Espondilose Dorsal (Desgaste da Coluna) – Causas, Sintomas e Tratamentos

novembro 28, 2025
escrito por: Dr. Marcus Yu Bin Pai

Médico Fisiatra e Especialista em Dor pela AMB. Doutorado em Ciências pela USP.

O Que é a Espondilose Dorsal?

A espondilose dorsal, frequentemente referida como osteoartrose da coluna torácica, é uma condição degenerativa crônica que afeta as vértebras, discos intervertebrais e ligamentos da região média das costas (coluna torácica). Embora seja menos comum que a espondilose cervical (pescoço) ou lombar (parte inferior das costas) devido à rigidez natural da caixa torácica, ela representa uma causa significativa de dor nas costas em adultos acima de 50 anos.

O processo patológico envolve o desgaste progressivo da cartilagem que protege as articulações facetárias e a desidratação dos discos intervertebrais. Como resposta do organismo para estabilizar a coluna, ocorre a formação de osteófitos, popularmente conhecidos como “bicos de papagaio”. Quando essas alterações estruturais comprimem as raízes nervosas ou a medula espinhal, surgem sintomas neurológicos e dor mecânica significativa.

Prevalência

Estudos radiológicos indicam que sinais de espondilose estão presentes em mais de 80% das pessoas acima de 60 anos, embora nem todas manifestem dor.

Localização

Envolve as 12 vértebras (T1 a T12) que se conectam às costelas, sendo uma área de menor mobilidade, mas vital para a estabilidade do tronco.

Causas e Fatores de Risco

A etiologia da espondilose dorsal é multifatorial. O envelhecimento é o fator primário, resultando em alterações bioquímicas no colágeno dos discos. No entanto, o estilo de vida moderno acelerou o aparecimento dessa condição em populações mais jovens.

Fatores biomecânicos desempenham um papel crucial. A hipercifose (aumento da curvatura das costas, ou “corcunda”) aumenta a pressão na parte anterior das vértebras torácicas, acelerando a degeneração. Além disso, traumas prévios, microtraumas de repetição e predisposição genética são determinantes.

Principais Aceleradores da Degeneração

Envelhecimento Natural Postura Cifótica Sedentarismo Obesidade Tabagismo Trabalho Pesado Histórico Familiar

Sintomas Clínicos Detalhados

Os sintomas da espondilose dorsal podem variar de um leve desconforto matinal a dores incapacitantes. Diferentemente da dor lombar, a dor torácica pode irradiar para a frente do corpo, seguindo o trajeto das costelas, o que frequentemente confunde pacientes e leva à suspeita de problemas cardíacos ou pulmonares.

Dor Axial (Mecânica)

É o sintoma mais comum. Localiza-se na linha média das costas e piora com a movimentação, torção do tronco ou permanência prolongada na mesma posição. Geralmente alivia com o repouso. A rigidez matinal que dura menos de 30 minutos é um sinal clássico de artrose facetária.

Dor Radicular e Neuralgia Intercostal

Quando um osteófito comprime uma raiz nervosa torácica, o paciente pode experimentar uma dor em “cinturão” que envolve o tórax. Essa dor pode ser lancinante, tipo choque ou queimação. Em casos mais graves, pode haver dormência ou parestesia na região abdominal ou peitoral.

Tabela 1: Diferenciação dos Sintomas da Coluna Torácica
Tipo de Sintoma Características Principais Fatores de Piora
Dor Facetária (Articular) Dor localizada, profunda, pontual nas costas. Não irradia para longe. Extensão da coluna (inclinar para trás) e rotação.
Dor Discogênica Dor central, constante, sensação de cansaço ou peso. Flexão (inclinar para frente), sentar por muito tempo.
Radiculopatia Dor em faixa/cinturão ao redor das costelas. Choque ou queimação. Tosse, espirro, esforço evacuatório (Manobra de Valsalva).
Mielopatia (Raro na Torácica) Fraqueza nas pernas, desequilíbrio, alteração esfincteriana. Progressiva com o tempo, requer atenção urgente.

