Terapia por Ondas de Choque para Dor Miofascial

novembro 16, 2025
escrito por: Dr. Marcus Yu Bin Pai

Médico Fisiatra e Especialista em Dor pela AMB. Doutorado em Ciências pela USP.

O que é a Síndrome Dolorosa Miofascial?

Quase todos já sentiram “nós” musculares dolorosos, especialmente em regiões como pescoço, ombros e costas. No entanto, quando essa dor se torna crônica, persistente e começa a irradiar para outras áreas, podemos estar diante da Síndrome Dolorosa Miofascial (SDM).

A característica central da SDM é a presença de pontos-gatilho (PG) ou trigger points. Estes não são apenas músculos tensos; são pequenas áreas de contração muscular intensa e localizada (bandas tensas) que se tornam hipersensíveis. Um ponto-gatilho é disfuncional: ele está “preso” em um estado de contração, o que comprime os vasos sanguíneos locais, reduzindo o oxigênio e acumulando resíduos metabólicos. Isso perpetua um ciclo de dor e disfunção.

O mais frustrante é que os pontos-gatilho podem causar dor referida – dor sentida em um local diferente de onde o ponto está. Um ponto-gatilho no ombro, por exemplo, pode causar dor de cabeça. Um ponto no glúteo pode simular uma dor ciática na perna.

Quando alongamentos, massagens, fisioterapia e agulhamento seco (dry needling) não conseguem resolver esses pontos-gatilho crônicos, a Terapia por Ondas de Choque (TOC) surge como uma poderosa ferramenta não invasiva.

O que é a Terapia por Ondas de Choque (TOC)?

Primeiro, é essencial esclarecer: a Terapia por Ondas de Choque não é um choque elétrico, como o TENS da fisioterapia. O tratamento utiliza ondas acústicas (sonoras) de alta pressão e alta velocidade. Pense nelas como micro-impulsos mecânicos que penetram no tecido.

Existem dois tipos principais de ondas de choque, mas para a dor miofascial, a mais utilizada é a Terapia por Ondas de Choque Radiais (RPW – Radial Pressure Waves).

Ondas de Choque Radiais (RPW) – Ideais para Músculo

São geradas pneumaticamente (como um pequeno martelo) e se espalham (divergem) ao entrar no tecido. Elas são excelentes para tratar áreas mais amplas e superficiais, como os músculos do trapézio, costas e glúteos, onde os pontos-gatilho residem.

Ondas de Choque Focais (ESWTf) – Para Tecidos Profundos

São geradas para convergir em um único ponto profundo. São mais usadas para tendinites calcificadas, fascite plantar ou fraturas que não consolidam (pseudoartrose).

Neste artigo, quando falarmos em TOC para dor miofascial, estaremos nos referindo primariamente às ondas de choque radiais (RPW).

Como as Ondas de Choque Atuam no Ponto-Gatilho?

A eficácia das ondas de choque na dor miofascial não vem de um único fator, mas de uma combinação de efeitos mecânicos e biológicos que “reiniciam” o tecido disfuncional.

Os 3 Efeitos Principais no Ponto-Gatilho

1. AÇÃO MECÂNICA E RELAXANTE

Os impulsos de pressão atuam como uma “micromassagem” profunda e intensa, quebrando mecanicamente a tensão das fibras musculares contraídas (banda tensa) e restaurando sua elasticidade.

2. AÇÃO NEUROLÓGICA (ANALGESIA)

A hiperestimulação causada pelas ondas “inunda” os nervos locais, bloqueando a transmissão de sinais de dor para o cérebro (Teoria do Portão). Também ajuda a depletar a “Substância P”, um neurotransmissor chave da dor crônica.

3. AÇÃO VASCULAR E METABÓLICA

As ondas estimulam uma hiperemia (aumento intenso do fluxo sanguíneo) na área. Isso “lava” os resíduos metabólicos e irritantes (como ácido lático) que estavam presos no ponto-gatilho, trazendo novo oxigênio e nutrientes.

Quando as Ondas de Choque são Indicadas para Dor Miofascial?

A TOC não é um tratamento de primeira linha para um simples “nó” muscular. Ela é reservada para a Síndrome Dolorosa Miofascial crônica e refratária – ou seja, quando a dor persiste por mais de 3 meses e não respondeu adequadamente a outras terapias.

