Neuralgia do Pudendo – Dor crônica na região pélvica

novembro 29, 2025
escrito por: Dr. Marcus Yu Bin Pai

Médico Fisiatra e Especialista em Dor pela AMB. Doutorado em Ciências pela USP.

O Que é a Neuropatia do Pudendo?

A Neuropatia do Pudendo, frequentemente chamada de Neuralgia do Pudendo, é uma condição dolorosa crônica e debilitante causada pela compressão, irritação ou dano ao nervo pudendo. Este é um nervo periférico crucial na região pélvica, responsável pela inervação sensitiva e motora do períneo (a área entre o ânus e os genitais), dos órgãos genitais externos e da região anal.

Historicamente conhecida como “Síndrome do Ciclista” ou “Síndrome do Canal de Alcock”, esta condição é caracterizada por uma dor neuropática intensa que piora drasticamente ao sentar e alivia ao ficar em pé ou deitar. Devido à localização íntima e à complexidade dos sintomas — que frequentemente envolvem disfunções urinárias, intestinais e sexuais —, a condição é muitas vezes subdiagnosticada ou confundida com infecções recorrentes, prostatites ou hemorroidas.

O nervo pudendo origina-se nas raízes sacrais S2, S3 e S4 da coluna vertebral. Ele percorre um trajeto tortuoso através da pelve, passando por ligamentos rígidos e túneis musculares (como o Canal de Alcock), o que o torna anatomicamente suscetível a aprisionamentos mecânicos.

📍 O Trajeto da Dor

O nervo pudendo conecta a coluna a áreas vitais. A dor pode ocorrer em qualquer ponto deste caminho:

Origem: Coluna Sacral (S2-S4)
Passagem: Espinha Isquiática & Canal de Alcock (Ponto Crítico de Compressão)
Destino: Clitóris/Pênis, Ânus, Períneo e Esfíncteres Urinários

Sintomas e Manifestações Clínicas

O quadro clínico da neuralgia do pudendo é variável, mas a característica central é a dor pélvica posicional. Pacientes frequentemente relatam que a dor é ausente pela manhã ao acordar, mas aumenta progressivamente ao longo do dia, tornando-se insuportável à noite.

Características da Dor

A dor é tipicamente neuropática, descrita como:

  • Queimação: Sensação de ardor intenso na região genital ou anal.
  • Choque Elétrico: Pontadas súbitas e lancinantes.
  • Corpo Estranho: Sensação frequente de estar sentado sobre uma bola de golfe ou uma pedra, ou sensação de algo dentro do reto ou vagina.

Disfunções Associadas

Além da dor, o comprometimento do nervo afeta funções fisiológicas:

  • Sexuais: Dor durante ou após a relação sexual (dispareunia), disfunção erétil, ejaculação dolorosa ou anorgasmia.
  • Urinárias: Urgência urinária, frequência aumentada, hesitação (dificuldade para começar a urinar) ou sensação de bexiga cheia mesmo após urinar.
  • Intestinais: Dor ao evacuar ou sensação de esvaziamento incompleto.
Zona de Dor Primária

Períneo, Ânus, Pênis/Escroto ou Clitóris/Lábios Vaginais.

O Grande Gatilho

SENTAR. A dor dispara ao sentar e alivia ao levantar ou sentar no vaso sanitário (devido ao buraco no assento).

Sintomas “Fantasmas”

Sensação de “bola” no reto ou vagina sem haver nada lá.

Causas e Fatores de Risco

A neuropatia do pudendo pode surgir de um evento traumático único ou desenvolver-se lentamente devido a microtraumas repetitivos.

Microtrauma e Compressão

O ciclismo é a causa mais famosa. O selim da bicicleta, especialmente os modelos estreitos e rígidos, comprime diretamente o Canal de Alcock contra os ossos da bacia. Outras atividades que envolvem longos períodos sentados ou vibração constante (como dirigir caminhões) também são fatores de risco.

Eventos Pélvicos

  • Parto: O estiramento do assoalho pélvico durante o parto vaginal pode lesionar o nervo por tração.
  • Cirurgias Pélvicas: Procedimentos para correção de prolapso (telas), histerectomia ou cirurgias de próstata podem, inadvertidamente, causar fibrose ou aprisionamento do nervo.
  • Constipação Crônica: O esforço evacuatório excessivo e crônico pode estirar o nervo ao longo dos anos.
Tabela 1: Neuropatia do Pudendo vs. Outras Condições Pélvicas
Condição Característica Principal da Dor Fator de Piora
Neuropatia do Pudendo Queimação perineal/genital. Sentar.
Cistite Intersticial Dor suprapúbica (bexiga). Bexiga cheia. Alivia ao urinar.
Prostatite Crônica Dor pélvica difusa + sintomas urinários. Ejaculação e micção.
Endometriose Cólica profunda e cíclica. Período menstrual.

Diagnóstico: Os Critérios de Nantes

O diagnóstico da Neuropatia do Pudendo é eminentemente clínico. Exames de imagem como a Ressonância Magnética (RM) da pelve são fundamentais para excluir tumores ou compressões ósseas, mas frequentemente aparecem “normais” mesmo em pacientes com dor severa, pois o nervo é muito fino.

Para padronizar o diagnóstico, a comunidade médica internacional utiliza os Critérios de Nantes. Para um diagnóstico positivo, todos os 5 critérios essenciais devem estar presentes:

✅ Os 5 Critérios Essenciais de Nantes

  • 1. Território Anatômico: Dor localizada na área de inervação do pudendo (ânus a pênis/clitóris).
  • 2. Fator Posicional: A dor é predominantemente desencadeada ao sentar.
  • 3. Sem Dor Noturna: O paciente não acorda à noite pela dor (embora possa ter dificuldade para adormecer).
  • 4. Sem Perda Sensorial: Não há perda objetiva de sensibilidade (dormência total) ao exame de toque.
  • 5. Teste de Bloqueio: Alívio imediato da dor após infiltração do nervo com anestésico.

