Síndrome do Desfiladeiro Torácico – Causa comum de Dor Cervical e nos Braços

novembro 28, 2025
escrito por: Dr. Marcus Yu Bin Pai

Médico Fisiatra e Especialista em Dor pela AMB. Doutorado em Ciências pela USP.

O Que é a Síndrome do Desfiladeiro Torácico?

A Síndrome do Desfiladeiro Torácico (SDT) é um termo coletivo utilizado para descrever um grupo de desordens que ocorrem quando há uma compressão dos nervos ou vasos sanguíneos na região do “desfiladeiro torácico”. Esta área anatômica é o espaço localizado entre a clavícula e a primeira costela, por onde passam estruturas vitais como o plexo braquial (rede de nervos), a artéria subclávia e a veia subclávia.

Quando essas estruturas sofrem pressão excessiva, o paciente pode experimentar uma variedade de sintomas que afetam o pescoço, ombros, braços e mãos. A condição é frequentemente subdiagnosticada devido à complexidade de seus sintomas, que podem mimetizar outras patologias musculoesqueléticas, como hérnias discais cervicais ou síndrome do túnel do carpo.

Dados Clínicos Relevantes

95% dos Casos
São de origem neurogênica (compressão de nervos), sendo a forma vascular muito mais rara.

Faixa Etária
Mais comum entre 20 e 50 anos, afetando frequentemente adultos ativos.

Prevalência
Mulheres são até 3 vezes mais propensas a desenvolver a síndrome do que homens.

Tipos e Classificação da Síndrome

A identificação correta do tipo de síndrome é crucial para o direcionamento do tratamento. A classificação baseia-se na estrutura anatômica que está sendo comprimida.

1. SDT Neurogênica (SDT-N)

Representa a vasta maioria dos diagnósticos. Ocorre devido à compressão do plexo braquial. Os sintomas tendem a ser sensoriais e motores, não vasculares. Geralmente está associada a histórico de trauma cervical (como efeito chicote) ou lesões por esforço repetitivo (LER).

2. SDT Venosa (SDT-V)

Envolve a compressão da veia subclávia. Pode levar à trombose venosa profunda (TVP) do membro superior, condição conhecida como Síndrome de Paget-Schroetter. É comum em atletas que realizam movimentos repetitivos e vigorosos do braço acima da cabeça (nadadores, arremessadores).

3. SDT Arterial (SDT-A)

A forma mais rara e perigosa. Envolve a compressão da artéria subclávia, frequentemente associada a uma anomalia óssea, como uma costela cervical (uma costela extra acima da primeira costela normal). Pode causar isquemia e aneurismas.

O “Triângulo” da Compressão

Triângulo Interescalênico

Entre os músculos escaleno anterior e médio. Local mais comum de compressão nervosa.

Espaço Costoclavicular

Entre a clavícula e a primeira costela. Afeta nervos e vasos.

Espaço Subcoracoide

Abaixo do tendão do peitoral menor. Comum em casos de má postura.

Sintomas e Sinais Clínicos

Os sintomas variam drasticamente dependendo se a compressão é nervosa ou vascular. A dor é o sintoma universal, mas suas características mudam.

Manifestações Neurológicas

  • Parestesia: Sensação de formigamento ou dormência, frequentemente no lado ulnar do braço e mão (dedo mínimo e anelar).
  • Dor Cervical: Dor no pescoço que irradia para o ombro e braço.
  • Fraqueza Muscular: Perda de força na mão (dificuldade de preensão) e atrofia muscular na base do polegar em casos avançados.
  • Dor Noturna: Agravamento dos sintomas ao dormir, especialmente se dormir com os braços elevados.

