Terapia por Ondas de Choque para Fascite Plantar

novembro 16, 2025
escrito por: Dr. Marcus Yu Bin Pai

Médico Fisiatra e Especialista em Dor pela AMB. Doutorado em Ciências pela USP.

O Desafio da Fascite Plantar: Dor a Cada Passo

A fascite plantar é uma das causas mais comuns e frustrantes de dor no calcanhar. Caracteriza-se por uma dor aguda, frequentemente descrita como uma “pontada” ou “facada” na sola do pé, perto do calcanhar. O sintoma clássico é a dor intensa nos primeiros passos pela manhã ou após um período de repouso, que pode diminuir com o movimento, mas retornar ao final do dia ou após atividades prolongadas.

Para milhões de pessoas, essa condição crônica afeta profundamente a qualidade de vida, limitando atividades esportivas, lazer e até mesmo a capacidade de andar confortavelmente. O tratamento inicial, focado em medidas conservadoras, é a primeira linha de defesa.

No entanto, quando a dor persiste por meses a despeito de alongamentos, palmilhas e fisioterapia, ela é classificada como fascite plantar crônica refratária. É nesse cenário desafiador que a Terapia por Ondas de Choque (TOC), também conhecida pela sigla em inglês ESWT (Extracorporeal Shock Wave Therapy), surge como uma solução moderna, não invasiva e com sólida base de evidências científicas.

Entendendo a Fascite Plantar: Inflamação ou Degeneração?

A fáscia plantar é uma faixa espessa de tecido (semelhante a um ligamento) que se estende do osso do calcanhar (calcâneo) até os dedos, formando o arco do pé. Ela atua como um amortecedor e é crucial para o mecanismo da caminhada.

A “fascite” (com o sufixo “-ite”) sugere inflamação. Contudo, pesquisas modernas em biópsias de tecido de pacientes com dor crônica mostram que a inflamação aguda (células inflamatórias) é rara. O que realmente ocorre é um processo de degeneração e desorganização do colágeno, com micro-rupturas e um processo de cicatrização falho. Por isso, muitos especialistas preferem o termo “fasciose plantar” para casos crônicos.

Dica do Especialista: Fascite vs. Fasciose

Compreender essa diferença é crucial. A fascite aguda (inflamatória) pode responder bem a gelo e anti-inflamatórios. A fasciose crônica (degenerativa), onde o tecido está doente e desorganizado, não responde. A terapia por ondas de choque não é apenas um anti-inflamatório; seu objetivo principal é “quebrar” esse ciclo crônico e induzir um novo processo de regeneração e cura no tecido degenerado.

O famoso “esporão do calcâneo” é frequentemente visto em exames de raio-X de pacientes com fascite plantar, mas raramente é a causa da dor. O esporão é uma calcificação que se forma em resposta à tração crônica da fáscia, mas a dor vem do tecido mole (a fáscia), não do osso em si.

O que é a Terapia por Ondas de Choque (TOC)?

Primeiro, é vital dissipar um mito comum: a Terapia por Ondas de Choque não é um choque elétrico. O tratamento utiliza ondas acústicas (sonoras) de alta pressão e alta velocidade. Essas ondas são geradas externamente (extracorpóreas) e direcionadas para o tecido lesionado.

Originalmente desenvolvida na década de 1980 para quebrar pedras nos rins (litotripsia), os médicos observaram que os tecidos ao redor das áreas tratadas apresentavam aumento da circulação e regeneração óssea. Isso levou à pesquisa e adaptação da tecnologia para o sistema musculoesquelético.

Tipos de Ondas de Choque: Radial vs. Focal

Existem dois tipos principais de aplicadores de ondas de choque, e eles funcionam de maneiras diferentes:

Tabela 1: Comparação entre Ondas de Choque Radiais e Focais
Característica Ondas de Choque Radiais (RPW) Ondas de Choque Focais (ESWTf)
Mecanismo Onda de pressão que se dissipa (espalha) superficialmente. Onda acústica verdadeira, converge para um ponto profundo e preciso.
Profundidade Mais superficial (ideal para fáscia plantar). Mais profunda (ideal para tecidos profundos ou ossos).
Sensação Desconfortável, mas geralmente bem tolerada. Não requer anestesia. Pode ser mais dolorosa, às vezes necessitando de anestesia local.
Uso Comum (PF) Muito comum e eficaz para a fáscia plantar e tendões superficiais. Também eficaz, usada em casos específicos ou quando se suspeita de lesão óssea.

Para a fascite plantar, ambas as modalidades são eficazes, sendo as ondas radiais a escolha mais frequente em clínicas de fisiatria e medicina esportiva devido à sua eficácia e maior conforto para o paciente.

Como as Ondas de Choque Curam a Fascite Plantar?

