O Que é a Lesão do Nervo Torácico Longo?
A lesão do Nervo Torácico Longo é uma condição neuromuscular que resulta na paralisia ou fraqueza do músculo serrátil anterior. Este nervo, que se origina das raízes cervicais C5, C6 e C7, percorre um trajeto longo e superficial na parede lateral do tórax, o que o torna particularmente vulnerável a traumas diretos, estiramentos e compressões.
A consequência clínica mais visível e clássica desta lesão é a Escápula Alada (Scapula Alata). Nesta condição, a borda medial da omoplata (escápula) se projeta para trás e para fora do tórax, assemelhando-se a uma asa de anjo, especialmente quando o paciente tenta levantar o braço ou empurrar uma parede. Além da deformidade estética, a lesão compromete gravemente a biomecânica do ombro, dificultando movimentos simples como pentear o cabelo ou pegar objetos em prateleiras altas.
📍 Anatomia e Função
Entenda por que este nervo é vital para o ombro:
Causas e Fatores de Risco
Devido à sua localização superficial e trajeto longo, o nervo torácico longo pode ser lesionado por diversos mecanismos. As causas são geralmente divididas em traumáticas, iatrogênicas (causadas por procedimentos médicos) e neurológicas.
Trauma Mecânico e Esportivo
Golpes diretos na região lateral do tórax ou na base do pescoço são causas frequentes em esportes de contato (futebol, rugby). Além disso, a “Paralisia da Mochila” ocorre quando o uso prolongado de mochilas pesadas comprime o nervo na região dos ombros.
Causas Cirúrgicas (Iatrogênicas)
Infelizmente, cirurgias na região torácica e axilar representam uma parcela significativa dos casos. Procedimentos como mastectomia com esvaziamento axilar (remoção de linfonodos), cirurgias cardíacas, toracotomias e até ressecção da primeira costela podem inadvertidamente lesionar o nervo.
Neurite do Plexo Braquial
A Síndrome de Parsonage-Turner (neurite braquial aguda) é uma condição inflamatória autoimune ou viral que causa dor intensa no ombro seguida de paralisia rápida. O nervo torácico longo é frequentemente acometido nesta síndrome.
Nuvem de Fatores de Risco
Sintomas e Diagnóstico Clínico
O início dos sintomas pode ser agudo (dor súbita) ou insidioso (fraqueza progressiva). A dor geralmente se localiza no ombro, pescoço ou parede lateral do tórax. Com o tempo, a dor diminui e a fraqueza/deformidade torna-se a queixa principal.
| Sintoma Principal | Descrição Clínica | Impacto Funcional |
|---|---|---|
| Escápula Alada | Borda medial da escápula se solta do tórax. | Visível ao empurrar uma parede ou levantar o braço. |
| Dor no Ombro | Dor vaga, queimação ou peso. Pode irradiar para o pescoço. | Dificulta o sono sobre o lado afetado. |
| Limitação de Movimento | Incapacidade de elevar o braço acima de 90-100 graus. | Dificuldade em atividades acima da cabeça (pentear, trocar lâmpada). |
| Fadiga Muscular | Cansaço rápido do braço em atividades rotineiras. | Sensação de peso morto no braço. |
Exames Complementares
O exame físico com a manobra de “empurrar a parede” é muito sugestivo, mas a confirmação requer tecnologia:
- Eletroneuromiografia (ENMG): É o padrão-ouro. Avalia a condução elétrica do nervo e a resposta muscular. Ajuda a definir se a lesão é completa (neurotmese) ou parcial (neuropraxia/axonotmese) e estima o prognóstico de recuperação.
- Ressonância Magnética (RM): Útil para descartar outras causas de dor no ombro (como lesão do manguito rotador) e visualizar se há cistos ou tumores comprimindo o nervo.
Tratamento Não Cirúrgico: O Caminho da Recuperação
A boa notícia é que a maioria das lesões do nervo torácico longo se recupera espontaneamente com tratamento conservador, embora seja um processo lento que pode levar de 6 a 24 meses. A regeneração nervosa ocorre a uma taxa aproximada de 1 mm por dia.
Fase 1: Proteção (0-3 meses)
Objetivo: Evitar estiramento adicional do nervo. Repouso relativo. Evitar movimentos do braço acima da cabeça e carregar pesos. Uso de analgésicos e AINEs para dor.
Fase 2: Ativação (3-6 meses)
Objetivo: Manter amplitude de movimento (ADM). Início de exercícios passivos e assistidos para evitar o “ombro congelado”. Fortalecimento de músculos compensatórios (trapézio, romboides).
Fase 3: Fortalecimento (6-24 meses)
Objetivo: Reabilitação do serrátil anterior. Exercícios específicos (Serratus Punch, Wall Slides) conforme o nervo reinerva o músculo.