As áreas mais comumente tratadas com sucesso incluem:

  • Região Cervical e Trapézio: Causa comum de dor no pescoço, ombros e dores de cabeça tensionais.
  • Região Lombar: Especialmente nos músculos quadrado lombar e paravertebrais, contribuindo para a dor lombar crônica.
  • Glúteos (Síndrome do Piriforme): Pontos-gatilho no glúteo podem imitar a dor do nervo ciático, irradiando para a perna.
  • Ombros (Manguito Rotador): Pontos-gatilho nos músculos do manguito podem ser a causa da dor que não melhora, mesmo com tendões saudáveis.
Tabela 1: Hierarquia de Tratamento da Dor Miofascial Crônica
Linha de Tratamento Terapias (Exemplos) Objetivo
1ª Linha (Autocuidado) Alongamento, calor/frio, rolo de liberação, correção postural. Alívio inicial e prevenção.
2ª Linha (Terapia Manual) Fisioterapia, massagem terapêutica, liberação miofascial manual. Desativação manual e reeducação.
3ª Linha (Invasivo / Avançado) Agulhamento Seco (Dry Needling), Infiltração de anestésico. Desativação precisa do ponto-gatilho.
4ª Linha (Refratário) Terapia por Ondas de Choque (TOC), Toxina Botulínica. Quebrar o ciclo crônico quando outros falharam.

Ondas de Choque vs. Agulhamento Seco (Dry Needling)

O Agulhamento Seco é frequentemente considerado o padrão-ouro para desativar um ponto-gatilho específico. Como as Ondas de Choque se comparam?

Ambos são eficazes, mas funcionam de maneiras diferentes e são indicados em situações distintas. O agulhamento é invasivo e focal; ele busca o “espasmo local” (twitch response) ao perfurar o ponto-gatilho com uma agulha fina. As ondas de choque são não invasivas e amplas, cobrindo uma área maior.

Nota do Especialista: O Melhor de Dois Mundos

Não se trata de uma terapia ser “melhor” que a outra. Muitas vezes, elas são complementares. O agulhamento pode ser excelente para desativar o “epicentro” da dor, enquanto as ondas de choque podem tratar a banda tensa inteira e os músculos satélites ao redor. A TOC também é uma alternativa fantástica para pacientes com fobia de agulhas (belonofobia).

Tabela 2: Comparativo: Ondas de Choque vs. Agulhamento Seco
Característica Ondas de Choque (Radial) Agulhamento Seco (Dry Needling)
Invasividade Não invasivo (aplicado sobre a pele) Invasivo (agulha perfura a pele)
Área de Ação Ampla (ex: 3-5 cm de diâmetro) Altamente precisa (ponto exato)
Sensação Desconforto, “batidas”, “marteladas” Dor da picada, “espasmo muscular” (twitch)
Risco de Hematoma Leve a moderado (vermelhidão/petéquias) Leve a moderado (hematoma local)
Principal Indicação Dor crônica, músculos grandes (costas, glúteos), fobia de agulhas. Pontos-gatilho muito específicos, profundos ou em áreas delicadas.

Como é uma Sessão para Dor Miofascial?

O tratamento é rápido, realizado no consultório e não requer preparo especial, exceto evitar o uso de anti-inflamatórios no dia.

A Sessão Típica: Passo a Passo

Passo 1: Localização
O profissional (médico) palpa o músculo para encontrar o ponto-gatilho exato e a banda tensa. Esta palpação pode reproduzir a dor do paciente.
Passo 2: Aplicação de Gel
Um gel condutor (como o de ultrassom) é aplicado na pele para garantir que as ondas acústicas sejam transmitidas sem perda de energia.
Passo 3: Terapia (Aplicação)
O profissional encosta o aplicador na pele e inicia o dispositivo. O paciente sentirá “batidas” ou “marteladas” rítmicas. O terapeuta move o aplicador sobre a área dolorosa. A sensação é desconfortável, mas tolerável, e costuma diminuir à medida que o músculo relaxa.
Passo 4: Pós-Sessão
A aplicação dura de 5 a 10 minutos. Ao final, a área pode ficar avermelhada (hiperemia) e o paciente geralmente sente um alívio imediato da dor e um aumento da amplitude de movimento.

Um protocolo padrão para dor miofascial crônica envolve de 3 a 5 sessões, com intervalo de uma semana entre elas. É crucial combinar o tratamento com um programa de exercícios e alongamentos, pois as ondas de choque criam uma “janela de oportunidade” onde o músculo está relaxado e receptivo à reabilitação.

Segurança, Vantagens e Contraindicações

A TOC é um procedimento muito seguro quando realizado por um profissional treinado. As vantagens são claras: é não invasivo, não usa medicamentos e não tem tempo de inatividade (downtime).

Os efeitos colaterais são leves e passageiros, podendo incluir vermelhidão, pequenos hematomas ou petéquias, e uma sensação de dolorimento na área (como após um treino intenso) por 24 a 48 horas. Isso é um sinal da resposta curativa do corpo.