Diagnóstico Médico e Imagem

O diagnóstico é realizado por médico ortopedista, reumatologista ou neurocirurgião. O exame físico busca identificar pontos gatilho, limitações de movimento e sinais neurológicos (reflexos e sensibilidade). A confirmação, no entanto, depende de exames de imagem.

A radiografia simples (Raio-X) é o exame inicial de escolha, sendo suficiente para visualizar a diminuição do espaço entre as vértebras e a presença de osteófitos. A Ressonância Magnética (RM) é reservada para casos onde há suspeita de compressão nervosa, hérnia de disco ou para excluir tumores e infecções.

Tratamento Não Cirúrgico: O Padrão Ouro

A imensa maioria dos casos de espondilose dorsal responde bem ao tratamento conservador. A cirurgia é raramente indicada, exceto em casos de mielopatia (compressão da medula) ou instabilidade grave. O objetivo do tratamento é o alívio da dor e a restauração da função.

Os 3 Pilares do Tratamento Conservador

1. Farmacológico

Controle da inflamação aguda e modulação da dor crônica.

2. Reabilitação Física

Fortalecimento dos paravertebrais e correção da hipercifose.

3. Intervencionismo

Bloqueios e infiltrações para casos refratários.

Opções Farmacológicas Detalhadas

O manejo medicamentoso deve ser escalonado e supervisionado por médico:

  • Analgésicos Simples e AINEs: Paracetamol ou Dipirona para dor leve. Anti-inflamatórios não esteroides (como Ibuprofeno ou Celecoxibe) são usados em ciclos curtos (7-10 dias) para crises agudas, visando reduzir a inflamação facetária.
  • Relaxantes Musculares: Úteis quando há contratura muscular associada (“nós” nas costas). Ciclobenzaprina e Tizanidina são comuns, mas podem causar sonolência.
  • Moduladores da Dor (Gabapentinoides): Se houver dor radicular (queimação nas costelas), medicamentos como Pregabalina ou Gabapentina podem ser prescritos para estabilizar a membrana nervosa.
  • Antidepressivos Tricíclicos: Em doses baixas (ex: Amitriptilina), ajudam no controle da dor crônica e melhoram a qualidade do sono.

Procedimentos Minimamente Invasivos

Quando a medicação e a fisioterapia não surtem efeito após 6 semanas, o médico pode sugerir procedimentos percutâneos (sem cortes):

  • Bloqueio de Ramo Medial: Uma injeção diagnóstica e terapêutica de anestésico e corticoide nas pequenas articulações da coluna.
  • Radiofrequência (Rizotomia): Uso de ondas de calor para cauterizar os nervos sensoriais das articulações facetárias, proporcionando alívio duradouro (6 meses a 1 ano).
Tabela 2: Resumo das Condutas Terapêuticas
Modalidade Indicação Principal Expectativa de Resultado
Fisioterapia Motora Todos os pacientes (fase crônica e manutenção). Melhora a postura e reduz recorrência de crises.
Infiltração com Corticoide Dor aguda intensa que impede a reabilitação. Alívio rápido (dias), efeito temporário (semanas/meses).
Acupuntura Dor miofascial e tensão muscular associada. Auxiliar no controle da dor sem efeitos colaterais químicos.
Cirurgia (Descompressão/Fusão) Déficit neurológico progressivo ou instabilidade. Estabilização definitiva (último recurso).

Sinais de Alerta (Red Flags)

Embora a dor nas costas seja comum, certos sinais exigem avaliação médica imediata para descartar condições graves como fraturas, infecções ou tumores.

⚠️ Atenção Imediata Necessária

  • Perda de força nas pernas: Dificuldade para caminhar ou sensação de pernas pesadas.
  • Incontinência: Perda de controle da bexiga ou intestino.
  • Histórico de Câncer: Dor torácica nova em pacientes com histórico oncológico.
  • Febre associada: Pode indicar infecção na coluna (espondilodiscite).
  • Trauma recente: Quedas ou acidentes, especialmente em idosos (risco de fratura).

Prevenção e Mudanças de Estilo de Vida

A gestão a longo prazo da espondilose dorsal depende menos de remédios e mais de hábitos. A ergonomia no trabalho é fundamental, especialmente ajustar a altura do monitor para evitar a flexão do pescoço e a cifose torácica.