Fisioterapia Especializada
A fisioterapia é a pedra angular do tratamento. O foco inicial não é fortalecer o serrátil (pois o nervo não está funcionando), mas sim evitar a atrofia e manter a articulação móvel. Técnicas incluem:
- Alongamento do Peitoral Menor: Músculos encurtados na frente do ombro podem piorar a escápula alada.
- Eletroestimulação (FES): Pode ser usada para manter a contratilidade muscular e prevenir atrofia severa enquanto o nervo se recupera.
- Biofeedback: Ajuda o paciente a entender quais músculos estão sendo ativados.
Não tente “forçar” o fortalecimento do serrátil anterior na fase aguda. Tentar fazer flexões ou levantar pesos com o nervo paralisado pode causar lesões compensatórias no manguito rotador e atrasar a recuperação.
Prognóstico e Sinais de Alerta
A recuperação completa pode demorar até dois anos. Se após 12 a 24 meses de tratamento conservador bem executado não houver sinais de reinervação na eletroneuromiografia ou melhora clínica, a cirurgia (transferência tendinosa, geralmente usando o peitoral maior) pode ser considerada.
| Sinais Positivos (Recuperação) | Sinais de Alerta (Estagnação) |
|---|---|
| Diminuição da “asa” ao repouso. | Dor noturna intensa e persistente após 3 meses. |
| Capacidade de elevar o braço um pouco mais alto a cada mês. | Atrofia visível severa (músculo “sumindo”) no tórax. |
| Formigamento que se transforma em sensibilidade normal. | Desenvolvimento de ombro congelado (rigidez total). |
✅ Checklist de Proteção Diária
- ✔ Evite esticar: Não leve o braço para trás do corpo (extensão excessiva).
- ✔ Modifique o sono: Durma de barriga para cima ou sobre o lado não afetado com um travesseiro apoiando o braço lesionado.
- ✔ Ergonomia: Mantenha o teclado e mouse próximos ao corpo para evitar alcançar longe.
- ✔ Sem peso: Use carrinhos de compras em vez de cestas ou sacolas.
Perguntas Frequentes (FAQ)
Quanto tempo demora para a escápula alada sumir?
A recuperação é lenta. A maioria dos pacientes vê melhorias significativas entre 6 e 9 meses, mas a recuperação completa da força e estabilidade da escápula pode levar até 2 anos. A paciência é essencial.
Posso fazer musculação com lesão no nervo torácico longo?
Na fase inicial, não. Exercícios de carga podem sobrecarregar outros músculos do ombro e piorar a instabilidade. O retorno à musculação deve ser gradual, supervisionado por fisioterapeuta, focando primeiro em estabilidade escapular.
O uso de órtese (colete) ajuda?
Órteses escapulares podem ajudar a manter a escápula no lugar, reduzindo a dor e melhorando a função do braço temporariamente. Elas são úteis para prevenir o estiramento crônico dos músculos romboides e trapézio, mas não curam o nervo.
Qual a melhor posição para dormir?
Evite dormir sobre o ombro lesionado. A melhor posição é de barriga para cima (decúbito dorsal) ou sobre o lado saudável, abraçando um travesseiro para manter o ombro afetado em posição neutra.
Vitaminas do complexo B ajudam na recuperação?
Embora as vitaminas B (B1, B6, B12) sejam essenciais para a saúde nervosa, não há evidência robusta de que a suplementação acelere drasticamente a regeneração em pessoas sem deficiência vitamínica. Consulte seu médico antes de suplementar.
A massagem ajuda na escápula alada?
A massagem não repara o nervo, mas é excelente para aliviar a dor muscular compensatória no pescoço (trapézio) e nos romboides, que ficam sobrecarregados tentando estabilizar a escápula.
Sinto dor no pescoço, isso é normal?
Sim. Como o músculo serrátil anterior não está funcionando, outros músculos (como o elevador da escápula e trapézio superior) trabalham em dobro, gerando tensão e dor cervical secundária.
Quando a cirurgia é indicada?
A cirurgia (transferência do peitoral maior) é reservada para casos onde não houve recuperação após 18-24 meses de tratamento conservador, ou para pacientes com dor intratável e perda funcional severa que afeta a qualidade de vida.
🧪 Auto-Teste: Manobra de Empurrar a Parede
Este é o teste clínico padrão. Peça para alguém observar suas costas.
📅 Estimativa de Recuperação Nervosa
Nervos periféricos regeneram a aprox. 1mm por dia. O nervo torácico longo é… longo!
Estimativa baseada na distância da lesão (pescoço) até o músculo.
Para retorno funcional significativo.
🚫 Modificação de Atividades
Marque o que você deve EVITAR hoje para proteger seu nervo.
Médico especialista em Dor e Fisiatria pela USP. Área de Atuação em Dor pela Associação Médica Brasileira. Doutorado em Ciências pela Universidade de São Paulo. Professor e Colaborador do Grupo de Dor do Hospital das Clínicas da USP.