Checklist de Segurança: NÃO FAÇA Ondas de Choque Se Você…

Existem contraindicações absolutas que impedem o tratamento:

  • Estiver grávida (não se aplica sobre o abdômen ou pelve).
  • Tiver distúrbios de coagulação ou usar anticoagulantes potentes (ex: Varfarina, Xarelto).
  • Tiver um tumor (câncer) ou infecção ativa na área de tratamento.
  • Tiver um marca-passo (se a aplicação for muito próxima).
  • For aplicar sobre áreas delicadas, como grandes vasos do pescoço, ou sobre os pulmões.

Conclusão: Uma Ferramenta Moderna para Quebrar o Ciclo da Dor

A Terapia por Ondas de Choque Radiais é uma das opções mais eficazes e modernas para o tratamento da Síndrome Dolorosa Miofascial crônica que não respondeu às terapias convencionais. Ela não trata apenas o sintoma (a dor), mas atua na causa física (o ponto-gatilho e a banda tensa), relaxando o músculo e restaurando a circulação.

Se você sofre com “nós” musculares persistentes, dor que irradia e que limita sua vida, e já tentou de tudo, converse com seu médico fisiatra sobre a Terapia por Ondas de Choque. Ela pode ser a ferramenta que faltava para “desarmar” sua dor e permitir que você retome a reabilitação funcional.

Perguntas Frequentes (FAQ): Ondas de Choque e Dor Miofascial

1. Ondas de choque é o mesmo que o “choquinho” (TENS) da fisioterapia?

Não. O TENS é um estímulo elétrico de baixa intensidade que visa “enganar” o nervo para reduzir a dor (analgesia). As ondas de choque são ondas acústicas (pressão) de alta energia que causam um efeito mecânico e biológico de reparo no tecido.

2. O tratamento dói?

O tratamento é aplicado sobre o ponto-gatilho, que já é doloroso, por isso é desconfortável. A sensação é de “batidas” ou “marteladas” no local. A boa notícia é que a intensidade é ajustável e a sessão é muito rápida (5-10 minutos).

3. Quantas sessões são necessárias para dor miofascial?

Para dor miofascial crônica, o protocolo mais comum é de 3 a 5 sessões. Elas são realizadas com um intervalo de 1 semana entre cada uma.

4. O alívio é imediato?

Muitos pacientes relatam um alívio imediato da dor e um ganho de mobilidade logo após a sessão (devido ao efeito analgésico). No entanto, a melhora biológica e o relaxamento duradouro do músculo são cumulativos e percebidos ao longo das semanas de tratamento.

5. Ondas de choque substituem o agulhamento seco?

Não necessariamente, são ferramentas diferentes. O agulhamento é melhor para um ponto-gatilho muito específico e profundo. As ondas de choque são excelentes para áreas maiores, bandas tensas extensas (como no trapézio ou lombar) e para pacientes com fobia de agulhas.

6. Posso fazer TOC para um torcicolo agudo?

Geralmente não é a primeira escolha. A TOC é mais indicada para condições crônicas (fasciose). Em um torcicolo agudo (inflamatório), o tratamento pode ser muito doloroso e pode até piorar a inflamação. Terapias mais suaves são preferidas na fase aguda.

7. O plano de saúde cobre o tratamento?

A cobertura no Brasil é variável e muitas vezes restrita. Embora a terapia por ondas de choque esteja no rol da ANS para algumas condições (como fascite plantar), a cobertura para dor miofascial é menos comum. Verifique diretamente com seu convênio.

8. Posso ficar com hematoma?

Sim, é comum a área ficar avermelhada (hiperemia) ou com pequenas “pintinhas” vermelhas (petéquias). Um pequeno hematoma pode ocorrer, mas é superficial e desaparece em poucos dias. É uma reação esperada da pressão mecânica.

9. Ondas de choque é o mesmo que Laser de Alta Intensidade (HILT)?

Não. São tecnologias opostas, embora ambas tratem a dor. O HILT usa energia luminosa (luz) para estimular a biologia celular (fotobiomodulação). As ondas de choque usam energia acústica (pressão) para um efeito mecânico e regenerativo.

10. Por que meu músculo fica dolorido no dia seguinte?

Isso é normal e esperado. As ondas de choque causam uma “microlesão” controlada para estimular o corpo a enviar sangue e fatores de cura para a área crônica. A sensação é semelhante à dor muscular após um treino muito intenso e deve passar em 24-48 horas.

11. Posso fazer ondas de choque no pescoço?

Sim, mas com extremo cuidado. A aplicação é feita com segurança nos músculos posteriores e laterais (como trapézio e elevador da escápula). O profissional deve evitar a parte da frente do pescoço (onde passam grandes artérias e nervos) e a região sobre os pulmões.

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Médico especialista em Dor e Fisiatria pela USP. Área de Atuação em Dor pela Associação Médica Brasileira. Doutorado em Ciências pela Universidade de São Paulo. Professor e Colaborador do Grupo de Dor do Hospital das Clínicas da USP.