Agulhamento Seco (Dry Needling) no Tratamento da Dor no Ombro

novembro 18, 2025
escrito por: Dr. Marcus Yu Bin Pai

Médico Fisiatra e Especialista em Dor pela AMB. Doutorado em Ciências pela USP.

A dor no ombro é frequentemente atribuída a problemas ósseos ou tendíneos, como artrose ou roturas do manguito rotador. No entanto, uma parcela significativa — e muitas vezes negligenciada — dessas dores tem origem muscular e miofascial. O “nó” no músculo, tecnicamente chamado de Ponto-Gatilho (Trigger Point), pode ser a causa primária da dor ou um fator que perpetua o sofrimento mesmo após uma cirurgia bem-sucedida.

O Agulhamento Seco (Dry Needling) surge como uma técnica médica minimamente invasiva e altamente eficaz para tratar essas contraturas profundas. Diferente de tratamentos superficiais como calor ou massagem, o agulhamento seco utiliza uma agulha filiforme sólida (semelhante à de acupuntura) para penetrar fisicamente no músculo e “desligar” o curto-circuito neurológico que mantém a fibra contraída.

Neste artigo, explicaremos como o médico fisiatra utiliza o agulhamento seco como uma ferramenta de precisão dentro de um plano de reabilitação global para o ombro, diferenciando-o da acupuntura tradicional e detalhando seus efeitos fisiológicos.

Acupuntura Tradicional

Baseada na Medicina Tradicional Chinesa. Foca no equilíbrio energético (Qi) e meridianos que percorrem o corpo todo. Não necessita diagnóstico anatômico ocidental.

Agulhamento Seco Médico

Baseado na Neurofisiologia e Anatomia. Foca na desativação mecânica de pontos-gatilho em músculos específicos diagnosticados com disfunção.

O Vilão Invisível: Síndrome Dolorosa Miofascial

O ombro é uma articulação complexa controlada por múltiplos músculos. Quando esses músculos sofrem sobrecarga (postura ruim no computador, estresse, movimentos repetitivos ou proteção após uma lesão), as fibras musculares podem entrar em um estado de contração permanente. Isso forma uma banda tensa palpável — o famoso “nó”.

Este ponto (Trigger Point) é hipóxico (falta oxigênio) e ácido. Ele gera dor não apenas no local, mas frequentemente dor referida, enganando o paciente sobre a real origem do problema. O agulhamento seco atua quebrando esse ciclo.

Mapa da Dor Referida no Ombro

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Trapézio Superior

A causa nº 1. Dor que sobe pelo pescoço e causa dor de cabeça (têmporas) e peso nos ombros.

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Infraespinhal

Frequentemente confundido com tendinite. Causa dor profunda na frente do ombro e descendo pelo braço.

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Levantador da Escápula

Dor no ângulo do pescoço (“torcicolo”) e queimação na borda interna da escápula.

Subescapular

Dor na axila e na parte de trás do ombro. Causa restrição severa para levantar o braço.

Como a Agulha “Desliga” a Dor?

A introdução da agulha no ponto-gatilho provoca três efeitos fisiológicos simultâneos que explicam sua eficácia imediata:

1. O “Twitch” (Resposta de Contração Local)

Ao atingir o ponto exato da contratura, o músculo sofre um espasmo involuntário rápido (como um “pulo”). Isso é o sinal de sucesso da técnica. Esse espasmo consome a energia residual (ATP) que mantinha a contratura, forçando o músculo a relaxar mecanicamente logo em seguida. É um “reset” mecânico.

2. Lavagem Bioquímica

O ponto-gatilho é uma “sopa tóxica” de substâncias inflamatórias (Substância P, CGRP, Bradicinina) e pH ácido. A microlesão causada pela agulha aumenta a circulação sanguínea local instantaneamente, oxigenando a área e “lavando” essas toxinas, o que reduz a sensibilização dos nervos de dor.

