O Desafio da Fascite Plantar: Dor a Cada Passo
A fascite plantar é uma das causas mais comuns e frustrantes de dor no calcanhar. Caracteriza-se por uma dor aguda, frequentemente descrita como uma “pontada” ou “facada” na sola do pé, perto do calcanhar. O sintoma clássico é a dor intensa nos primeiros passos pela manhã ou após um período de repouso, que pode diminuir com o movimento, mas retornar ao final do dia ou após atividades prolongadas.
Para milhões de pessoas, essa condição crônica afeta profundamente a qualidade de vida, limitando atividades esportivas, lazer e até mesmo a capacidade de andar confortavelmente. O tratamento inicial, focado em medidas conservadoras, é a primeira linha de defesa.
No entanto, quando a dor persiste por meses a despeito de alongamentos, palmilhas e fisioterapia, ela é classificada como fascite plantar crônica refratária. É nesse cenário desafiador que a Terapia por Ondas de Choque (TOC), também conhecida pela sigla em inglês ESWT (Extracorporeal Shock Wave Therapy), surge como uma solução moderna, não invasiva e com sólida base de evidências científicas.
Entendendo a Fascite Plantar: Inflamação ou Degeneração?
A fáscia plantar é uma faixa espessa de tecido (semelhante a um ligamento) que se estende do osso do calcanhar (calcâneo) até os dedos, formando o arco do pé. Ela atua como um amortecedor e é crucial para o mecanismo da caminhada.
A “fascite” (com o sufixo “-ite”) sugere inflamação. Contudo, pesquisas modernas em biópsias de tecido de pacientes com dor crônica mostram que a inflamação aguda (células inflamatórias) é rara. O que realmente ocorre é um processo de degeneração e desorganização do colágeno, com micro-rupturas e um processo de cicatrização falho. Por isso, muitos especialistas preferem o termo “fasciose plantar” para casos crônicos.
Dica do Especialista: Fascite vs. Fasciose
Compreender essa diferença é crucial. A fascite aguda (inflamatória) pode responder bem a gelo e anti-inflamatórios. A fasciose crônica (degenerativa), onde o tecido está doente e desorganizado, não responde. A terapia por ondas de choque não é apenas um anti-inflamatório; seu objetivo principal é “quebrar” esse ciclo crônico e induzir um novo processo de regeneração e cura no tecido degenerado.
O famoso “esporão do calcâneo” é frequentemente visto em exames de raio-X de pacientes com fascite plantar, mas raramente é a causa da dor. O esporão é uma calcificação que se forma em resposta à tração crônica da fáscia, mas a dor vem do tecido mole (a fáscia), não do osso em si.
O que é a Terapia por Ondas de Choque (TOC)?
Primeiro, é vital dissipar um mito comum: a Terapia por Ondas de Choque não é um choque elétrico. O tratamento utiliza ondas acústicas (sonoras) de alta pressão e alta velocidade. Essas ondas são geradas externamente (extracorpóreas) e direcionadas para o tecido lesionado.
Originalmente desenvolvida na década de 1980 para quebrar pedras nos rins (litotripsia), os médicos observaram que os tecidos ao redor das áreas tratadas apresentavam aumento da circulação e regeneração óssea. Isso levou à pesquisa e adaptação da tecnologia para o sistema musculoesquelético.
Tipos de Ondas de Choque: Radial vs. Focal
Existem dois tipos principais de aplicadores de ondas de choque, e eles funcionam de maneiras diferentes:
| Característica | Ondas de Choque Radiais (RPW) | Ondas de Choque Focais (ESWTf) |
|---|---|---|
| Mecanismo | Onda de pressão que se dissipa (espalha) superficialmente. | Onda acústica verdadeira, converge para um ponto profundo e preciso. |
| Profundidade | Mais superficial (ideal para fáscia plantar). | Mais profunda (ideal para tecidos profundos ou ossos). |
| Sensação | Desconfortável, mas geralmente bem tolerada. Não requer anestesia. | Pode ser mais dolorosa, às vezes necessitando de anestesia local. |
| Uso Comum (PF) | Muito comum e eficaz para a fáscia plantar e tendões superficiais. | Também eficaz, usada em casos específicos ou quando se suspeita de lesão óssea. |
Para a fascite plantar, ambas as modalidades são eficazes, sendo as ondas radiais a escolha mais frequente em clínicas de fisiatria e medicina esportiva devido à sua eficácia e maior conforto para o paciente.
Como as Ondas de Choque Curam a Fascite Plantar?