As ondas de choque não “quebram” o esporão, como muitos pensam. O mecanismo é biológico e regenerativo. Ao aplicar as ondas de pressão no tecido doente, o corpo responde com uma cascata de reações curativas:

Mecanismos de Ação da Terapia por Ondas de Choque

1. Efeito Analgésico Imediato

A hiperestimulação dos nervos da dor bloqueia o envio de sinais ao cérebro (Teoria do Portão) e causa a depleção da “Substância P”, um neurotransmissor da dor.

2. Neovascularização (Novos Vasos Sanguíneos)

As ondas estimulam a formação de novos e minúsculos vasos sanguíneos (angiogênese) na área, aumentando o aporte de oxigênio e nutrientes essenciais para o reparo.

3. Estímulo à Regeneração Tecidual

As ondas “acordam” o tecido crônico, estimulando a atividade dos fibroblastos – células responsáveis pela produção de novo colágeno, o “tijolo” de um tecido saudável.

4. Modulação Inflamatória Crônica

A terapia transforma o processo crônico e degenerativo (fasciose) em uma resposta de cura aguda e controlada, “reiniciando” o processo de cicatrização do corpo.

Quando as Ondas de Choque São Indicadas?

Este é o ponto mais importante: a Terapia por Ondas de Choque não é um tratamento de primeira linha. Diretrizes clínicas internacionais, como as do NICE (Reino Unido) e da Academia Americana de Cirurgiões Ortopédicos (AAOS), são claras: o tratamento deve seguir uma hierarquia.

O HILT é indicado para a fascite plantar crônica refratária, definida como a dor que persiste por mais de 3 a 6 meses, apesar da adesão rigorosa aos tratamentos conservadores.

Tabela 2: A Hierarquia do Tratamento da Fascite Plantar
Linha de Tratamento Terapias (Exemplos) Duração Típica
1ª Linha (Conservador Inicial) Repouso relativo, gelo, anti-inflamatórios (curto prazo), alongamento da fáscia e do tendão de Aquiles. 0-3 meses
2ª Linha (Conservador Avançado) Fisioterapia formal (com exercícios excêntricos), palmilhas personalizadas, talas noturnas. 3-6 meses
3ª Linha (Casos Refratários) Terapia por Ondas de Choque (TOC), Infiltrações (corticoides ou PRP, com cautela). Após 6 meses de falha
4ª Linha (Recurso Final) Cirurgia (liberação da fáscia plantar). Raramente necessária

O que Esperar Durante uma Sessão de Ondas de Choque

O procedimento é realizado no consultório, é relativamente rápido e não requer preparo especial.

A Sessão Típica: Passo a Passo

Passo 1: Avaliação
O terapeuta localiza o ponto exato de maior dor na fáscia plantar através da palpação.
Passo 2: Gel Condutor
Um gel (similar ao de ultrassom) é aplicado na pele para garantir que as ondas de pressão sejam transmitidas eficientemente.
Passo 3: Aplicação
O aplicador é pressionado contra a pele no ponto de dor. O dispositivo é ativado, emitindo “cliques” ou “batidas” rítmicas. O terapeuta pode mover o aplicador pela área.
Passo 4: Duração
A aplicação em si dura de 5 a 10 minutos, durante os quais um número específico de “disparos” (geralmente 2.000 a 3.000) é administrado.
Passo 5: Conclusão
O gel é limpo. Não há tempo de inatividade (downtime); o paciente pode calçar o sapato e sair andando.

Dói Fazer Ondas de Choque?

A sensação é de um desconforto ou dor tolerável. A intensidade é ajustada pelo terapeuta com base no feedback do paciente. A maioria dos pacientes relata um alívio imediato (analgesia pós-estímulo) logo após a sessão, embora um leve dolorimento possa surgir algumas horas depois, o que é normal.

Um protocolo padrão para fascite plantar crônica geralmente envolve de 3 a 5 sessões, realizadas com intervalo de 1 semana entre elas.

Benefícios, Riscos e Contraindicações

Vantagens Principais

A Terapia por Ondas de Choque ganhou popularidade para a fascite crônica devido aos seus múltiplos benefícios em comparação com opções mais invasivas.

ALTA TAXA DE SUCESSO

Estudos mostram taxas de sucesso (melhora significativa da dor e função) entre 70% e 85% para casos crônicos que falharam em outros tratamentos.

NÃO INVASIVO E SEGURO

Sem agulhas, sem cirurgia, sem anestesia geral. Os riscos de complicações graves são extremamente baixos.

SEM TEMPO DE PARADA

O paciente retorna às atividades diárias imediatamente. Recomenda-se apenas evitar atividades de alto impacto (correr) por 24-48 horas.

Riscos e Contraindicações

A TOC é muito segura. Os efeitos colaterais são raros, leves e temporários, podendo incluir:

  • Pequenos hematomas (equimoses) no local.
  • Vermelhidão e inchaço leve.
  • Dor temporária ou sensibilidade aumentada por 1-2 dias.

No entanto, existem contraindicações absolutas que devem ser respeitadas.

