A dor no tendão de Aquiles é uma das queixas mais persistentes e frustrantes enfrentadas por corredores, atletas de fim de semana e até mesmo pessoas sedentárias. O que começa como uma rigidez matinal inofensiva pode evoluir para uma tendinopatia crônica, uma condição onde o tendão perde sua capacidade de regeneração e entra em um ciclo de dor e degradação. Quando repouso, gelo e fisioterapia convencional falham, a medicina intervencionista oferece uma solução padrão-ouro: a Terapia por Ondas de Choque Extracorpórea (TOC ou ESWT).
Diferente do que o nome sugere, este tratamento não envolve “choques elétricos”. Trata-se de uma tecnologia avançada de física acústica que envia ondas de pressão mecânica de alta energia diretamente para o tecido lesionado. O objetivo não é apenas mascarar a dor, mas provocar uma resposta biológica profunda: “acordar” as células do tendão que pararam de trabalhar e estimular a formação de novos vasos sanguíneos, promovendo a cura real de uma lesão que o corpo não conseguia resolver sozinho.
Neovascularização
O tendão de Aquiles é pouco vascularizado (pouco sangue). As ondas criam novos microvasos, trazendo oxigênio e nutrientes vitais para a cura.
Quebra de Calcificações
O impacto mecânico ajuda a dissolver depósitos de cálcio (esporões) que irritam o tendão na sua inserção no calcanhar.
Estímulo de Colágeno
Força as células (fibroblastos) a produzirem colágeno tipo I, alinhando as fibras do tendão e devolvendo a resistência.
Analgesia Imediata
Sobrecarrega as terminações nervosas (Teoria do Portão), reduzindo a transmissão da dor e diminuindo a substância P (neurotransmissor da dor).
Tendinite ou Tendinose: O Que Você Tem?
É fundamental distinguir os termos. A “tendinite” verdadeira (inflamação aguda com células inflamatórias) dura poucos dias ou semanas. O que a maioria dos pacientes que chega ao consultório do fisiatra tem é, na verdade, uma Tendinose (parte da Tendinopatia).
Na tendinose, não há mais inflamação ativa; há degeneração. As fibras de colágeno, que deveriam ser alinhadas como um cabo de aço, estão desorganizadas, esgarçadas e infiltradas por tecido cicatricial de má qualidade. É por isso que tomar anti-inflamatórios por meses não resolve: não há inflamação para combater, há um tecido que precisa ser regenerado. É aqui que as Ondas de Choque brilham, pois transformam uma lesão crônica estagnada em uma lesão aguda controlada, reiniciando o processo de cura.
A Importância da Localização
O tratamento varia conforme o local da dor:
- Tendinopatia do Corpo (Mid-portion): A dor é 2 a 6 cm acima do calcanhar. É a área com pior circulação sanguínea, mas responde excelentemente às ondas de choque.
- Tendinopatia Insercional: A dor é na “pegada” do tendão no osso calcâneo, frequentemente associada a um “caroço” ósseo (Deformidade de Haglund). O tratamento aqui exige cuidado técnico para não irritar a bursa retrocalcânea.
Para Quem é Indicado?
A terapia por ondas de choque não é a primeira linha de tratamento para uma dor que começou ontem. Ela é indicada quando o tratamento conservador inicial falhou. O perfil ideal do paciente inclui:
- Dor no tendão de Aquiles presente há mais de 3 meses (dor crônica).
- Falha com fisioterapia convencional (apenas ultrassom e choque elétrico TENS não resolveram).
- Pacientes que querem evitar a cirurgia de desbridamento do tendão.
- Atletas que precisam acelerar o retorno ao esporte durante a temporada.
Cuidado com a Cortisona no Aquiles
Diferente de outros locais do corpo, a infiltração de corticoide diretamente no tendão de Aquiles é altamente contraindicada pela maioria dos especialistas. O corticoide enfraquece o colágeno e aumenta drasticamente o risco de ruptura total do tendão. As Ondas de Choque são a alternativa segura, pois estimulam o tendão sem enfraquecê-lo.
O Protocolo de Tratamento
O tratamento é realizado em consultório médico, sem necessidade de anestesia geral ou internação. O fisiatra utiliza um aparelho gerador de ondas (geralmente radial ou focal) acoplado à pele com gel condutor.
O médico passa o aparelho suavemente para localizar os pontos de maior dor. É o paciente quem guia: “aí dói mais”. Isso garante que a onda atinja o foco exato da lesão.
São aplicados entre 2.000 a 3.000 impulsos por sessão. A sensação é de “pequenas pancadas” ou pressão forte. O nível de energia é ajustado conforme a tolerância do paciente (deve ser desconfortável, mas suportável).
Muitos pacientes saem andando melhor do que entraram (efeito analgésico imediato). Não é necessário repouso absoluto, mas deve-se evitar impacto por 48h.
O ciclo padrão envolve de 3 a 5 sessões, realizadas com intervalo semanal (a cada 7 dias). Esse intervalo é crucial para permitir a resposta inflamatória controlada que desencadeia a regeneração.
