Dry Needling (Agulhamento Seco) na Epicondilite Lateral (Cotovelo de Tenista)

novembro 18, 2025
escrito por: Dr. Marcus Yu Bin Pai

Médico Fisiatra e Especialista em Dor pela AMB. Doutorado em Ciências pela USP.

A Epicondilite Lateral, universalmente conhecida como “Cotovelo de Tenista”, representa um dos desafios mais persistentes na ortopedia e na medicina de reabilitação. Estima-se que até 3% da população geral sofra desta condição em algum momento da vida, sendo que a grande maioria dos casos não ocorre em quadras de tênis, mas em escritórios, consultórios dentários, linhas de montagem e cozinhas domésticas.

Tradicionalmente, essa patologia foi encarada como um processo puramente inflamatório (“tendinite”). Consequentemente, o tratamento padrão por décadas focou em suprimir a inflamação com gelo, repouso e anti-inflamatórios. No entanto, a ciência moderna revelou que, nos casos crônicos, a inflamação é mínima ou inexistente. O que existe é um processo degenerativo do colágeno (tendinose) impulsionado por uma disfunção muscular miofascial severa no antebraço.

É neste cenário que o Agulhamento Seco (Dry Needling) se estabelece como uma intervenção revolucionária. Não se trata de apenas “tapar o sol com a peneira” com analgésicos. O agulhamento seco médico é uma técnica de precisão neurofisiológica que visa a causa mecânica da sobrecarga: o encurtamento patológico e os pontos-gatilho nos músculos extensores do punho. Este artigo detalha profundamente como essa técnica funciona, por que ela supera tratamentos convencionais em casos crônicos e como ela pode ser o ponto de virada na sua recuperação.

O Ciclo Vicioso da Epicondilite

1. Sobrecarga Repetitiva
Digitação, ferramentas, esporte.
2. Crise Energética
Falta de oxigênio no músculo (Isquemia).
3. Ponto-Gatilho (O Nó)
Contração permanente e encurtamento.
4. Tração no Osso
O tendão é puxado 24h por dia, gerando dor.

*O Agulhamento Seco atua quebrando o ciclo no passo 3.

Anatomia do Problema: O Músculo Extensor Radial Curto

Para compreender a eficácia do agulhamento, precisamos ir além do “cotovelo”. A dor sentida na proeminência óssea lateral (epicôndilo) é apenas o “grito” da vítima. O “criminoso” reside alguns centímetros abaixo, no antebraço.

O principal músculo envolvido na epicondilite lateral é o Extensor Radial Curto do Carpo (ERCC). Este músculo é fundamental para estabilizar o punho sempre que seguramos algo. Se você fecha a mão para segurar uma raquete ou um martelo, o ERCC dispara para impedir que seu punho caia. Devido a essa demanda constante, ele é extremamente propenso a desenvolver Pontos-Gatilho Miofasciais.

A Conexão Mecânica

Quando um ponto-gatilho se instala no ventre do ERCC, ocorre um encurtamento funcional da fibra muscular. Imagine que o músculo é um elástico e o tendão é a cola que o prende ao osso. Se você der um nó no meio do elástico, ele fica mais curto e tenso. Essa tensão é transmitida diretamente para a inserção óssea no cotovelo. O resultado é uma tração mecânica ininterrupta, 24 horas por dia, mesmo enquanto você dorme. É essa tração que causa a degeneração (tendinose) e a dor excruciante ao simples toque.

[Image of muscular anatomy of the forearm showing extensor carpi radialis brevis]

O agulhamento seco não foca no tendão machucado (onde dói), mas sim no “nó” do elástico (o ventre muscular). Ao desfazer o nó, a tensão no tendão desaparece imediatamente, permitindo que o processo de cura natural do corpo finalmente ocorra.

A Ciência: O Que Acontece Quando a Agulha Entra?

