Nervo do Pescoço Inflamado (Cervicobraquialgia): Guia Completo de Sintomas e Tratamento

novembro 25, 2025
escrito por: Dr. Marcus Yu Bin Pai

Médico Fisiatra e Especialista em Dor pela AMB. Doutorado em Ciências pela USP.

A sensação de ter um nervo do pescoço inflamado é uma das experiências mais debilitantes que um paciente pode enfrentar. Clinicamente conhecida como radiculopatia cervical ou cervicobraquialgia, essa condição não se limita apenas a uma dor local na nuca; ela frequentemente se manifesta como uma dor elétrica, queimante ou profunda que viaja do pescoço para o ombro, braço e até a mão.

Diferente de um torcicolo muscular simples, que melhora em poucos dias, a inflamação ou compressão nervosa envolve uma irritação química e mecânica das raízes nervosas que saem da medula espinhal. Esta condição afeta significativamente a qualidade de vida, o sono e a capacidade laboral. Estima-se que até 85 pessoas em cada 100.000 sofram desta condição anualmente, sendo mais comum entre a quarta e a quinta década de vida.

Neste artigo aprofundado, exploraremos a anatomia do problema, as causas ocultas, o mapa da dor cervical e as estratégias mais avançadas de tratamento conservador (não cirúrgico) baseadas em evidências médicas atuais.

1. Compressão Mecânica

Ocorre quando estruturas físicas, como um disco herniado ou um osteófito (“bico de papagaio”), invadem o espaço do forame intervertebral, apertando a raiz do nervo.

2. Inflamação Química

O núcleo do disco intervertebral contém substâncias inflamatórias (citocinas). Se o disco rompe, esse material “vaza” e irrita quimicamente o nervo, causando dor sem compressão massiva.

3. Isquemia Neural

A compressão e o inchaço (edema) reduzem o fluxo sanguíneo para o nervo. Sem oxigênio e nutrientes adequados, o nervo entra em sofrimento e dispara sinais de dor intensa.

Causas: O Que Provoca a Inflamação do Nervo?

A expressão “nervo inflamado” é, na verdade, um termo guarda-chuva para diversas patologias. Entender a causa raiz é crucial para o sucesso terapêutico.

Hérnia de Disco Cervical

A causa mais comum em pessoas jovens (30-50 anos). Ocorre quando o núcleo gelatinoso do disco rompe o anel fibroso externo. Esse material extruso pressiona a raiz nervosa adjacente. Os níveis mais afetados são C5-C6 e C6-C7, devido à alta mobilidade desses segmentos.

Espondilose (Artrose) e Estenose

Mais comum após os 50 anos. É o desgaste natural. O corpo tenta “estabilizar” a coluna desgastada produzindo osso extra (osteófitos). Esses esporões ósseos estreitam os túneis (forames) por onde os nervos saem, causando uma compressão lenta e progressiva.

Nevralgia Occipital

Uma condição específica onde os nervos occipitais (que correm da base do pescoço até o couro cabeludo) ficam inflamados ou comprimidos por músculos tensos. Isso gera uma dor que sobe do pescoço para a cabeça, muitas vezes confundida com enxaqueca.

Trauma (Efeito Chicote)

Acidentes de carro ou lesões esportivas podem causar estiramento abrupto do plexo braquial ou inflamação aguda das raízes nervosas devido ao impacto.

Sintomas e Mapeamento da Dor

A dor do nervo é distinta da dor muscular. Enquanto a dor muscular é descrita como “peso” ou “cansaço”, a dor nervosa é descrita como choque, agulhada, queimação ou água gelada escorrendo. Além disso, ela segue um trajeto específico (dermátomo).

Tríade da Radiculopatia

A inflamação do nervo geralmente apresenta três componentes:

  • 1 Dor Irradiada: Segue do pescoço para o braço, antebraço ou mão.
  • 2 Parestesia: Alteração de sensibilidade (formigamento ou dormência) nas pontas dos dedos.
  • 3 Déficit Motor: Perda de força em movimentos específicos (ex: dificuldade em segurar uma xícara).
Tabela 1: Correlação entre Raiz Nervosa e Local dos Sintomas
Raiz Afetada Local da Dor/Formigamento Possível Fraqueza Muscular
C5 Ombro e parte lateral do braço. Dificuldade em levantar o braço (Deltoide).
C6 (Muito Comum) Desce pelo braço até o dedão (polegar) e indicador. Fraqueza ao dobrar o cotovelo (Bíceps) ou estender o punho.
C7 (Muito Comum) Parte de trás do braço até o dedo médio. Fraqueza ao esticar o cotovelo (Tríceps).
C8 Parte interna do braço até o dedo mínimo e anelar. Dificuldade em movimentos finos da mão (pegar objetos pequenos).

