Síndrome da Dor Regional Complexa (Tipo I e II)

novembro 29, 2025
escrito por: Dr. Marcus Yu Bin Pai

Médico Fisiatra e Especialista em Dor pela AMB. Doutorado em Ciências pela USP.

O Que é a Síndrome da Dor Regional Complexa (SDRC)?

A Síndrome da Dor Regional Complexa (SDRC), anteriormente conhecida como Distrofia Simpático-Reflexa (Tipo I) ou Causalgia (Tipo II), é uma condição de dor crônica neuropática debilitante. Ela é caracterizada por uma dor contínua, intensa e desproporcional à gravidade da lesão inicial. Geralmente afeta uma extremidade (braço, perna, mão ou pé) após um trauma, cirurgia, AVC ou infarto.

A fisiopatologia da SDRC envolve um “curto-circuito” nos sistemas nervosos central e periférico. O corpo continua a enviar sinais de dor de alta intensidade ao cérebro muito tempo depois de a lesão original ter cicatrizado. Além da dor, ocorrem alterações drásticas no sistema nervoso autônomo, resultando em mudanças na cor da pele, temperatura, suor e inchaço na área afetada.

🔍 Entendendo os Dois Tipos

SDRC Tipo I (Distrofia Simpático-Reflexa): Ocorre após uma lesão de tecidos moles (entorse, fratura, imobilização) sem evidência de lesão nervosa direta confirmada. Representa cerca de 90% dos casos.
SDRC Tipo II (Causalgia): Ocorre após uma lesão confirmada em um nervo específico (ex: corte, esmagamento ou cirurgia que afetou um nervo). Os sintomas são similares, mas a causa neurológica é clara.

Sintomas e Manifestações Clínicas

O sintoma cardinal é a dor. Os pacientes descrevem a sensação como “queimação”, “agulhadas”, “pressão esmagadora” ou “choque”. Uma característica fundamental é a alodínia, onde estímulos que normalmente não causariam dor (como o toque de um lençol, vento ou água do chuveiro) tornam-se insuportáveis.

A síndrome geralmente evolui, embora nem todos os pacientes passem claramente por todas as fases descritas historicamente (aguda, distrófica e atrófica). Clinicamente, divide-se hoje em “SDRC Quente” (fase inicial inflamatória) e “SDRC Fria” (fase crônica isquêmica).

Sensoriais
  • Hiperalgesia (sensibilidade exagerada à dor).
  • Alodínia (dor ao toque suave).
  • Dor profunda e pulsátil.
Vasomotores
  • Assimetria de temperatura (>1°C de diferença).
  • Mudança de cor (vermelho, roxo, pálido ou azulado).
Sudomotores/Edema
  • Inchaço (edema) visível.
  • Suor excessivo ou ausência de suor na área.
Motores/Tróficos
  • Crescimento anormal de pelos e unhas.
  • Tremores, distonia ou fraqueza.
  • Pele fina e brilhante.

Diagnóstico: Os Critérios de Budapeste

Não existe um exame de sangue ou imagem único que confirme a SDRC (“gold standard”). O diagnóstico é clínico, baseado na exclusão de outras causas e na observação de sinais específicos. Médicos utilizam os Critérios de Budapeste, que exigem a presença de dor contínua desproporcional e sintomas em quatro categorias distintas (sensorial, vasomotora, sudomotora/edema e motor/trófica).

Tabela 1: Sinais Observáveis vs. Sintomas Relatados
Categoria O que o paciente sente (Sintoma) O que o médico vê (Sinal)
Sensorial “Minha pele queima com o vento.” Retirada do membro ao toque leve (hiperestesia).
Vasomotor “Minha mão fica roxa e depois branca.” Diferença térmica palpável entre os membros.
Sudomotor “Meu pé está sempre inchado e suado.” Edema com cacifo ou pele macerada pelo suor.
Trófico “Minhas unhas estão quebradiças e crescem rápido.” Pele atrófica (fina), rigidez articular.

Exames como Cintilografia Óssea Trifásica (pode mostrar aumento de captação nas articulações), Ressonância Magnética e Termografia podem ser usados como suporte e para descartar fraturas ocultas, infecções ou trombose.

Tratamento Não Cirúrgico Multidisciplinar

O tratamento da SDRC é complexo e deve ser iniciado o mais precocemente possível (“janela de oportunidade”). O objetivo é restaurar a função do membro e dessensibilizar o sistema nervoso.