Manifestações Vasculares

  • Alteração de Cor: A mão pode ficar pálida (falta de sangue arterial) ou cianótica/azulada (congestão venosa).
  • Edema: Inchaço no braço ou mão.
  • Mudança de Temperatura: O membro afetado pode parecer significativamente mais frio que o oposto.
  • Fadiga Precoce: Cansaço rápido no braço ao realizar atividades com ele elevado (ex: pentear o cabelo).
Tabela 1: Diferenciação dos Sintomas por Estrutura Afetada
Estrutura Sintoma Principal Localização da Dor Sinais Visíveis
Plexo Braquial (Nervos) Dor, formigamento, dormência Pescoço, ombro, braço, mão (dedos 4º e 5º) Atrofia muscular (casos graves)
Veia Subclávia Inchaço, peso, dor profunda Todo o membro superior Edema, coloração azulada, veias dilatadas
Artéria Subclávia Dor isquêmica, frio, claudicação Mão e dedos Palidez, pulso fraco ou ausente

Diagnóstico Clínico e Exames

O diagnóstico da SDT é desafiador e eminentemente clínico, ou seja, depende da história do paciente e do exame físico realizado por um médico especialista (geralmente cirurgião vascular, ortopedista ou neurologista).

Manobras provocativas são fundamentais. O médico pode solicitar que o paciente realize movimentos específicos (como o Teste de Adson ou o Teste de Roos/Candelabro) para tentar reproduzir os sintomas ou verificar o desaparecimento do pulso radial.

Exames complementares são usados para confirmar a suspeita e descartar outras causas:

  • Raio-X Cervical: Para identificar costelas cervicais ou anomalias na primeira costela.
  • Ressonância Magnética e Tomografia: Avaliam tecidos moles e relações anatômicas.
  • Eletroneuromiografia: Avalia a condução nervosa para diferenciar de outras neuropatias.
  • Doppler Vascular: Verifica o fluxo sanguíneo nas artérias e veias durante movimentos do braço.

Tratamento Não Cirúrgico: O Padrão Ouro

Para a maioria dos pacientes, especialmente aqueles com SDT neurogênica, o tratamento conservador é a primeira linha de defesa e é eficaz em 60% a 70% dos casos. A cirurgia é reservada para falhas no tratamento conservador ou casos vasculares agudos.

Pilares do Tratamento Conservador

  • 1. Reabilitação Física: Foco no alongamento dos músculos escalenos e peitoral menor, além do fortalecimento da musculatura escapular.
  • 2. Correção Postural: Ajustes ergonômicos para evitar a projeção dos ombros para frente e da cabeça.
  • 3. Controle da Dor: Uso de analgésicos, anti-inflamatórios e relaxantes musculares sob prescrição médica.
  • 4. Modificação de Atividades: Evitar movimentos repetitivos acima da cabeça e levantamento de peso excessivo.

Abordagem Farmacológica

O médico pode prescrever medicamentos para controlar a fase aguda da dor e inflamação, permitindo que o paciente inicie a reabilitação. Isso pode incluir AINEs (anti-inflamatórios não esteroides), relaxantes musculares para aliviar espasmos no pescoço, e anticonvulsivantes ou antidepressivos em doses analgésicas para dor neuropática crônica.

Fisioterapia Especializada

A fisioterapia é a base da recuperação. O objetivo é abrir o espaço do desfiladeiro torácico. As técnicas incluem:

  • Liberação Miofascial: Para relaxar tecidos tensos ao redor do pescoço e ombro.
  • Exercícios de Deslizamento Neural: Movimentos suaves que ajudam os nervos a deslizarem através de seus trajetos sem ficarem presos ou irritados.
  • Respiração Diafragmática: Ensinar o paciente a respirar usando o diafragma reduz o uso dos músculos acessórios da respiração (escalenos), que quando sobrecarregados, comprimem o feixe neurovascular.
Dica de Especialista

A consistência é mais importante que a intensidade. Exercícios agressivos de pescoço podem piorar os sintomas. A reabilitação deve ser progressiva e indolor. Se um exercício causar formigamento, pare imediatamente e consulte seu fisioterapeuta.