As ondas de choque não “quebram” o esporão, como muitos pensam. O mecanismo é biológico e regenerativo. Ao aplicar as ondas de pressão no tecido doente, o corpo responde com uma cascata de reações curativas:
Mecanismos de Ação da Terapia por Ondas de Choque
A hiperestimulação dos nervos da dor bloqueia o envio de sinais ao cérebro (Teoria do Portão) e causa a depleção da “Substância P”, um neurotransmissor da dor.
As ondas estimulam a formação de novos e minúsculos vasos sanguíneos (angiogênese) na área, aumentando o aporte de oxigênio e nutrientes essenciais para o reparo.
As ondas “acordam” o tecido crônico, estimulando a atividade dos fibroblastos – células responsáveis pela produção de novo colágeno, o “tijolo” de um tecido saudável.
A terapia transforma o processo crônico e degenerativo (fasciose) em uma resposta de cura aguda e controlada, “reiniciando” o processo de cicatrização do corpo.
Quando as Ondas de Choque São Indicadas?
Este é o ponto mais importante: a Terapia por Ondas de Choque não é um tratamento de primeira linha. Diretrizes clínicas internacionais, como as do NICE (Reino Unido) e da Academia Americana de Cirurgiões Ortopédicos (AAOS), são claras: o tratamento deve seguir uma hierarquia.
O HILT é indicado para a fascite plantar crônica refratária, definida como a dor que persiste por mais de 3 a 6 meses, apesar da adesão rigorosa aos tratamentos conservadores.
| Linha de Tratamento | Terapias (Exemplos) | Duração Típica |
|---|---|---|
| 1ª Linha (Conservador Inicial) | Repouso relativo, gelo, anti-inflamatórios (curto prazo), alongamento da fáscia e do tendão de Aquiles. | 0-3 meses |
| 2ª Linha (Conservador Avançado) | Fisioterapia formal (com exercícios excêntricos), palmilhas personalizadas, talas noturnas. | 3-6 meses |
| 3ª Linha (Casos Refratários) | Terapia por Ondas de Choque (TOC), Infiltrações (corticoides ou PRP, com cautela). | Após 6 meses de falha |
| 4ª Linha (Recurso Final) | Cirurgia (liberação da fáscia plantar). | Raramente necessária |
O que Esperar Durante uma Sessão de Ondas de Choque
O procedimento é realizado no consultório, é relativamente rápido e não requer preparo especial.
A Sessão Típica: Passo a Passo
O terapeuta localiza o ponto exato de maior dor na fáscia plantar através da palpação.
Um gel (similar ao de ultrassom) é aplicado na pele para garantir que as ondas de pressão sejam transmitidas eficientemente.
O aplicador é pressionado contra a pele no ponto de dor. O dispositivo é ativado, emitindo “cliques” ou “batidas” rítmicas. O terapeuta pode mover o aplicador pela área.
A aplicação em si dura de 5 a 10 minutos, durante os quais um número específico de “disparos” (geralmente 2.000 a 3.000) é administrado.
O gel é limpo. Não há tempo de inatividade (downtime); o paciente pode calçar o sapato e sair andando.
Dói Fazer Ondas de Choque?
A sensação é de um desconforto ou dor tolerável. A intensidade é ajustada pelo terapeuta com base no feedback do paciente. A maioria dos pacientes relata um alívio imediato (analgesia pós-estímulo) logo após a sessão, embora um leve dolorimento possa surgir algumas horas depois, o que é normal.
Um protocolo padrão para fascite plantar crônica geralmente envolve de 3 a 5 sessões, realizadas com intervalo de 1 semana entre elas.
Benefícios, Riscos e Contraindicações
Vantagens Principais
A Terapia por Ondas de Choque ganhou popularidade para a fascite crônica devido aos seus múltiplos benefícios em comparação com opções mais invasivas.
ALTA TAXA DE SUCESSO
Estudos mostram taxas de sucesso (melhora significativa da dor e função) entre 70% e 85% para casos crônicos que falharam em outros tratamentos.
NÃO INVASIVO E SEGURO
Sem agulhas, sem cirurgia, sem anestesia geral. Os riscos de complicações graves são extremamente baixos.
SEM TEMPO DE PARADA
O paciente retorna às atividades diárias imediatamente. Recomenda-se apenas evitar atividades de alto impacto (correr) por 24-48 horas.
Riscos e Contraindicações
A TOC é muito segura. Os efeitos colaterais são raros, leves e temporários, podendo incluir:
- Pequenos hematomas (equimoses) no local.
- Vermelhidão e inchaço leve.
- Dor temporária ou sensibilidade aumentada por 1-2 dias.
No entanto, existem contraindicações absolutas que devem ser respeitadas.
Checklist de Segurança: NÃO FAÇA Ondas de Choque Se Você…
- Estiver grávida (não se aplica perto do feto).