3. Controle da Dor pelo Cérebro

O estímulo da agulha ativa fibras nervosas que viajam até a medula espinhal e o cérebro, liberando analgésicos naturais (opioides endógenos e encefalinas). Isso ajuda a quebrar o ciclo da dor crônica centralizada.

Indicações Clínicas no Ombro

O agulhamento seco é uma parte do tratamento, não o tratamento todo. O médico indica esta técnica quando identifica que o componente muscular é preponderante na dor do paciente.

Tabela 1: Condições Tratadas com Agulhamento Seco
Condição Diagnóstica Sintoma Muscular Associado Benefício da Técnica
Cefaleia Tensional Tensão extrema no Trapézio e pescoço. Alívio da dor de cabeça sem uso de remédios.
Ombro Congelado (Fase Inicial) Contratura dolorosa de proteção do Subescapular. Melhora a amplitude de rotação para fisioterapia.
Síndrome do Impacto (Bursite) Manguito rotador encurtado puxando o úmero para cima. Relaxa o músculo, aumentando o espaço articular.
Dor Pós-Cirúrgica Cicatrizes dolorosas e rigidez muscular reativa. Trata a dor residual que persiste após a alta cirúrgica.

O Procedimento Médico: Passo a Passo

A segurança do agulhamento seco na região do ombro é crítica, pois existem estruturas nobres (pulmões, nervos e artérias) próximas. Por isso, o procedimento deve ser realizado por profissional médico com profundo conhecimento anatômico.

1. Palpação e Diagnóstico

O médico examina o músculo manualmente para localizar a banda tensa e o ponto de dor máxima. Em áreas de risco, pode usar ultrassom para medir a profundidade segura.

2. Assepsia e Inserção

Limpeza da pele com álcool 70%. A agulha estéril e descartável é inserida diretamente no nódulo. O paciente sente apenas uma picada leve.

3. Elicitação do “Twitch”

O médico manipula a agulha (“pistonagem”) para buscar a resposta de contração. O paciente sente um espasmo muscular profundo ou uma dor “surda” e pesada, que reproduz seu sintoma habitual.

4. Relaxamento e Retirada

Após esgotar a resposta contrátil (o músculo para de pular e relaxa), a agulha é removida. O alívio de mobilidade costuma ser imediato.

Agulhamento Seco vs. Infiltração de Pontos-Gatilho

Muitas vezes o paciente pergunta: “Por que não injetar remédio?”. Ambas as técnicas são válidas e utilizadas pelo médico fisiatra, dependendo da tolerância do paciente e da gravidade da dor.

Tabela 2: Agulhamento Seco vs. Infiltração (Wet Needling)
Característica Agulhamento Seco Infiltração (com Anestésico)
Substância Injetada Nenhuma (apenas ação mecânica). Lidocaína, Procaína ou soro.
Dor Pós-Procedimento Pode haver dor muscular (“como se tivesse treinado”) por 24h. Menor, devido ao efeito do anestésico local.
Indicação Principal Múltiplos pontos, pacientes alérgicos ou que evitam fármacos. Pontos muito sensíveis onde a manipulação mecânica seria insuportável.
Agulha Utilizada Muito fina (0.25mm), sólida. Hipodérmica (bisel cortante), oca.

Segurança e Riscos Específicos do Ombro

O agulhamento seco é seguro, mas não isento de riscos. Na região do ombro e trapézio, existe o risco teórico de pneumotórax (perfuração acidental da pleura pulmonar), pois o pulmão está logo abaixo da caixa torácica e do trapézio.

Protocolo de Segurança Médica

Para anular riscos graves, o médico nunca aponta a agulha em direção ao tórax. A técnica utilizada é sempre tangencial ou com “pinçamento” do músculo (puxando o músculo para longe do pulmão). Em músculos profundos ou pacientes muito magros, o uso do ultrassom para guiar a profundidade da agulha é o padrão de excelência para garantir segurança total.