1. Abordagem Farmacológica

Não existe um único remédio para SDRC. Utiliza-se um “coquetel” para atacar diferentes vias da dor:

  • Bisfosfonatos: Medicamentos como alendronato ou pamidronato (geralmente intravenosos) são eficazes, especialmente na fase aguda com perda óssea, para reduzir a dor.
  • Anticonvulsivantes (Gabapentinoides): Gabapentina e Pregabalina são a primeira linha para dor neuropática, reduzindo a excitabilidade elétrica dos nervos.
  • Antidepressivos Tricíclicos: Amitriptilina ou Nortriptilina em doses baixas ajudam a modular a percepção da dor e melhorar o sono.
  • Vitamina C: Usada preventivamente após fraturas e cirurgias de extremidades (500mg/dia) para reduzir o risco de desenvolver SDRC.
  • Corticosteroides: Prednisona pode ser usada em ciclos curtos na fase aguda inflamatória.
  • Cremes Tópicos: Lidocaína, Capsaicina ou compostos manipulados com Amitriptilina/Cetamina para evitar efeitos colaterais sistêmicos.
Dica de Especialista: Prevenção

A medida preventiva mais eficaz comprovada é o uso de Vitamina C (500mg por dia) por 50 dias após fraturas de punho ou cirurgias de mão/pé. Isso pode reduzir a incidência de SDRC em até 50%.

2. Reabilitação e Dessensibilização

A fisioterapia é o pilar central. Se o paciente não mover o membro, a SDRC piora (ciclo de dor-imobilidade-atrofia).

Imagética Motora Graduada (IMG)

É uma técnica avançada de reabilitação cerebral para “recalibrar” a percepção de dor:

  1. Reconhecimento de Lateralidade: Identificar fotos de membros esquerdos e direitos para ativar o córtex motor sem movimento.
  2. Movimento Imaginado: Imaginar mover o membro sem movê-lo fisicamente.
  3. Terapia do Espelho: Usar um espelho para “enganar” o cérebro, vendo o membro saudável se mover no lugar do membro afetado.

Dessensibilização Tátil

Consiste em expor a área afetada a diferentes texturas (algodão, seda, lã, escova macia) por minutos várias vezes ao dia. O objetivo é ensinar o cérebro que o toque não é perigoso.

3. Bloqueios Simpáticos

Se a medicação e a terapia física não forem suficientes, o médico da dor pode realizar bloqueios do gânglio estrelado (para membros superiores) ou da cadeia simpática lombar (para membros inferiores) com anestésicos locais para “reiniciar” o sistema nervoso autônomo.

Prognóstico e Cuidados a Longo Prazo

A SDRC é variável. Em alguns pacientes, resolve-se espontaneamente ou com tratamento breve. Em outros, torna-se uma condição crônica. O fator prognóstico mais importante é o início precoce do tratamento.

Tabela 2: O Que Fazer e O Que Evitar na SDRC
✅ Recomendado (Fazer) ❌ Evitar (Não Fazer)
Movimentação suave e ativa, mesmo com desconforto leve. Imobilização prolongada (tipoias ou talas) desnecessárias.
Dessensibilização tátil diária (várias texturas). Aplicar gelo diretamente (pode agravar a vasoconstrição).
Apoio psicológico para lidar com a dor crônica. Isolamento social ou “catastrofização” da dor.

Linha do Tempo Terapêutica Ideal

Mês 1-3
Diagnóstico, Medicação, Fisioterapia Ativa.
Mês 3-6
Bloqueios Simpáticos, Terapia do Espelho.
> 6 Meses
Neuroestimulação Medular (se refratário).

✅ Sinais de Alerta para Procurar Especialista

  • Dor que não melhora ou piora 2 semanas após a retirada do gesso/imobilização.
  • Mudança drástica de cor ou temperatura no membro afetado.
  • Crescimento acelerado e estranho de unhas ou pelos na região da dor.

Perguntas Frequentes (FAQ)

A SDRC é psicológica (“está na minha cabeça”)?

Não. A SDRC é uma doença física real com alterações fisiológicas mensuráveis nos nervos e fluxo sanguíneo. No entanto, o estresse, a ansiedade e a depressão podem agravar a dor, por isso o tratamento psicológico é parte da cura.

