Síndrome do Interósseo Posterior – Neuropatia e Dor no Antebraço

novembro 28, 2025
escrito por: Dr. Marcus Yu Bin Pai

Médico Fisiatra e Especialista em Dor pela AMB. Doutorado em Ciências pela USP.

O Que é a Síndrome do Interósseo Posterior?

A Síndrome do Interósseo Posterior (SIP) é uma neuropatia compressiva específica que afeta o nervo interósseo posterior, um ramo profundo e motor do nervo radial no antebraço. Diferentemente da síndrome do túnel do carpo, que é amplamente conhecida, a SIP é menos frequente e muitas vezes confundida com o “cotovelo de tenista” (epicondilite lateral) devido à proximidade anatômica da dor.

O ponto crítico desta condição ocorre na estrutura conhecida como Arcada de Frohse, um arco fibroso localizado na borda proximal do músculo supinador. Quando o nervo passa por baixo desse arco, ele pode ser comprimido ou “estrangulado”. Como o nervo interósseo posterior é predominantemente motor, a compressão resulta principalmente em fraqueza muscular nos dedos e no punho, sem a perda de sensibilidade (dormência) típica de outras lesões nervosas.

Caminho da Compressão Nervosa

1. Nervo Radial
Desce pelo braço até o cotovelo.
2. Bifurcação
Divide-se em Ramo Superficial (Sensitivo) e Interósseo Posterior (Motor).
3. Arcada de Frohse (Músculo Supinador)
PONTO DE BLOQUEIO: O nervo é comprimido aqui.
4. Resultado Clínico
Fraqueza na extensão dos dedos (“mão caída” parcial).

Causas e Fatores de Risco

A etiologia da Síndrome do Interósseo Posterior pode ser dividida em causas traumáticas, compressivas espontâneas e anatômicas. O uso excessivo da musculatura do antebraço, especificamente movimentos repetitivos de supinação (girar a palma da mão para cima) e pronação (girar para baixo), é o gatilho mais comum.

Quem está em Risco?

Violinistas Mecânicos Tenistas Pianistas Digitadores Cirurgiões

Qualquer atividade que exija rotação repetitiva do antebraço.

Além do esforço repetitivo, outras causas mecânicas incluem:

  • Massas ocupantes de espaço: Lipomas, cistos ganglionares ou tumores benignos que pressionam o nervo fisicamente.
  • Sinovite reumatoide: Inflamação da articulação do cotovelo em pacientes com artrite reumatoide, causando inchaço que comprime o nervo.
  • Trauma direto: Fraturas da cabeça do rádio ou luxações do cotovelo.

Sintomas: O Sinal da “Mão Caída”

O sintoma clássico da SIP é a fraqueza motora. Ao contrário de outras síndromes compressivas, a dor nem sempre é o sintoma principal, e frequentemente não há alteração de sensibilidade (dormência ou formigamento), pois o nervo interósseo posterior não possui fibras sensoriais cutâneas.

Déficit Motor Específico

O paciente apresenta dificuldade ou incapacidade de estender (levantar) os dedos na articulação metacarpofalângica. O polegar também perde a capacidade de extensão e abdução. Curiosamente, a extensão do punho é preservada, mas ocorre com um desvio radial (a mão se inclina para o lado do polegar ao ser levantada), pois o músculo extensor radial do carpo é inervado antes da compressão.

Síndrome do Túnel Radial

Principal sintoma é DOR profunda no antebraço. Raramente há fraqueza muscular significativa.

Síndrome do Interósseo Post.

Principal sintoma é FRAQUEZA (dedos caídos). A dor pode estar ausente ou ser leve.

Tabela 1: Diferenciação Clínica
Sintoma Sídrome Interósseo Post. (SIP) Epicondilite Lateral (Tenista)
Tipo Principal Motor (Fraqueza) Sensitivo (Dor)
Extensão dos Dedos Comprometida / Impossível Preservada (mas dolorosa)
Local da Dor Profunda no antebraço (se houver) No ossinho externo do cotovelo

Tratamento Não Cirúrgico Detalhado

O tratamento inicial da SIP é quase sempre conservador, exceto quando há uma massa tumoral óbvia comprimindo o nervo. O objetivo é reduzir a inflamação ao redor da Arcada de Frohse e permitir a recuperação da mielina do nervo.

1. Repouso Relativo e Imobilização

A primeira linha de defesa é evitar os movimentos que causam a compressão (supinação repetitiva). O uso de talas (órteses) de punho em posição neutra ou leve extensão pode ser prescrito para uso noturno e durante atividades laborais, a fim de descansar o músculo supinador.

2. Abordagem Farmacológica

  • AINEs (Anti-inflamatórios Não Esteroides): Medicamentos como Ibuprofeno, Naproxeno ou Etoricoxibe são utilizados para reduzir o edema local e a inflamação dos tecidos moles que circundam o nervo. Devem ser usados em ciclos curtos (7 a 14 dias) sob orientação médica para evitar efeitos gástricos.
  • Corticosteroides Orais: Em casos agudos com grande componente inflamatório, um curso rápido de prednisona pode ser indicado pelo ortopedista.
  • Complexo B: Embora controverso, suplementos de vitaminas do complexo B (B1, B6, B12) são frequentemente prescritos como adjuvantes para auxiliar na remielinização e saúde do nervo periférico.