Muitos pacientes perguntam: “Como uma agulha sem remédio pode tirar a dor?”. A resposta reside na neurofisiologia e na bioquímica do músculo. O agulhamento seco provoca alterações profundas no ambiente tecidual:

1. Efeito Mecânico: A Resposta de Contração Local (Twitch)

O objetivo primário do médico ao inserir a agulha é encontrar o ponto exato da disfunção neuromuscular. Quando a agulha toca esse ponto, ocorre um reflexo espinhal involuntário chamado Local Twitch Response (LTR). O músculo “pula” ou contrai rapidamente.

Esse espasmo é terapêutico. Ele consome as reservas de acetilcolina (o neurotransmissor que mantinha a contração) e causa um “reset” no comprimento do sarcômero (a unidade da fibra muscular). O resultado é um relaxamento mecânico imediato da banda tensa que estava puxando o tendão.

2. Lavagem Bioquímica (Washout Effect)

Estudos de microdiálise (análise de fluidos microscópicos) mostram que o interior de um ponto-gatilho ativo é uma “sopa tóxica” com pH ácido e altas concentrações de mediadores inflamatórios e de dor, como Substância P, Bradicinina e CGRP. A introdução da agulha cria um microtrauma que aumenta o fluxo sanguíneo local, oxigenando o tecido e “lavando” esses químicos nocivos, reduzindo a sensibilização dos nervos periféricos.

3. Controle da Dor Central

Em casos crônicos de epicondilite, o sistema nervoso central (cérebro e medula) torna-se hipersensível. O estímulo intenso e pontual das fibras A-delta pela agulha ativa mecanismos inibitórios descendentes no cérebro (Teoria do Portão e liberação de opioides endógenos), ajudando a “desligar” o alarme de dor que estava soando incessantemente.

Resumo dos Efeitos Terapêuticos

  • Redução da tensão muscular (alongamento interno).
  • Melhora da oxigenação local (revascularização).
  • Remoção de mediadores inflamatórios ácidos.
  • Restauração da força muscular inibida pela dor.

O Que Esperar da Sessão?

Para muitos pacientes, a ideia de agulhas pode gerar ansiedade. No entanto, o procedimento é extremamente bem tolerado e rápido. Entenda o passo a passo de uma sessão típica de Fisiatria Intervencionista.

1. Mapeamento Palpatório

O médico não vai agulhar apenas onde dói (o osso). Ele fará uma palpação minuciosa do antebraço, tríceps e até ombros, buscando bandas tensas que reproduzam a sua dor específica. É comum encontrar pontos no músculo supinador ou braquiorradial que irradiam dor para o cotovelo ou para o polegar.

2. A Aplicação

Utilizam-se agulhas filiformes estéreis (semelhantes às de acupuntura, mas usadas com técnica diferente). A inserção na pele é praticamente indolor. O médico então aprofunda a agulha até o músculo alvo.

A Sensação Chave: Quando a agulha encontra o ponto correto, você sentirá uma cãibra profunda, um peso ou um espasmo rápido (o “twitch”). Essa sensação é desejável e indica que o tratamento está funcionando. Ela dura apenas uma fração de segundo.

3. Pós-Sessão Imediato

Logo após a retirada das agulhas, é comum sentir o braço “pesado” ou cansado, similar à sensação pós-treino intenso de musculação. O alívio da dor original (a pontada no cotovelo) muitas vezes é percebido instantaneamente ou nas horas seguintes, à medida que o músculo relaxa.

Nem Toda Dor Lateral é Epicondilite

Um dos grandes diferenciais de realizar o agulhamento com um médico fisiatra é a precisão diagnóstica. Muitas “epicondilites” que não saram são, na verdade, outras condições que exigem abordagens diferentes (incluindo evitar certas áreas de agulhamento).