Diagnóstico: Como os Médicos Identificam?

O diagnóstico é, primeiramente, clínico. O médico especialista (Ortopedista, Neurocirurgião ou Fisiatra) realizará testes provocativos durante o exame físico.

  • Teste de Spurling: O médico inclina a cabeça do paciente para o lado da dor e aplica uma leve pressão. Se isso reproduzir o choque no braço, o teste é positivo para compressão radicular.
  • Teste de Tração: O médico puxa suavemente a cabeça para cima. Se a dor aliviar (devido ao aumento do espaço entre as vértebras), sugere origem compressiva.

Exames de imagem, como a Ressonância Magnética (RM), são o padrão-ouro para confirmar a hérnia ou estenose e visualizar a saúde dos tecidos moles. A Eletroneuromiografia pode ser solicitada para avaliar a condução elétrica do nervo e diferenciar de outras neuropatias (como a Síndrome do Túnel do Carpo).

Tratamento Fase 1: Controle Farmacológico da Dor

A abordagem inicial visa “apagar o incêndio” inflamatório para permitir que o paciente inicie a reabilitação. O tratamento não cirúrgico é eficaz em mais de 90% dos casos.

Escada Analgésica para Dor Neuropática

Nível 3: Corticosteroides Orais (Curto Prazo)
Potente ação anti-inflamatória para reduzir o edema no nervo.
Nível 2: Moduladores de Dor (Gabapentina/Pregabalina)
Estabilizam a membrana neural, reduzindo a dor elétrica/queimação.
Nível 1: AINEs e Relaxantes Musculares
Controle da inflamação local e espasmos musculares associados.

Detalhamento das Opções Medicamentosas

  • Corticosteroides (Prednisona, Dexametasona): Muitas vezes prescritos em um ciclo de dose decrescente por 5 a 7 dias. Eles inibem a fosfolipase A2, reduzindo drasticamente a inflamação química ao redor da raiz nervosa. Atenção aos efeitos colaterais como insônia e aumento da glicemia.
  • Gabapentinoides (Pregabalina, Gabapentina): Estes não são analgésicos comuns. Eles agem nos canais de cálcio dos nervos, diminuindo a liberação de neurotransmissores excitatórios. São essenciais para tratar a sensação de choque e queimação. O efeito não é imediato e exige titulação da dose.
  • Relaxantes Musculares (Ciclobenzaprina, Tizanidina): Úteis pois a dor nervosa frequentemente causa uma “contratura de proteção” nos músculos do pescoço. Ajudam principalmente na qualidade do sono.

Tratamento Fase 2: Reabilitação e Terapias Físicas

Medicamentos tiram a dor, mas a reabilitação trata a causa mecânica e previne o retorno.

Estratégias de Reabilitação Ativa

  • Tração Cervical: Uma técnica que aplica uma força suave para separar levemente as vértebras. Isso aumenta o espaço do forame, aliviando a pressão sobre o nervo e permitindo melhor circulação sanguínea local.
  • Mobilização Neural: Exercícios específicos que “deslizam” o nervo dentro do seu trajeto. Nervos inflamados podem criar aderências (ficar “grudados”); essa técnica restaura a elasticidade neural.
  • Fortalecimento Isométrico: Fortalecer os músculos profundos do pescoço (flexores profundos) sem movimento articular excessivo, criando um “colar cervical natural” de músculos.
  • Correção Postural (Tech Neck): Reeducação para evitar a projeção da cabeça para frente, que aumenta exponencialmente o peso da cabeça sobre os discos cervicais inferiores.

Terapias Complementares

A Acupuntura tem mostrado eficácia no tratamento da dor radicular crônica, atuando na liberação de endorfinas e modulação da dor. O uso de colar cervical macio é controverso; atualmente, recomenda-se apenas para uso em curto prazo (máximo 2-3 dias) durante crises agudas intensas, pois o uso prolongado enfraquece a musculatura.

Tabela 2: Comparativo de Opções Terapêuticas
Modalidade Mecanismo de Ação Tempo para Alívio
Calor Local Vasodilatação e relaxamento muscular. Imediato (temporário).
Gelo Redução da inflamação aguda e analgesia. Imediato (temporário).
Corticoides (Orais/Injetáveis) Redução potente da inflamação do nervo. 24 a 48 horas.
Reabilitação Física Descompressão mecânica e estabilização. Médio/Longo prazo (Cura funcional).

Quando Procurar a Emergência? (Sinais de Alerta)

Embora a dor seja intensa, a maioria dos casos não é uma emergência cirúrgica. No entanto, existem sinais, chamados de “Red Flags”, que indicam compressão medular grave (Mielopatia Cervical) ou infecção.