Comparativo: Ondas de Choque vs. Outras Opções
Entenda onde este tratamento se encaixa no espectro terapêutico da tendinopatia de Aquiles.
| Tratamento | Nível de Invasividade | Mecanismo Principal | Taxa de Sucesso (Crônicos) |
|---|---|---|---|
| Fisioterapia (Laser/TENS) | Não Invasivo | Analgesia superficial | Baixa (se isolada em casos crônicos) |
| Ondas de Choque (ESWT) | Não Invasivo | Regeneração tecidual profunda | Alta (70-85%) |
| Infiltração de PRP | Minimamente Invasivo | Fatores de crescimento biológicos | Variável (promissor, mas técnica dependente) |
| Cirurgia | Invasivo | Remoção mecânica do tecido ruim | Alta (mas com riscos cirúrgicos) |
O Casamento Perfeito: Ondas de Choque + Exercícios Excêntricos
É vital entender que as ondas de choque não substituem o fortalecimento. A ciência demonstra que os melhores resultados (padrão-ouro mundial) são obtidos combinando Ondas de Choque com o Protocolo de Alfredson (Exercícios Excêntricos).
Enquanto as ondas de choque estimulam a biologia (formação de células e vasos), o exercício excêntrico (aquele movimento de “descer” o calcanhar no degrau controladamente) fornece o estímulo mecânico para que as novas fibras de colágeno se alinhem na direção correta. Sem o exercício, as fibras novas podem crescer desorganizadas.
Geralmente, o fisiatra libera o início dos exercícios de carga progressiva após a segunda ou terceira sessão de ondas de choque, quando a dor aguda já diminuiu.
Expectativa de Resultados
A cura do tendão é um processo lento (metabolismo braditrófico). Embora haja alívio da dor nas primeiras semanas, a regeneração estrutural do colágeno continua acontecendo por até 3 a 4 meses após a última sessão.
Linha do Tempo da Recuperação Típica
Analgesia pelo bloqueio nervoso. Paciente volta a caminhar melhor.
Pico da produção de colágeno. Retorno gradual à corrida/esporte.
Tendão mais forte e espesso. Risco de recidiva drasticamente reduzido.
Dicas de Ouro Pós-Procedimento
| ✅ O que Fazer (Benéfico) | ⛔ O que Evitar (Prejudicial) |
|---|---|
| Alongamento suave da panturrilha. | Tomar anti-inflamatórios (inibe o efeito da onda). |
| Aplicar gelo apenas se dor intensa (primeiras 24h). | Corridas de impacto ou saltos nas primeiras 3 semanas. |
| Usar calçados com pequeno salto (drop) para aliviar a tensão. | Andar descalço ou com rasteirinhas (estira o tendão). |
| Manter hidratação adequada (essencial para tecidos). | Aplicar calor local intenso logo após a sessão. |
Nota do Especialista em Dor
“Muitos pacientes chegam ao consultório achando que têm ‘esporão’ e que a onda de choque serve para ‘quebrar o osso’. Isso é um mito. O esporão é apenas uma consequência da tração do tendão. O tratamento foca em curar o tendão doente. Quando o tendão sara e relaxa, a dor do esporão desaparece, mesmo que o esporão continue lá na radiografia. Tratamos a função, não a imagem.”
Perguntas Frequentes: Ondas de Choque no Aquiles
O tratamento dói?
A aplicação é desconfortável, pois estamos tratando uma área já inflamada. No entanto, a dor é tolerável e o médico pode ajustar a intensidade. Curiosamente, após os primeiros minutos de aplicação, ocorre um efeito de dormência (analgesia) que torna o final da sessão bem mais tranquilo.
Quantas sessões são necessárias?
A maioria dos protocolos internacionais recomenda entre 3 a 6 sessões. Casos mais recentes podem resolver com 3; tendinopatias de anos com calcificações podem exigir até 6.
Posso treinar durante o tratamento?
Recomenda-se suspender atividades de impacto (corrida, saltos) durante as semanas de tratamento para permitir a regeneração. Atividades de baixo impacto como natação, bicicleta (com pouca carga) e musculação para membros superiores costumam ser liberadas.
Ondas de Choque dissolvem o esporão?
Elas podem fragmentar calcificações moles (em formação) dentro do tendão, facilitando sua reabsorção pelo corpo. Esporões ósseos grandes e consolidados dificilmente somem, mas o tratamento desinflama o tecido ao redor, eliminando a dor.
Existe risco de romper o tendão?
O risco com ondas de choque é praticamente inexistente, ao contrário das injeções de corticoide. As ondas estimulam a produção de colágeno, tornando o tendão mais forte a longo prazo, e não mais fraco.
Qual a taxa de sucesso?
Estudos clínicos apontam uma taxa de sucesso entre 70% e 85% para tendinopatias crônicas de Aquiles que não responderam a outros tratamentos. É considerada a melhor opção não cirúrgica disponível hoje.
O convênio cobre?
O tratamento consta no Rol da ANS (Agência Nacional de Saúde Suplementar) para certas indicações, mas a cobertura varia muito conforme o tipo de plano e as diretrizes de cada operadora. É importante verificar previamente.
Serve para quem tem Haglund?
Sim. A Deformidade de Haglund (osso proeminente no calcanhar) causa atrito no tendão. Embora as ondas não removam o osso, elas tratam a inflamação da inserção do tendão e da bursa, permitindo conviver com a deformidade sem dor em muitos casos.
Posso tomar anti-inflamatório junto?
Geralmente, pede-se para evitar anti-inflamatórios (AINEs) durante o tratamento. O objetivo da onda de choque é justamente criar uma inflamação controlada para regenerar o tecido. O remédio pode “anular” o estímulo biológico da onda.
Quanto tempo dura a sessão?
É um procedimento rápido. A aplicação em si dura cerca de 10 a 15 minutos por pé, dependendo da quantidade de disparos e da frequência utilizada.
Médico especialista em Dor e Fisiatria pela USP. Área de Atuação em Dor pela Associação Médica Brasileira. Doutorado em Ciências pela Universidade de São Paulo. Professor e Colaborador do Grupo de Dor do Hospital das Clínicas da USP.