Tabela 1: Diagnósticos Diferenciais e Implicação no Tratamento
Diagnóstico Sintoma Distintivo Cuidado no Agulhamento
Epicondilite Lateral Verdadeira Dor pontual no osso, piora com extensão do punho contra resistência. Foco nos extensores (ECRB).
Síndrome do Túnel Radial Dor profunda no antebraço (4cm abaixo do cotovelo), piora à noite, sem perda motora óbvia. Risco! Evitar agulhar profundamente o músculo supinador sem ultrassom.
Radiculopatia Cervical (C6-C7) Dor que começa no pescoço e “desce” para o braço; formigamento nos dedos. Tratar o pescoço (origem), não apenas o cotovelo.
Instabilidade Ligamentar Estalidos, sensação de falseio, história de trauma ou luxação prévia. Agulhamento ajuda pouco; foco em proloterapia/fortalecimento.

A Armadilha da Cortisona vs. Regeneração

Durante anos, a injeção de corticoide foi o padrão-ouro. Hoje, a evidência científica mudou drasticamente. Estudos de alto impacto mostram que, embora o corticoide tire a dor rapidamente (em semanas), ele apresenta piores resultados a longo prazo (1 ano) quando comparado a “não fazer nada” ou à fisioterapia.

Por quê? O corticoide é catabólico. Ele inibe a síntese de proteínas e colágeno, enfraquecendo o tendão e aumentando o risco de recidivas ou rupturas futuras. O paciente sente-se bem, volta a usar o braço excessivamente em um tendão fraco, e a lesão retorna pior.

O Agulhamento Seco segue a lógica oposta. Ele não enfraquece o tecido; ele restaura a função muscular normal para que o tendão pare de sofrer tração. É um tratamento fisiológico e restaurador, não apenas supressor de sintomas.

Corticoide
Alívio Rápido -> Piora Tardia
Agulhamento
Melhora Gradual e Sustentada

O Elo Perdido: Reabilitação Pós-Agulhamento

O agulhamento seco “abre a janela de oportunidade”. Ele tira a dor e relaxa o músculo. Mas se você não fortalecer o tecido depois, a dor voltará. O protocolo ideal combina o agulhamento com Exercícios Excêntricos e correção ergonômica.

Protocolo de Ouro Pós-Agulhamento

  • 1. Primeiras 48h (Fase de Repouso Ativo):

    Calor local, alongamentos muito suaves (sem dor). Evitar movimentos de preensão forte ou digitação excessiva.

  • 2. Alongamento Específico (Semana 1):

    Alongar os extensores com o cotovelo esticado. Manter por 30 segundos, 3x ao dia. Objetivo: manter o ganho de comprimento obtido com a agulha.

  • 3. Fortalecimento Excêntrico (Semana 2+):

    Usar um pesinho leve (1kg). Levantar a mão com a ajuda da outra mão (fase fácil) e descer a mão lentamente sozinho (fase excêntrica) contando até 4 segundos. Isso reorganiza as fibras de colágeno.

Além dos exercícios, a ergonomia é vital. O uso de mouses verticais, teclados macios e o ajuste da altura da cadeira para que o cotovelo fique apoiado podem prevenir a recidiva.

Segurança e Riscos

Na região do cotovelo, a segurança depende inteiramente do conhecimento anatômico do profissional. O nervo radial serpenteia através dos músculos supinador e braquiorradial. Um agulhamento “cego” e agressivo pode irritar este nervo, causando neuropraxia (choque/dormência temporária).

O médico especialista utiliza técnicas de “pinçamento” do músculo para isolá-lo das estruturas nervosas ou utiliza o ultrassom para guiar a agulha em áreas de risco (Dry Needling Guiado), garantindo segurança absoluta. Contraindicações incluem infecções locais, linfedema no braço e distúrbios graves de coagulação.

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Perguntas Frequentes

O agulhamento seco dói muito no cotovelo?

A região lateral do cotovelo e o antebraço são áreas sensíveis. A inserção da agulha é indolor, mas a elicitação do “twitch” (espasmo muscular) pode gerar uma dor súbita e profunda, semelhante a uma cãibra forte ou um choque elétrico breve. É desconfortável, mas dura menos de um segundo e é seguido por uma sensação de alívio e relaxamento.

