária ao repouso e anti-inflamatórios orais, especialmente quando há um componente muscular (pontos-gatilho no glúteo médio) associado à tendinopatia.

Como é o Procedimento?

O procedimento é realizado em consultório médico, sob condições assépticas. O paciente deita-se de lado. O médico palpa a região do grande trocânter e ventre muscular glúteo para identificar nódulos dolorosos. Agulhas finas (0.25mm a 0.30mm) são inseridas. Pode haver uma sensação de peso, choque leve ou cãibra (twitch response), que é um sinal positivo de que o alvo foi atingido.

⚠️ Contraindicações e Cuidados

  • • Infecção ativa na pele da região glútea.
  • • Distúrbios de coagulação graves ou uso de anticoagulantes em doses altas (risco de hematoma profundo).
  • • Medo excessivo de agulhas (agravamento psicossomático da dor).
  • • Primeiro trimestre de gravidez (precaução geral).
Tabela 2: Protocolo Clínico Típico
Parâmetro Descrição
Frequência 1 a 2 vezes por semana.
Número de Sessões Geralmente 4 a 8 sessões para resultados sustentados.
Pós-Sessão Aplicação de calor úmido e alongamentos suaves.

Evidência Científica Atual

Estudos clínicos randomizados e revisões sistemáticas têm demonstrado resultados positivos para o agulhamento seco na redução da dor a curto e médio prazo em pacientes com SDGT. A evidência sugere que o agulhamento é tão eficaz quanto a injeção de corticoide em 6 semanas, mas com menor risco de efeitos adversos sistêmicos e sem comprometer a integridade do tendão a longo prazo.

A combinação de eletroacupuntura (agulhamento com estímulo elétrico) tem mostrado resultados ainda mais promissores na regeneração tendínea e controle da dor neuropática associada.

Plano de Ação para o Paciente

  1. Diagnóstico Correto: Confirmar com exame físico e, se necessário, ultrassom ou ressonância (para descartar roturas completas).
  2. Controle de Carga: Parar de cruzar as pernas e evitar dormir sobre o lado afetado.
  3. Intervenção: Iniciar agulhamento seco para controle da dor e relaxamento muscular.
  4. Fortalecimento: Iniciar exercícios isométricos e depois excêntricos para glúteos.

Perguntas Frequentes (FAQ)

O agulhamento seco dói?

A inserção da agulha é geralmente indolor. Quando a agulha atinge o ponto de tensão ou o tendão inflamado, pode haver uma sensação de peso, choque breve ou cãibra. Isso é considerado um sinal terapêutico positivo (“deqi” na acupuntura ou resposta twitch).

Qual a diferença entre agulhamento seco e acupuntura?

Embora usem as mesmas agulhas, a base teórica difere. A acupuntura tradicional baseia-se em meridianos energéticos da Medicina Chinesa. O agulhamento seco médico baseia-se em neuroanatomia, visando músculos, tendões e nervos específicos diagnosticados no exame físico.

Quantas sessões são necessárias?

Varia conforme a cronicidade. A maioria dos pacientes relata alívio após a 2ª ou 3ª sessão. Um ciclo típico envolve 6 a 10 sessões, realizadas semanalmente.

Posso fazer exercício após a sessão?

Recomenda-se evitar exercícios de alto impacto ou carga excessiva nos glúteos nas 24 horas após o procedimento. Caminhadas leves e alongamentos são permitidos e encorajados.

Existe risco de infecção?

O risco é extremamente baixo quando realizado por médicos seguindo técnicas assépticas, com agulhas estéreis descartáveis e limpeza adequada da pele.

O que é a “dor pós-agulhamento”?

É comum sentir uma dor muscular semelhante àquela após um treino intenso na academia. Essa dor geralmente surge algumas horas após a sessão e desaparece em 24 a 48 horas. Calor local ajuda a aliviar.

O agulhamento substitui a cirurgia?

Na maioria dos casos de tendinopatia, a cirurgia não é necessária e deve ser o último recurso. O agulhamento, combinado com exercícios, resolve a grande maioria dos casos conservadoramente.

Pacientes com prótese de quadril podem fazer?

Sim, mas com cautela. O médico deve evitar agulhar profundamente próximo à prótese para evitar qualquer risco teórico de infecção periprotética. O foco é nos músculos glúteos superficiais.

A medicação ajuda mais que o agulhamento?

Medicamentos tratam o sintoma (dor/inflamação) sistemicamente. O agulhamento trata o tecido localmente e mecanicamente. A combinação de ambos costuma ser a melhor estratégia.

O plano de saúde cobre o procedimento?

A cobertura varia conforme o plano. Muitas vezes é enquadrado como “Acupuntura” ou procedimentos de infiltração/bloqueio, dependendo da técnica exata e do contrato do paciente.


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Médico especialista em Dor e Fisiatria pela USP. Área de Atuação em Dor pela Associação Médica Brasileira. Doutorado em Ciências pela Universidade de São Paulo. Professor e Colaborador do Grupo de Dor do Hospital das Clínicas da USP.