A síndrome pode se espalhar para outros membros?

É raro, mas possível. Em uma minoria de casos, os sintomas podem aparecer no membro oposto (“spread em espelho”) ou migrar. Isso geralmente ocorre devido a alterações no processamento central da dor no cérebro, e não por uma infecção ou lesão local.

Gelo ou calor: qual usar?

Tenha muito cuidado. O gelo direto é frequentemente mal tolerado na SDRC e pode piorar a vasoconstrição. Banhos de contraste (água morna e fresca alternadas) suaves são melhores para treinar os vasos sanguíneos sem causar choque térmico.

A SDRC tem cura definitiva?

Muitos pacientes alcançam a remissão total (sem dor), especialmente se tratados cedo. Outros aprendem a gerenciar a dor em níveis baixos. Casos graves e antigos são mais difíceis de curar completamente, focando-se na qualidade de vida.

Posso fazer massagem na área?

Sim, mas deve ser uma “dessensibilização”, não uma massagem profunda muscular. Comece com toques muito leves ao redor da área da dor e vá se aproximando do centro conforme a tolerância aumenta.

Por que minha pele muda de cor?

Devido à disfunção do sistema nervoso autônomo, que controla os vasos sanguíneos. Eles podem se dilatar demais (ficando vermelho/quente) ou se contrair demais (ficando roxo/frio/pálido) de forma desregulada.

O que é a Terapia do Espelho?

É uma técnica onde você esconde o membro doloroso atrás de um espelho e move o membro saudável. Ao olhar no espelho, o cérebro “vê” o membro afetado se movendo sem dor, o que ajuda a reduzir a sensibilização central.

Vitamina C realmente funciona?

Sim. Estudos de alta qualidade mostram que tomar 500mg de Vitamina C diariamente por 50 dias após uma fratura de punho reduz significativamente o risco de desenvolver SDRC. É um antioxidante que ajuda a controlar a resposta inflamatória.


🔍 Calculadora Simplificada de Sintomas (Budapeste)

Marque os sintomas que você apresenta atualmente no membro afetado.

1. Sensorial:
2. Vasomotor:
3. Sudomotor/Edema:
4. Motor/Trófico:

*Esta ferramenta é educativa e não substitui o diagnóstico médico clínico.

✋ Guia de Dessensibilização Tátil

Siga a progressão de texturas para treinar seu cérebro a aceitar o toque novamente.

Selecione a fase atual (onde você sente desconforto leve, mas suportável):

📝 Gerador de Diário de Dor

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5

Uma Reação Exagerada

Dor Desproporcional à Lesão

A Síndrome da Dor Regional Complexa (SDRC) é uma condição crônica que geralmente afeta um braço ou uma perna. Ela costuma surgir após uma lesão (como uma fratura ou entorse), mas a dor é muito mais intensa e duradoura do que o esperado para aquele machucado original.

⚖️ Classificação

As Duas Faces

A diferença técnica fundamental:

Tipo I

Antiga “Distrofia Simpático-Reflexa”. Ocorre sem lesão nervosa confirmada. É a forma mais comum (90% dos casos).

Tipo II

Antiga “Causalgia”. Ocorre quando existe uma lesão confirmada e identificável em um nervo específico.

🌡️ Sinais Visíveis

A “Troca” de Cores

O membro afetado parece “estranho” comparado ao sadio. Pode haver assimetria clara de temperatura e cor.

Membro Roxo/Vermelho Inchaço (Edema) Pele Brilhante Suor Excessivo Unhas Quebradiças
🪶 Hipersensibilidade

Alodínia

Um sintoma cruel onde estímulos que não deveriam doer, passam a doer. O simples toque de um lençol, o vento ou a água do chuveiro podem causar dor insuportável.

O Tratamento

Quebrando o Ciclo

Não existe “bala de prata”. O sucesso depende de intervenção precoce e multidisciplinar.

💊 Medicamentoso: Anticonvulsivantes, antidepressivos e corticoides para “acalmar” os nervos.
💉 Intervencionista: Bloqueios do gânglio estrelado ou simpático lombar para “resetar” o sistema autônomo.
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Médico especialista em Dor e Fisiatria pela USP. Área de Atuação em Dor pela Associação Médica Brasileira. Doutorado em Ciências pela Universidade de São Paulo. Professor e Colaborador do Grupo de Dor do Hospital das Clínicas da USP.