Quantas sessões são necessárias para curar?

Isso depende da cronicidade. Casos agudos (menos de 1 mês) podem resolver com 2 ou 3 sessões. Casos crônicos (mais de 3 a 6 meses) geralmente requerem um ciclo de 4 a 6 sessões, realizadas semanalmente. A melhora na dor e na força de preensão costuma ser notada já após a primeira ou segunda sessão.

Posso voltar a jogar tênis ou fazer musculação logo depois?

Não imediatamente. O músculo tratado sofre microlesões terapêuticas e precisa de 24 a 48 horas de repouso relativo para se remodelar. Recomendamos evitar exercícios de membros superiores e preensão forte (como segurar raquetes ou halteres) por pelo menos 2 dias após a sessão. Treino de pernas e cardio leve estão liberados.

Qual a diferença entre agulhamento e acupuntura?

A ferramenta (agulha) é a mesma, mas a filosofia é oposta. A acupuntura baseia-se na Medicina Tradicional Chinesa e visa equilibrar a energia (Qi) através de meridianos sistêmicos. O agulhamento seco é uma intervenção médica ocidental, baseada em anatomia e neurofisiologia, focada especificamente em desativar nódulos musculares palpáveis (pontos-gatilho) que causam dor mecânica.

Ficam marcas ou hematomas?

Sim, é comum. O antebraço é bastante vascularizado. Pequenos hematomas (roxos) podem aparecer nos locais das picadas e durar de 3 a 5 dias. Eles são puramente estéticos e não afetam o resultado do tratamento. O uso de gelo logo após o procedimento ajuda a minimizar isso.

O agulhamento substitui a cirurgia?

Na grande maioria dos casos, sim. A cirurgia de epicondilite é o último recurso, reservada para casos que não melhoram após 6 a 12 meses de tratamento conservador bem feito. O agulhamento seco, especialmente quando combinado com reabilitação ativa, resolve cerca de 80-90% dos casos sem necessidade de bisturi.

Pode ser combinado com Ondas de Choque?

Sim, e é uma excelente combinação (sinergia). Enquanto as Ondas de Choque tratam a inserção do tendão no osso (estimulando a regeneração do colágeno e neovascularização), o Agulhamento Seco trata o ventre muscular (reduzindo a tensão que traciona o tendão). Atacar o problema nas duas pontas acelera a recuperação.

Existe risco de infecção?

O risco é extremamente baixo quando realizado por médicos que seguem protocolos de assepsia (limpeza da pele com álcool 70%, uso de luvas e agulhas estéreis descartáveis). É um procedimento muito seguro comparado a injeções de fármacos.

O plano de saúde cobre?

A cobertura varia. O agulhamento seco muitas vezes é enquadrado como parte da consulta médica fisiátrica ou como procedimento de “infiltração de pontos-gatilho” (dependendo se há injeção associada ou codificação específica do convênio). Verifique previamente com a clínica.

Posso dirigir depois da sessão?

Sim, é seguro dirigir. No entanto, se o seu carro for manual e o tratamento foi no braço direito (que troca as marchas), você pode sentir um desconforto ou fadiga muscular ao dirigir, mas não há perda de controle motor que impeça a direção.

Conclusão: Uma Abordagem Moderna

A epicondilite lateral não é uma sentença de dor perpétua. A persistência dos sintomas geralmente indica que o tratamento focou apenas na consequência (o tendão) e ignorou a causa (o músculo). O Agulhamento Seco oferece uma solução mecânica direta para um problema mecânico, permitindo que o paciente retome suas atividades laborais e esportivas com um braço funcional e sem dor.

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Médico especialista em Dor e Fisiatria pela USP. Área de Atuação em Dor pela Associação Médica Brasileira. Doutorado em Ciências pela Universidade de São Paulo. Professor e Colaborador do Grupo de Dor do Hospital das Clínicas da USP.