Checklist de Segurança: NÃO FAÇA Ondas de Choque Se Você…

  • Estiver grávida (não se aplica perto do feto).
  • Tiver um distúrbio de coagulação do sangue (coagulopatia) ou usar anticoagulantes fortes (ex: Varfarina).
  • Tiver um tumor (câncer) ativo na área de tratamento.
  • Tiver uma infecção ativa (ex: osteomielite) ou ferida aberta no local.
  • Tiver um marca-passo (especialmente para ondas focais; radial é mais seguro, mas requer cautela).
  • Tiver recebido uma injeção de cortisona no local nas últimas 6 semanas.

Conclusão: Uma Solução Eficaz para a Dor Crônica

A Terapia por Ondas de Choque revolucionou o tratamento da fascite plantar crônica. Ela não é uma solução mágica nem a primeira opção, mas sim uma ferramenta poderosa e baseada em evidências para pacientes que sofrem há meses sem alívio.

Ao mudar o foco da simples supressão da dor para a regeneração biológica, as ondas de choque “reiniciam” o processo de cura do corpo. Se você sofre de dor no calcanhar há mais de 6 meses e já tentou os tratamentos conservadores sem sucesso, converse com seu médico sobre se a Terapia por Ondas de Choque é a opção certa para você.

Perguntas Frequentes (FAQ) sobre Ondas de Choque

1. As ondas de choque vão “quebrar o meu esporão”?

Não. Este é o mito mais comum. O tratamento é direcionado à fáscia plantar (tecido mole) e não ao esporão (osso). O esporão não é a causa da dor e não precisa ser removido para que a dor desapareça.

2. O tratamento dói? Preciso de anestesia?

Para ondas de choque radiais (as mais comuns para fascite), o tratamento é desconfortável, mas tolerável, e não requer anestesia. Para ondas focais de alta energia, uma anestesia local pode ser usada, mas isso é menos comum hoje em dia para esta condição.

3. Quantas sessões são necessárias?

Para a fascite plantar crônica, o protocolo mais comum envolve de 3 a 5 sessões. As sessões são realizadas com um intervalo de 5 a 10 dias entre elas.

4. Quando vou sentir a melhora?

O efeito é cumulativo e biológico, não imediato. Alguns pacientes sentem alívio analgésico logo após a sessão, mas a cura do colágeno leva tempo. A melhora máxima é geralmente observada de 4 a 12 semanas *após* o término da última sessão.

5. Ondas de choque é o mesmo que ultrassom terapêutico?

Não. Embora ambos usem ondas acústicas, a energia é vastamente diferente. As ondas de choque têm uma pressão e velocidade muito mais altas e um mecanismo de ação completamente distinto (regenerativo) em comparação com o ultrassom (principalmente térmico).

6. O plano de saúde cobre o tratamento?

No Brasil, a cobertura é variável. Muitos planos de saúde ainda consideram um procedimento de custo elevado ou fora do rol da ANS, exigindo reembolso ou pagamento particular. Verifique diretamente com seu convênio e médico.

7. O que devo fazer depois da sessão?

Recomenda-se evitar atividades de alto impacto (correr, pular) por 48 horas para permitir que o processo inflamatório curativo comece. Gelo não é recomendado, pois pode interferir nessa resposta biológica desejada.

8. Por que não posso fazer se tomei uma injeção de cortisona?

A cortisona (corticoide) é um potente anti-inflamatório que pode suprimir o sistema imunológico local e enfraquecer o tecido temporariamente. Aplicar ondas de choque logo depois pode aumentar o risco de ruptura da fáscia. É preciso esperar de 4 a 6 semanas.

9. Ondas de choque é o mesmo que laser de alta intensidade (HILT)?

Não. São tecnologias totalmente diferentes. O HILT usa energia luminosa (luz) para estimular a célula (fotobiomodulação). As ondas de choque usam energia acústica (pressão) para criar microtrauma e estimular a regeneração. Ambas são eficazes, mas com mecanismos distintos.

10. O tratamento resolve o problema para sempre?

O HILT tem altas taxas de sucesso para curar o tecido lesionado. No entanto, se a causa raiz da fascite (ex: sobrepeso, tipo de pisada, fraqueza muscular, calçado inadequado) não for corrigida, a fascite pode retornar. O tratamento deve ser combinado com fisioterapia e correção dos fatores de risco.

11. Posso fazer ondas de choque para dor aguda no calcanhar?

Não é a indicação principal. As ondas de choque são mais eficazes em condições crônicas e degenerativas (fasciose). Para dor aguda, os tratamentos conservadores (gelo, repouso, anti-inflamatórios) são a primeira escolha.

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Médico especialista em Dor e Fisiatria pela USP. Área de Atuação em Dor pela Associação Médica Brasileira. Doutorado em Ciências pela Universidade de São Paulo. Professor e Colaborador do Grupo de Dor do Hospital das Clínicas da USP.