Tabela 2: Sinais de Alerta e Quando Procurar Ajuda Imediata
Sinal / Sintoma O que pode indicar Ação Recomendada
Braço inchado e azulado repentinamente Trombose Venosa Profunda (TVP) Emergência Médica. Risco de embolia pulmonar.
Mão fria, pálida e sem pulso Oclusão Arterial Aguda Emergência Médica. Risco de perda do membro.
Perda progressiva de força na mão Dano neurológico avançado Consulta prioritária com especialista para avaliar cirurgia.
Dor torácica súbita e falta de ar Embolia Pulmonar (secundária à TVP) Ligar para 192/Emergência.

Perguntas Frequentes (FAQ)

Dúvidas Rápidas
A Síndrome do Desfiladeiro Torácico tem cura?

A maioria dos casos não tem uma “cura” instantânea, mas é altamente manejável. Com o tratamento conservador adequado, a maioria dos pacientes consegue eliminar os sintomas e levar uma vida normal sem cirurgia.

Qual a melhor posição para dormir?

Evite dormir com os braços elevados acima da cabeça ou sob o travesseiro. A melhor posição geralmente é de lado, com um travesseiro apoiando a cabeça para manter a coluna cervical neutra e outro travesseiro abraçado na frente do corpo para apoiar o braço superior.

Posso fazer musculação com essa síndrome?

Depende da fase do tratamento. Na fase aguda, deve-se evitar exercícios que sobrecarreguem o trapézio e o pescoço (como desenvolvimento de ombros ou elevação lateral pesada). O retorno deve ser gradual e supervisionado.

Quanto tempo demora o tratamento fisioterapêutico?

Geralmente, observa-se melhora significativa entre 6 a 12 semanas de fisioterapia dedicada e mudanças posturais. Se não houver progresso após 3-4 meses, outras opções podem ser consideradas.

O uso de celular piora a SDT?

Sim. A postura “tech neck” (cabeça baixa olhando para o celular) aumenta a tensão nos músculos escalenos e fecha o espaço do desfiladeiro torácico, podendo agravar os sintomas.

Aplico gelo ou calor?

O calor úmido é geralmente melhor para relaxar a musculatura tensa do pescoço antes dos alongamentos. O gelo pode ser usado se houver inflamação aguda local após atividade intensa.

Stress emocional influencia a dor?

Sim. O stress causa tensão involuntária nos ombros (elevação dos ombros) e altera o padrão respiratório, sobrecarregando os músculos acessórios do pescoço e piorando a compressão.

O que é a costela cervical?

É uma anomalia congênita onde uma costela extra se forma na sétima vértebra cervical (C7). Ela está presente em uma pequena porcentagem da população e é um fator de risco para SDT.

Massagem ajuda?

Sim, a massagem terapêutica focada em soltar os músculos escalenos, peitoral menor e trapézio pode aliviar a compressão temporariamente e auxiliar no tratamento.

Quando a cirurgia é necessária?

A cirurgia (geralmente remoção da primeira costela e liberação muscular) é indicada em casos de SDT arterial ou venosa, ou em SDT neurogênica que falhou completamente ao tratamento conservador e apresenta déficit neurológico progressivo.


Auto-Avaliação Simplificada: Sintomas SDT

Responda às perguntas abaixo para verificar se seus sintomas são compatíveis com a Síndrome do Desfiladeiro Torácico.

Checklist: Ergonomia para Prevenir Dor

Marque os itens à medida que ajusta seu ambiente de trabalho para aliviar a tensão nos ombros.

*Este checklist não substitui avaliação ergonômica profissional.

Timer: Alongamento de Escalenos

Incline a cabeça suavemente para o lado oposto à dor, levando a orelha em direção ao ombro. Mantenha o ombro baixo.

30s

Repita 3x para cada lado.

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Médico especialista em Dor e Fisiatria pela USP. Área de Atuação em Dor pela Associação Médica Brasileira. Doutorado em Ciências pela Universidade de São Paulo. Professor e Colaborador do Grupo de Dor do Hospital das Clínicas da USP.