⚠️ ATENÇÃO: Sinais de Gravidade

Procure atendimento médico imediato se apresentar:

  • Perda de força súbita e progressiva no braço ou na mão (incapacidade de segurar objetos).
  • Alterações na marcha: Dificuldade para caminhar, tropeços frequentes ou sensação de desequilíbrio (sinal de compressão da medula).
  • Disfunção urinária ou intestinal: Incontinência ou retenção.
  • Febre alta e rigidez de nuca severa (sinal de meningite).
  • Dor que não alivia em nenhuma posição e piora à noite.

Perguntas Frequentes

Quanto tempo demora para desinflamar um nervo do pescoço?

O tempo de recuperação varia. A fase aguda da dor geralmente diminui em 1 a 2 semanas com medicação adequada. No entanto, a recuperação completa da sensibilidade e força, e a cicatrização do nervo, podem levar de 4 a 6 semanas, podendo estender-se até 3 meses em casos de hérnias maiores.

Devo usar compressa quente ou fria no pescoço?

Nas primeiras 48 a 72 horas de uma crise aguda intensa, o gelo pode ajudar a reduzir a inflamação local e “anestesiar” a dor. Após esse período, ou para dores crônicas associadas a tensão muscular, o calor úmido é geralmente mais benéfico, pois relaxa a musculatura que pode estar comprimindo o nervo e melhora a circulação.

Posso fazer massagem quando o nervo está inflamado?

Deve-se ter muita cautela. Massagens relaxantes nos músculos ao redor (trapézio) podem aliviar a tensão secundária. No entanto, massagens profundas ou manipulações vigorosas sobre a coluna cervical durante a fase aguda podem piorar a inflamação e aumentar a compressão nervosa. Sempre consulte um profissional especializado.

Qual a melhor posição para dormir com dor no nervo do pescoço?

A melhor posição é geralmente de barriga para cima (decúbito dorsal) com um travesseiro baixo que suporte a curva natural do pescoço, ou de lado com um travesseiro que preencha o espaço entre o ombro e a orelha, mantendo a coluna alinhada. Dormir de bruços é contraindicado, pois força a rotação do pescoço e aumenta a compressão.

O estresse pode causar inflamação no nervo do pescoço?

Indiretamente, sim. O estresse eleva os níveis de cortisol e provoca tensão muscular crônica nos ombros e pescoço. Essa tensão constante pode comprimir as raízes nervosas ou agravar uma condição pré-existente, como uma hérnia de disco leve, desencadeando a crise de dor.

Quando é necessário cirurgia para nervo do pescoço inflamado?

A cirurgia é considerada apenas quando o tratamento conservador falha após 6 a 12 semanas, se a dor for incontrolável, ou, mais urgentemente, se houver déficit neurológico progressivo (perda de força significativa) ou sinais de compressão da medula espinhal (mielopatia).

O que é “Dor em Choque” no pescoço?

A dor em choque, ou sinal de Lhermitte, é uma sensação elétrica que percorre a coluna e os membros quando se flexiona o pescoço para frente. Pode indicar irritação meníngea, espondilose severa ou, em alguns casos, desmielinização. É um sintoma que deve ser relatado ao médico.

A vitamina B ajuda no tratamento?

O complexo B (B1, B6, B12) é frequentemente prescrito como coadjuvante no tratamento de neuropatias, pois essas vitaminas são essenciais para a saúde da bainha de mielina e regeneração nervosa. No entanto, elas não substituem os medicamentos analgésicos e anti-inflamatórios na fase aguda.

O uso de celular piora a inflamação?

Sim. A síndrome do “Tech Neck” (pescoço de texto) ocorre ao olhar para baixo para usar o celular. Isso aumenta o peso da cabeça sobre a coluna cervical de 5kg (posição neutra) para até 27kg (flexão de 60 graus), aumentando drasticamente a pressão nos discos e a chance de compressão nervosa.

Posso fazer exercícios na academia com o nervo inflamado?

Na fase aguda, o repouso relativo é indicado. Exercícios de alto impacto ou que envolvam levantamento de peso acima da cabeça (como desenvolvimento de ombros) devem ser evitados até a melhora dos sintomas. O retorno deve ser gradual e focado em correção postural, preferencialmente sob orientação profissional.

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Médico especialista em Dor e Fisiatria pela USP. Área de Atuação em Dor pela Associação Médica Brasileira. Doutorado em Ciências pela Universidade de São Paulo. Professor e Colaborador do Grupo de Dor do Hospital das Clínicas da USP.