Tratamento Não Cirúrgico: O Padrão Ouro

A cirurgia de descompressão do nervo pudendo é reservada para casos raros e refratários. A vasta maioria dos pacientes responde bem a uma abordagem multimodal conservadora.

Pirâmide de Tratamento

1. Mudanças de Estilo de Vida (Base)

Almofadas ortopédicas, evitar ciclismo, tratar constipação.

2. Farmacoterapia Oral

Neuromoduladores e Antidepressivos.

3. Intervenção Minimamente Invasiva

Bloqueios de nervo e Radiofrequência.

Medicamentos Específicos

Analgésicos comuns (como paracetamol e ibuprofeno) geralmente não funcionam para dor neuropática. As classes de medicamentos mais eficazes incluem:

  • Gabapentinoides (Pregabalina e Gabapentina): Reduzem a excitabilidade elétrica do nervo. São a primeira linha de tratamento.
  • Antidepressivos Tricíclicos (Amitriptilina, Nortriptilina): Em doses baixas, modulam a percepção da dor no sistema nervoso central.
  • Relaxantes Musculares: Úteis se houver espasmo do assoalho pélvico associado (hipertonia).

Procedimentos Invasivos de Consultório

  • Bloqueio do Nervo Pudendo: Uma injeção guiada por ultrassom ou tomografia contendo anestésico local e corticoide. Serve tanto para diagnóstico (alívio imediato) quanto para tratamento (redução da inflamação a médio prazo).
  • Radiofrequência Pulsada: Uma técnica que utiliza ondas eletromagnéticas para modular a transmissão de dor do nervo, sem destruí-lo. Oferece alívio mais duradouro que os bloqueios simples.

Autocuidado e Ergonomia

A medida mais simples e eficaz é evitar a compressão direta. O uso de almofadas em formato de “U” ou “Rosquinha” é obrigatório ao sentar. Estações de trabalho em pé (standing desks) são altamente recomendadas para quem trabalha em escritório.

Sinais de Alerta (Red Flags)

Embora a neuralgia do pudendo seja crônica, certas mudanças nos sintomas podem indicar condições mais graves, como compressão da medula espinhal ou síndrome da cauda equina.

Tabela 2: Quando a Dor Pélvica é uma Emergência
Sintoma de Alerta O que pode ser Ação
Perda de controle da bexiga ou intestino (incontinência súbita). Síndrome da Cauda Equina. Pronto-Socorro Imediato.
Anestesia em sela (perda total de sensibilidade na região íntima). Compressão neural grave. Avaliação neurológica urgente.
Fraqueza progressiva nas pernas. Hérnia de disco lombar grave ou tumor. Ressonância Magnética.

📋 Rotina de Gerenciamento Diário

  • Use o Almofada: Nunca sente em superfícies duras sem sua almofada de alívio perineal.
  • Regra do Banheiro: Não faça força para evacuar. Use apoio para os pés e trate a constipação agressivamente.
  • Roupas Soltas: Evite jeans apertados ou roupas íntimas com elásticos que pressionem a virilha.

Perguntas Frequentes (FAQ)

A neuralgia do pudendo tem cura definitiva?

Para muitos pacientes, o tratamento conservador leva a um alívio quase total dos sintomas, permitindo uma vida normal. A “cura” depende da causa; se for um aprisionamento mecânico grave, a cirurgia pode ser necessária, mas a maioria gerencia bem a condição como uma doença crônica.

Posso voltar a andar de bicicleta?

Geralmente, o ciclismo tradicional é desaconselhado para quem já desenvolveu a neuropatia, pois o risco de recidiva é alto. Bicicletas reclinadas (recumbent bikes), onde o apoio é nas costas e glúteos e não no períneo, são uma alternativa segura.

Isso afeta minha fertilidade?

A neuropatia do pudendo não causa infertilidade biológica (produção de esperma ou óvulos). No entanto, a dor durante o ato sexual (dispareunia) ou a disfunção erétil secundária à dor podem dificultar a concepção natural.

Gelo ou calor ajudam?

Depende do paciente, mas o gelo no períneo pode ajudar a “adormecer” a área inflamada. O calor (banhos de assento mornos) ajuda a relaxar a musculatura do assoalho pélvico se houver espasmos musculares associados.

Hemorroidas causam neuralgia do pudendo?

Não diretamente, mas a cirurgia de hemorroidas (hemorroidectomia) pode, em casos raros, lesionar ramos do nervo pudendo ou causar cicatrizes que levam à neuropatia.

O estresse piora a dor?

Sim. O estresse aumenta a tensão muscular generalizada, inclusive no assoalho pélvico, o que pode comprimir ainda mais o nervo irritado e aumentar a percepção da dor.

Qual médico devo procurar?

O diagnóstico geralmente requer uma abordagem multidisciplinar. Urologistas, ginecologistas, proctologistas e neurologistas podem suspeitar, mas médicos especialistas em Dor (Algologistas) ou Fisiatras são frequentemente os que gerenciam o tratamento a longo prazo.


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Recomendado: Levante-se a cada 20-30 minutos.

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Médico especialista em Dor e Fisiatria pela USP. Área de Atuação em Dor pela Associação Médica Brasileira. Doutorado em Ciências pela Universidade de São Paulo. Professor e Colaborador do Grupo de Dor do Hospital das Clínicas da USP.