O Que Fazer Após a Sessão?

É normal que a região tratada fique dolorida, como se tivesse levado uma pancada ou feito um treino intenso de musculação. Essa “dor pós-agulhamento” dura de 24 a 48 horas e é sinal de remodelação tecidual.

Guia de Recuperação Rápida

  • Calor Local: Use compressa morna ou banho quente por 15 minutos para aumentar o relaxamento e aliviar o dolorimento.
  • Alongamento Suave: O músculo foi “resetado”. Alongá-lo suavemente ajuda a manter o novo comprimento da fibra.
  • Hidratação: Beber água ajuda na eliminação dos metabólitos liberados durante o procedimento.
  • Evite Gelo: O gelo pode contrair o músculo novamente, anulando parte do efeito relaxante.

Perguntas Frequentes sobre Agulhamento Seco

Agulhamento seco dói?

A inserção da agulha raramente dói (é muito fina). O momento do “twitch” (espasmo muscular) gera uma sensação súbita de cãibra ou choque, que dura menos de um segundo. Embora desconfortável, é uma “dor terapêutica” que a maioria dos pacientes tolera bem pelo alívio que traz depois.

Quantas sessões são necessárias?

Varia conforme a cronicidade. Dores agudas (torcicolo) podem resolver em 1 sessão. Síndromes crônicas miofasciais geralmente requerem de 3 a 5 sessões, com intervalo semanal, associadas a exercícios de correção postural.

É a mesma coisa que Acupuntura?

Não. Embora a ferramenta (agulha) seja a mesma, o raciocínio é oposto. A acupuntura visa o equilíbrio energético sistêmico e usa pontos fixos (meridianos). O agulhamento seco é uma intervenção mecânica local, guiada pela palpação da dor e anatomia muscular.

Posso treinar musculação no mesmo dia?

Não é recomendado treinar o grupo muscular tratado no mesmo dia. O músculo sofreu microlesões terapêuticas e precisa de repouso relativo por 24h. Treinar pernas ou cardio leve está liberado.

Sai sangue?

Pode ocorrer um sangramento mínimo (gota) no local da picada, facilmente contido com algodão. Hematomas pequenos são possíveis, especialmente em pacientes que tomam aspirina ou anticoagulantes, mas são absorvidos rapidamente.

Existe contraindicação?

Sim. Infecções de pele no local, medo excessivo de agulhas (fobia), gravidez (primeiro trimestre, em certas áreas), e pacientes com distúrbios de coagulação graves não controlados.

Resolve tendinite?

Indiretamente sim. A tendinite é muitas vezes causada por um músculo tenso que puxa o tendão excessivamente. Ao relaxar o “ventre muscular” com agulhamento, a tensão sobre o tendão diminui, permitindo que ele desinflame e cicatrize.

Por que o médico mexe a agulha?

A técnica de “pistonagem” (entrar e sair com a agulha milimetricamente) é necessária para varrer a área e encontrar os múltiplos focos de contração dentro do nódulo. Apenas deixar a agulha parada tem efeito menor na desativação do ponto-gatilho.

O plano de saúde cobre?

Depende. O agulhamento seco muitas vezes é cobrado como procedimento médico de “infiltração de ponto-gatilho” (se houver uso de fármaco) ou como parte da consulta/procedimento fisiátrico. Verifique a cobertura específica com seu médico e operadora.

Posso dirigir depois?

Sim, na maioria dos casos. Se o tratamento for muito intenso no pescoço ou ombro direito (para quem dirige carro manual), pode haver um desconforto leve ao movimentar o braço, mas raramente impede a direção.

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Médico especialista em Dor e Fisiatria pela USP. Área de Atuação em Dor pela Associação Médica Brasileira. Doutorado em Ciências pela Universidade de São Paulo. Professor e Colaborador do Grupo de Dor do Hospital das Clínicas da USP.