- Tiver um distúrbio de coagulação do sangue (coagulopatia) ou usar anticoagulantes fortes (ex: Varfarina).
- Tiver um tumor (câncer) ativo na área de tratamento.
- Tiver uma infecção ativa (ex: osteomielite) ou ferida aberta no local.
- Tiver um marca-passo (especialmente para ondas focais; radial é mais seguro, mas requer cautela).
- Tiver recebido uma injeção de cortisona no local nas últimas 6 semanas.
Conclusão: Uma Solução Eficaz para a Dor Crônica
A Terapia por Ondas de Choque revolucionou o tratamento da fascite plantar crônica. Ela não é uma solução mágica nem a primeira opção, mas sim uma ferramenta poderosa e baseada em evidências para pacientes que sofrem há meses sem alívio.
Ao mudar o foco da simples supressão da dor para a regeneração biológica, as ondas de choque “reiniciam” o processo de cura do corpo. Se você sofre de dor no calcanhar há mais de 6 meses e já tentou os tratamentos conservadores sem sucesso, converse com seu médico sobre se a Terapia por Ondas de Choque é a opção certa para você.
Perguntas Frequentes (FAQ) sobre Ondas de Choque
1. As ondas de choque vão “quebrar o meu esporão”?
Não. Este é o mito mais comum. O tratamento é direcionado à fáscia plantar (tecido mole) e não ao esporão (osso). O esporão não é a causa da dor e não precisa ser removido para que a dor desapareça.
2. O tratamento dói? Preciso de anestesia?
Para ondas de choque radiais (as mais comuns para fascite), o tratamento é desconfortável, mas tolerável, e não requer anestesia. Para ondas focais de alta energia, uma anestesia local pode ser usada, mas isso é menos comum hoje em dia para esta condição.
3. Quantas sessões são necessárias?
Para a fascite plantar crônica, o protocolo mais comum envolve de 3 a 5 sessões. As sessões são realizadas com um intervalo de 5 a 10 dias entre elas.
4. Quando vou sentir a melhora?
O efeito é cumulativo e biológico, não imediato. Alguns pacientes sentem alívio analgésico logo após a sessão, mas a cura do colágeno leva tempo. A melhora máxima é geralmente observada de 4 a 12 semanas *após* o término da última sessão.
5. Ondas de choque é o mesmo que ultrassom terapêutico?
Não. Embora ambos usem ondas acústicas, a energia é vastamente diferente. As ondas de choque têm uma pressão e velocidade muito mais altas e um mecanismo de ação completamente distinto (regenerativo) em comparação com o ultrassom (principalmente térmico).
6. O plano de saúde cobre o tratamento?
No Brasil, a cobertura é variável. Muitos planos de saúde ainda consideram um procedimento de custo elevado ou fora do rol da ANS, exigindo reembolso ou pagamento particular. Verifique diretamente com seu convênio e médico.
7. O que devo fazer depois da sessão?
Recomenda-se evitar atividades de alto impacto (correr, pular) por 48 horas para permitir que o processo inflamatório curativo comece. Gelo não é recomendado, pois pode interferir nessa resposta biológica desejada.
8. Por que não posso fazer se tomei uma injeção de cortisona?
A cortisona (corticoide) é um potente anti-inflamatório que pode suprimir o sistema imunológico local e enfraquecer o tecido temporariamente. Aplicar ondas de choque logo depois pode aumentar o risco de ruptura da fáscia. É preciso esperar de 4 a 6 semanas.
9. Ondas de choque é o mesmo que laser de alta intensidade (HILT)?
Não. São tecnologias totalmente diferentes. O HILT usa energia luminosa (luz) para estimular a célula (fotobiomodulação). As ondas de choque usam energia acústica (pressão) para criar microtrauma e estimular a regeneração. Ambas são eficazes, mas com mecanismos distintos.
10. O tratamento resolve o problema para sempre?
O HILT tem altas taxas de sucesso para curar o tecido lesionado. No entanto, se a causa raiz da fascite (ex: sobrepeso, tipo de pisada, fraqueza muscular, calçado inadequado) não for corrigida, a fascite pode retornar. O tratamento deve ser combinado com fisioterapia e correção dos fatores de risco.
11. Posso fazer ondas de choque para dor aguda no calcanhar?
Não é a indicação principal. As ondas de choque são mais eficazes em condições crônicas e degenerativas (fasciose). Para dor aguda, os tratamentos conservadores (gelo, repouso, anti-inflamatórios) são a primeira escolha.
Médico especialista em Dor e Fisiatria pela USP. Área de Atuação em Dor pela Associação Médica Brasileira. Doutorado em Ciências pela Universidade de São Paulo. Professor e Colaborador do Grupo de Dor do Hospital das Clínicas da USP.