1. Movimento Diário

Caminhadas de 30 min melhoram a hidratação discal.

2. Controle de Peso

Cada kg extra no abdômen aumenta a carga anterior na coluna.

3. Pausas Ativas

Levantar a cada 45 minutos de trabalho sentado.

4. Cessação do Tabagismo

A nicotina constringe vasos sanguíneos, reduzindo nutrientes para os discos.

Perguntas Frequentes (FAQ)

A espondilose dorsal tem cura?

A espondilose é uma condição degenerativa crônica e não tem “cura” no sentido de reverter o desgaste ósseo. No entanto, os sintomas podem ser completamente controlados e o paciente pode viver sem dor com tratamento adequado.

Posso fazer musculação com espondilose?

Sim e deve. O fortalecimento muscular é essencial para proteger a coluna. No entanto, evite exercícios com carga vertical direta sobre a coluna (como agachamento com barra nas costas) durante as crises de dor e sempre tenha supervisão profissional.

Qual o melhor colchão para quem tem esse problema?

Geralmente, colchões de densidade intermediária a firme são os mais indicados. Colchões muito moles não oferecem suporte adequado para a curvatura torácica, enquanto os excessivamente duros podem aumentar a pressão nas articulações doloridas.

A dor da espondilose dorsal afeta o coração?

Não afeta o coração diretamente, mas pode simular dor cardíaca. Dores que irradiam para o peito devido à compressão de nervos torácicos podem ser confundidas com angina. Sempre procure um cardiologista para descartar problemas cardíacos primeiro.

O que são os “bicos de papagaio”?

São osteófitos, formações ósseas que o corpo cria na tentativa de estabilizar uma articulação desgastada. Eles aumentam a superfície de contato da vértebra, mas podem acabar comprimindo nervos vizinhos.

Aplico gelo ou água quente?

Na espondilose crônica, a compressa quente é geralmente melhor, pois relaxa a musculatura tensa e melhora a circulação local. O gelo é reservado para inflamações muito agudas ou logo após um trauma.

Pilates é bom para espondilose dorsal?

Excelente. O Pilates foca no fortalecimento do “core” (musculatura abdominal e lombar) e na mobilidade da coluna, sendo uma das atividades mais recomendadas pelos médicos para manutenção a longo prazo.

Quanto tempo demora para a crise passar?

Uma crise aguda bem tratada com medicação e repouso relativo costuma melhorar significativamente em 1 a 2 semanas. A dor residual leve pode persistir por mais tempo até que o fortalecimento muscular faça efeito.

O uso de colete ajuda?

Coletes posturais podem oferecer alívio temporário, mas não devem ser usados por longos períodos, pois podem causar atrofia (enfraquecimento) da musculatura da coluna, tornando-a dependente do suporte externo.

Vitamina D ajuda na espondilose?

A Vitamina D é crucial para a saúde óssea geral e prevenção de osteoporose, mas não reverte a artrose ou os bicos de papagaio. Manter níveis adequados é importante para evitar dores ósseas difusas.


Diário de Dor para Consulta Médica

Preencha os dados abaixo para gerar um resumo claro dos seus sintomas para levar ao seu médico.

5

Guia Rápido: Ajuste sua Mesa

Siga os passos para reduzir a carga na coluna torácica agora mesmo.

Passo 1: Monitor

O topo da tela deve estar na linha dos seus olhos. Se precisar olhar para baixo, use livros para elevar o monitor.

Passo 2: Cotovelos

Devem formar um ângulo de 90 graus. Se a mesa for alta, suba a cadeira e use um apoio para os pés.

Passo 3: Lombar

Sente-se no fundo da cadeira. Use uma almofada pequena na lombar se a cadeira não tiver curvatura.

Timer: Pausa Ativa

A cada 45 minutos, levante-se e estique os braços para cima e para trás para abrir o peito e combater a cifose.

45:00
Website |  + posts

Médico especialista em Dor e Fisiatria pela USP. Área de Atuação em Dor pela Associação Médica Brasileira. Doutorado em Ciências pela Universidade de São Paulo. Professor e Colaborador do Grupo de Dor do Hospital das Clínicas da USP.