3. Reabilitação e Fisioterapia

A fisioterapia é crucial para manter a amplitude de movimento das articulações enquanto o nervo se recupera. O protocolo inclui:

  • Mobilização Neural (Neurodinâmica): Exercícios específicos que “deslizam” o nervo radial através dos tecidos, prevenindo aderências e melhorando a condução nervosa.
  • Alongamento Suave: Dos músculos extensores e do supinador, sem provocar dor.
  • Eletroestimulação: Uso de TENS para dor ou FES (Estimulação Elétrica Funcional) para manter o tônus dos músculos paralisados e evitar atrofia enquanto o nervo não volta a funcionar.
Dica de Especialista

A recuperação nervosa é lenta. Os nervos crescem/regeneram a uma taxa de aproximadamente 1 mm por dia. Paciência é fundamental. Não espere resultados imediatos com a medicação; a consistência na fisioterapia e no repouso é o que determina o sucesso a longo prazo.

Evolução e Indicação Cirúrgica

Se o tratamento conservador não apresentar sinais de melhora clínica ou eletroneuromiográfica após 3 a 6 meses, a cirurgia de descompressão é indicada. O procedimento envolve a liberação da Arcada de Frohse e de outras bandas fibrosas que possam estar comprimindo o nervo.

Tabela 2: Linha do Tempo Terapêutica
Fase Duração Típica Ação Recomendada
Fase Aguda Semanas 1-4 Repouso, AINEs, Tala, evitar supinação.
Reabilitação Semanas 4-12 Fisioterapia, deslizamento neural, monitorar força.
Decisão Mês 3-6 Nova Eletroneuromiografia. Se sem melhora: Cirurgia.

Prevenção no Dia a Dia

  • Ergonomia: Use teclados ergonômicos que permitam que as mãos fiquem em posição neutra (menos pronada).
  • Pausas: A cada 45 minutos de digitação ou trabalho manual, alongue os antebraços.
  • Técnica: Se pratica tênis ou musculação, revise sua técnica de “backhand” ou pegada para evitar sobrecarga no supinador.
  • Ferramentas: Use ferramentas elétricas em vez de manuais (chaves de fenda) sempre que possível para poupar a rotação do punho.

Perguntas Frequentes (FAQ)

A Síndrome do Interósseo Posterior tem cura?

Sim. A maioria dos casos de origem inflamatória ou por esforço repetitivo se resolve com tratamento conservador (repouso e fisioterapia). Casos causados por cistos ou tumores têm excelente prognóstico após a remoção cirúrgica.

Posso continuar fazendo musculação?

Na fase aguda, deve-se suspender exercícios de membros superiores que exijam preensão (segurar pesos) ou rotação do antebraço (rosca bíceps). O retorno deve ser gradual e supervisionado para evitar recidiva.

Qual exame confirma o diagnóstico?

A Eletroneuromiografia (ENMG) é o padrão-ouro para confirmar a lesão nervosa e medir sua gravidade. A Ressonância Magnética ou Ultrassom são usados para verificar se há cistos ou lipomas comprimindo o nervo.

Sinto dor no cotovelo, é SIP ou cotovelo de tenista?

A dor é muito similar (lateral do cotovelo). A principal diferença é que na SIP há fraqueza para levantar os dedos, o que raramente ocorre no cotovelo de tenista. Um médico especialista pode diferenciar com testes físicos específicos.

Quanto tempo demora para a força voltar?

A recuperação nervosa é lenta. Pode levar de 3 a 12 meses para a recuperação total da força, dependendo do grau de compressão e do tempo que o nervo ficou comprimido antes do tratamento.

Acupuntura ajuda na SIP?

A acupuntura pode ajudar no controle da dor e no relaxamento da musculatura do antebraço (supinador), reduzindo indiretamente a compressão. É uma terapia complementar válida ao tratamento médico padrão.

O que acontece se eu não tratar?

A compressão crônica não tratada pode levar à atrofia irreversível dos músculos extensores dos dedos e do polegar, resultando em perda permanente da função da mão e deformidade.

Gelo ou calor?

Na fase inicial (dor aguda e inflamação), o gelo é mais indicado para reduzir o inchaço. Na fase crônica (rigidez muscular), o calor úmido pode ajudar a relaxar o músculo supinador antes dos alongamentos.

Posso dirigir com SIP?

Se houver fraqueza significativa na mão (dificuldade de segurar o volante ou trocar marchas), não é seguro dirigir. Se a fraqueza for leve, pode ser possível, mas evite longos períodos para não fadigar o braço.

Existe algum remédio caseiro?

Não há “remédio” caseiro que cure a compressão nervosa. Medidas caseiras incluem repouso, ajuste ergonômico da estação de trabalho e aplicação de compressas. A automedicação deve ser evitada.


Rastreador de Sintomas: É SIP?

Responda para verificar se seus sintomas são típicos da Síndrome do Interósseo Posterior.

Checklist: Proteção do Antebraço

Ajuste seu ambiente para descansar o músculo supinador e o nervo radial.

Timer: Alongamento dos Extensores

Estique o braço para frente, palma para baixo. Com a outra mão, puxe suavemente o punho para baixo. Mantenha.

30s

Repita 3x em cada braço. Se sentir dor aguda, pare.

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Médico especialista em Dor e Fisiatria pela USP. Área de Atuação em Dor pela Associação Médica Brasileira. Doutorado em Ciências pela Universidade de São Paulo. Professor e Colaborador do Grupo de Dor do Hospital das Clínicas da USP.